A Liga da redenção

  • por Victor Mendes Xavier
  • 4 Anos atrás

13 de dezembro de 2014. O Barcelona sai do Coliseum Alfonso Pérez cabisbaixo. O empate por 0x0 contra o Getafe deixa a equipe a quatro pontos do Real Madrid. O cenário é amplamente favorável aos madridistas. Campeões europeus, os comandados de Carlo Ancelotti encaixam uma sequência de 16 jogos consecutivos vencendo na Liga Espanhola. Seria difícil imaginar uma reviravolta nesse cenário. Naquele momento, o Barcelona agonizava com problemas ofensivos, dúvidas quanto à capacidade de seu treinador e dependência de Messi e lampejos de Neymar.

17 de maio de 2015. Cinco meses e muitas histórias depois, o Barcelona comemora o título espanhol na casa daquele adversário que, em 2013/2014, foi seu grande pesadelo, o Atlético de Madrid. O que parecia utópico atualmente não é difícil de constatar: o Barça de Luis Enrique é o grande time da temporada. Na trilha da tríplice coroa, o triunfo em âmbito doméstico foi sofrido, mas merecido e coerente. Nos momentos controversos, personagens de destaque sustentaram a equipe.

Ponto para Luis Enrique e o auxiliar-técnico Juan Carlos Unzué, que construíram um Barcelona surpreendentemente sólido na bola parada defensiva. Terror de Tito Vilanova e Gerardo Martino, a jogada pouco incomodou os blaugranas na temporada e foi eficiente no ataque. Como não lembrar dos gols de Mathieu contra Real Madrid no Camp Nou e Celta Vigo no Balaídos?

Exatamente um ano depois de cair para o Atlético de Madrid no Camp Nou, a redenção do Barça está completa. Naquele dia 17 de maio de 2014, Messi foi criticado como poucas vezes por “não dar o sangue pela equipe” e “estar se poupando para a Copa”. Quis o destino que o gol do título fosse do argentino. Seu sétimo troféu em dez anos de carreira consolida a dinastia do camisa 10 na Espanha. Não há dúvidas de que ele é o melhor jogador de La Liga 2014/2015 e caminha a passos largos para recuperar a Bola de Ouro da Fifa novamente.

A Liga de Messi também deve ser compartilhada com um destacável Bravo, um sublime Piqué, (talvez melhor zagueiro do campeonato), um aguerrido Mascherano, um veloz Alba, um saliente Busquets, um onipresente Rakitic, um prodigioso Neymar, um persistente Suárez e um brilhante Daniel Alves, aquele lateral que merece mais respeito principalmente dos culés. Em bom momento, o baiano brilhou, foi decisivo e ajudou o Barcelona nas três fases distintas que viveu. Mas como foram essas fases? Explicamos abaixo.

O primeiro Barcelona: pontas por dentro, Messi de 10 e laterais gerando profundidade

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Luis Enrique iniciou a temporada sem Suárez, que só poderia estrear três meses depois graças à suspensão imposta pela FIFA devido à mordida do uruguaio em Chiellini durante a Copa do Mundo. Ainda conhecendo o elenco, o treinador catalão diversificou por muitas rodadas o onze inicial. De começo, disposto a acabar com o problema de profundidade do Barça nos últimos anos, Lucho priorizou bastante as subidas de Alba e Daniel Alves. Com seus meias mais recuados para cobrir os laterais, o espanhol recuou Messi para uma função mais parecida a de um camisa 10, deslocando seus pontas para dentro do sistema ofensivo, mais próximos à área. Aquele parecia ser o caminho para o argentino após uma temporada complicada com Martino.

Nesse período, Luis Enrique tentou maximizar a qualquer custo as qualidades de dois canteranos: Sandro Ramírez e Munir El Haddadi. O segundo, em especial, passou a ser visto com mais atenção após decidir com brilhantismo a Uefa Youth League pelo time juvenil. Sandro, por sua vez, garantiu uma vitória importantíssima ao Barcelona na segunda rodada. Ele entrou num jogo difícil contra o Villarreal no El Madrigal e marcou o gol da vitória por 1×0, após passe de Messi. A dupla recebeu menos chance nos meses seguintes, mas a blindagem de Luis Enrique e da comissão técnica continua intacta. Não à toa, Lucho levou os dois para junto do elenco no jogo do título contra o Atlético de Madrid.

O segundo Barcelona: força pelos lados e lateral de “falso meio-campista”

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Em janeiro, o Barcelona evoluiu. Quando uma crise extracampo parecia próxima de ser instalada, os azulgrenás deram a melhor resposta possível: jogando bola. No terceiro jogo do ano, contra o Atlético de Madrid, uma exibição. A vitória por 3×1 veio na hora certa e fixou o sistema daquele mês: o 4-3-3 com Neymar e Messi bem abertos nas pontas, gerando superioridade e desequilibrando com seus dribles. Com o camisa 10 tão próximo à linha lateral, Luis Enrique mostrou grande percepção tática solucionando o problema com Daniel Alves e suas idas ao ataque. Por causa da presença de Messi no flanco, as subidas do brasileiro poderiam não surtir tanto efeito. Para não subutilizá-lo, Lucho encarregou ao baiano a função de “falso meio-campista”, a qual ele cumpriu positivamente na primeiro temporada de Guardiola. Ou seja: Daniel Alves apareceu mais por dentro do meio-campo, às vezes até na posição de Rakitic.

O segundo Barcelona deixou evidente o que seu treinador buscava: mais verticalidade e velocidade. O Barça do tiki-taka estava distante. O Barça das transições velozes começava a ser construído. Foram 26 gols em oito jogos, sendo sete em três contra o Atlético de Madrid. Com Messi definitivamente recuperado física e tecnicamente, Neymar cada vez mais solto e Suárez mostrando por que foi uma contratação certeira, Luis Enrique preparou seu último e definitivo Barcelona.

O terceiro Barcelona: trio MSN e guardiolismo

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O salto final rumo à versão atual e às taças, com o trio Messi, Suárez e Neymar plenamente adaptados e sendo o centro das atenções. Messi seguiu partindo da ponta, mas não era mais o autêntico extremo de janeiro. Dessa vez, o deslocamento do argentino era ao centro, mas levemente recuado, mais próximo a Busquets e Iniesta, e o passe em diagonal para Alba ou Neymar definiu o mecanismo mais poderoso do time.

Em alguns jogos, Luis Enrique rompeu com seu estilo mais vertical para dar vez aos princípios de Johan Cruyff e Josep Guardiola. Em especial no primeiro tempo do empate por 2×2 contra o Sevilla e na vitória por 2×0 contra o Espanyol, o Barça flertou com princípios do famoso e rígido jogo posicional guardiolista, teve seu meio de campo presente criando triângulo e manuseando a bola, e manteve a posse a seu favor. Foi o momento do melhor Iniesta na campanha.


Dessa maneira, Luis Enrique e seus jogadores adaptaram-se a cada momento que viveram, driblaram as adversidades e subiram de produção de maneira devastadora. Aproveitando-se do declínio do Real Madrid, os catalães fizeram um segundo turno de ouro e agarraram a primeira posição para não soltar mais. A taça está em boas mãos.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.