A mão de Luis Enrique no melhor Barcelona pós-Guardiola

  • por Lucas Sousa
  • 3 Anos atrás

Depois de quatro anos, o Barcelona está em uma final de Liga dos Campeões. Em 2011, o time de Guardiola não tomou conhecimento do Manchester United e venceu por 3 a 1 em Wembley, coroando uma campanha incontestável. Desde então, nem Pep, nem Barça voltaram à decisão continental e quis o futebol que os dois se cruzassem e decidissem entre si quem voltaria a uma primeiro. Deu Barcelona, mas o grande vencedor foi um terceiro espanhol: Luis Enrique.

Graças a Enrique, a era tiki-taka é passado na Catalunha. O Barça 2014/2015 continua valorizando a bola e controlando o jogo a partir da posse, entretanto, é muito mais vertical e incisivo. É menos passe para o lado e mais para a frente. Isso é resultado do trabalho do treinador, mas obviamente também passa pelos jogadores a sua disposição.

Foto: FC Bayern Munchen

Foto: FC Bayern Munchen

Xavi, o homem que controlava o meio-campo e maior símbolo do antigo futebol azul-grená, não é mais o mesmo. Em compensação, chegaram ao Camp Nou os atacantes Suárez e Neymar. Sem um jogador para ditar o ritmo e com dois homens de frente que partem para cima do adversário, o técnico mudou o foco da equipe.

Se antes o jogo blaugrana era concentrado no meio-campo, agora prioriza o ataque, no trio Messi, Suárez e Neymar. Faz total sentido perder um pouco do controle da bola na faixa central para aproveitar ao máximo a agressividade dos atacantes. E o maior símbolo dessa mudança é o camisa 10. Messi deixou de ser falso nove, função atribuída por Guardiola para ajudar no domínio do meio, e voltou à ponta direta. Esse deslocamento aproveita a arrancada do argentino, e lhe permite ajudar na construção das jogadas por dentro ou pelo lado. Em suma, aproveita o vasto repertório de dribles, passes, infiltrações e, claro, finalizações de Lionel.

Foto: Miguel Ruiz/FCB - O ataque de 114 gols do Barcelona

Foto: Miguel Ruiz/FCB – O ataque de 114 gols do Barcelona

A consolidação do novo Barça veio na prova de fogo do novo treinador, contra Pep Guardiola e o Bayern de Munique. Frente ao seu maior desafio, Luis Enrique não se intimidou, e venceu sem abrir mão do seu estilo. Jogando em casa, o Barcelona teve 47% do tempo com a bola nos pés, mas finalizou 20 vezes (oito na meta) contra cinco do Bayern (todas para fora) e marcou três gols. No jogo da volta, os mesmos 47% de posse, agora com cinco finalizações (quatro no gol), duas bolas na rede e a passagem para Berlim comprada. Ter a bola é importante, mais importante ainda é saber o que fazer com ela, e o time de Luis Enrique sabe.

Os gols de Neymar na Alemanha mostram bem isso. No primeiro, após cinco passes o Barcelona colocou a bola na casinha de Neuer. O time que antes rondava a área e trocava 20, 30 passes antes de finalizar, agora marca gols após cinco toques. No segundo, Mascherano faz ligação direta, Messi desvia de cabeça para Suárez, que serve o brasileiro. A ligação direta, quase inexistente na era Pep, castigou o treinador catalão. O Barcelona não é pragmático, está longe de ser. É, sim, (muito) eficiente, letal. Quando chega, marca. E o trio MSN já fez isso 114 vezes na temporada.

Foto: ESPN - Mapa de passes do primeiro gol de Neymar contra o Bayern de Munique

Foto: ESPN – Mapa de passes do primeiro gol de Neymar contra o Bayern de Munique

E para aproveitar ainda mais a eficiência desse ataque, nada como pegar a defesa adversária desprevenida. O contra-ataque entrou no jogo do Barcelona, e como entrou. O time passou a ser perigoso mesmo quando não tem a bola e Guardiola admitiu que esse é um dos grande desafios quando se enfrenta Messi e companhia.

“Eles ainda têm a posse de bola e agora acrescentaram esse elemento do contra-ataque. Se você se desorganiza, eles têm essa arma para fazer gols. Hoje eles têm o melhor contra-ataque do mundo.”

Nessa valorização da transição ofensiva, Enrique fez Neymar recompor o meio-campo quando o time não tem a bola, algo quase impossível quando o camisa 11 ainda estava no Santos. Messi também não realizava essa tarefa, e agora a desempenha (bem menos que o brasileiro, é verdade). Quando não é o argentino, é Suárez quem fecha o lado direito. O mais importante é que o trio compreende a importância de trabalhar em prol do time mesmo sendo as estrelas. Não é porque fizeram 114 gols que vão ficar na banheira, esperando a bola chegar. Eles entendem que existe toda uma construção coletiva e que as diferentes fases do jogo (ofensiva, defensiva e transições) estão intimamente ligadas. É um grande acerto de Luis Enrique, que diziam ter problemas com alguns jogadores, em especial com o argentino.

Contudo, ainda existe um pouco de Guardiola no Barcelona. E existirá enquanto Messi, Iniesta e todos que foram treinados pelo técnico estiverem vestindo a camisa do clube. Pep moldou grande parte dos jogadores que compõem o atual elenco e teve influência direta no êxito desses atletas. Jamais devemos descartar seu excepcional trabalho a frente do Barça. O que não diminui nem um pouco a era Luis Enrique, pelo contrário. Seus antecessores falharam na tentativa de manter ou romper com o tiki-taka. O atual comandante manteve uma base do time de Guardiola e adicionou repertório, fez o Barcelona evoluir taticamente, e esse é o grande mérito de Luis Enrique.

Foto: FC Barcelona

Foto: FC Barcelona

O Barça 2015 caminha para a prática do futebol do futuro, um futebol de repertório, assim como o Bayern de Munique e a Seleção Alemã. Um time que sabe (e consegue) fazer de tudo: pressionar em diversos níveis, jogar com ou sem a bola, ter intensidade o tempo todo. Aos catalães, falta ainda a jogada aérea, grande ponto fraco da época de Guardiola. O time evoluiu nas bolas que são alçadas na sua área, mas ainda é pouco efetivo no ataque, muito por conta da estatura de seus jogadores. Mesmo assim, o Barcelona voltou a ser o melhor time da Europa. Pode até perder a final da Liga dos Campeões, mas Luis Enrique merece ser aplaudido pelo seu trabalho independentemente do resultado em Berlim.

A transição pós-Guardiola, que teve início com Tito Vilanova e passou por Jordi Roura e Tata Martino, só foi completa com a chegada do atual treinador. Hoje os blaugranas podem dizer que estão de volta ao mais alto escalão do futebol europeu e mundial. Depois de problemas internos e uma quase demissão, Luis Enrique fez o que seus três antecessores não conseguiram: recolocar o Barça no topo. E fez isso porque foi quem melhor conseguiu mesclar parte da era Pep àquilo que de mais atual existe no futebol. Existe um dedo de Guardiola no Barcelona finalista, porém, a mão é de Luis Enrique.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.