De patinho feio a referência: a trajetória de Otamendi

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Membro de uma famosa escola argentina, de onde saíram nos últimos anos jogadores da estirpe de Héctor Canteros, Ricky Álvarez e Jonathan Cristaldo, Nicolás Otamendi deu seus primeiros passos na equipe profissional do Vélez Sarsfield, no já distante ano de 2008, em partida contra o Rosário Central. Rapidamente, o buenairense caiu nas graças da torcida, sempre com demonstrações de muita qualidade técnica, disposição e incomum impulsão.

Foto: velezsarsfield.com.ar

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À época, no início de 2009, ainda se afirmando e pouco após receber sua primeira convocação para a Seleção Argentina, com muita humildade, em entrevista ao La Nación dedicou seu sucesso à sua família, garantindo a manutenção dos pés no chão e também ressaltando a importância de seus companheiros para sua forma e desenvolvimento.

“Me tire do futebol, me mande trabalhar e eu não sei fazer nada. Toda a minha vida joguei futebol, não sei levantar uma pá. Mas tive a sorte de chegar e espero que isto siga para o futuro, para ajudar toda a minha família. (…) [Quando soube da convocação] Estava com minha filha, fora de casa. Me chamaram de uma rádio e me avisaram que tinha sido chamado. Depois minha velha me disse. Para um garoto como eu é algo muito importante. Que jogador não gostaria de ir à um Mundial ou jogar as eliminatórias? (…) Tenho que seguir tranquilo, isso acabou de começar. Tenho que manter a humildade. (…) Meus companheiros falam muito comigo, me parabenizam, mas também me dizem para manter os pés no chão”, disse, ainda um garoto de 21 anos.

Foto: velezsarsfield.com.ar

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Revelado em 2008, imediatamente titular e convocado em 2009. O que poderia ser melhor? Títulos! E logo veio seu primeiro. Disputando a tapa cada ponto, contra o excelente time do Huracán, treinado por Ángel Cappa e que contava com Javier Pastore e Mario Bolatti, o Vélez conquistou o torneio Clausura de 2009 e uma vaga na Copa Libertadores de 2010. Meteoricamente, sua carreira se alavancava e seu grande sonho se realizou.

Foto: velezsarsfield.com.ar

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Com exatos 52 jogos em sua curta carreira como profissional, viveu dia de glória em 19 de maio de 2010. Admirado por Diego Armando Maradona, Otamendi foi chamado a representar a Seleção Argentina na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul. E foi em um dos momentos mais gloriosos de sua vida que sua carreira sofreu os maiores sobressaltos.

Aposta pessoal do Pibe de Oro, iniciou o Mundial no banco de reservas. Não obstante, com a suspensão do meia Jonas Gutierrez, que vinha atuando improvisado na lateral direita, ganhou oportunidade no setor na última partida da fase de grupos, contra a Grécia, e foi bem.

Assim, seguiu como titular nas partidas contra México e Alemanha, todavia, não tão bem. No retorno à Argentina, um dos jogadores mais criticados após o massacre germânico, por 4×0, Otamendi reconheceu que não apresentou seu melhor, mas afirmou que todo jogador quer “sempre jogar, ainda que fora de sua posição”.

Foto: FCPorto.pt

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Embora tenha deixado o continente africano em baixa, estava claro que o Estádio José Amalfitani havia ficado pequeno para o talento do argentino, que, em 23 de agosto, firmou contrato com o Porto, onde chegou a viver curtos períodos de críticas, que apenas pontuaram uma trajetória vitoriosa. À época de sua contratação, foi elogiado por André Villas-Boas:

“Otamendi é um jogador importante que irá acrescentar qualidade ao plantel. Desde a partida do Bruno Alves estava à procura de um jogador como ele (Otamendi) porque seria uma mais-valia para o Porto. É um jogador com grande poder de antecipação e construção de jogo. Adequa-se perfeitamente no perfil que traçamos para esta equipe. Agora, a sua adaptação ao futebol do FC Porto irá depender da assimilação de processo.”

Foto: FCPorto.pt

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E sua adaptação não demorou. Logo em sua primeira campanha com a camisa dos Dragões, jogou 32 vezes e marcou seis gols, nada mal. Além disso, o beque foi importante para as conquistas da Europa League, do Campeonato Português e da Taça de Portugal, que marcaram sua temporada de estreia em terras lusas.

Ao todo, até fevereiro de 2014, Otamendi honrou o emblema portista em 122 jogos, balançando as redes adversárias nove vezes. Junto a isso, conquistou mais dois Campeonatos Portugueses e três Supertaças Cândido de Oliveira. Contudo, havia chegado a hora de partir para voos mais altos e, por 12 milhões de euros, o argentino firmou pelo Valencia.

A despeito disso, um breve, porém extremamente valioso, empréstimo ao Atlético Mineiro, ainda viria, uma vez que a contratação havia sido processada após o período de inscrições dos campeonatos europeus. Contestado pelos valores da transferência, Francisco Rufete, diretor-esportivo do Valencia, foi enfático:

“Se 12 milhões de euros é muito? Não vou entrar nessa conversa, porque o que me interessa é fazer crescer a equipe e uma equipe cresce com grandes jogadores como Otamendi. Chega por esse valor e cada um pode dizer se acha muito ou pouco… Agora, a verdade é que é um internacional, tem 25 anos…”

Foto: Bruno Cantini/CAM

Foto: Bruno Cantini/CAM

Nas Minas Gerais, com muita garra e técnica, conquistou imediata identificação com o torcedor do Galo, que se via sem seu grande capitão: Réver, o qual passava inferno astral com incontáveis e incuráveis lesões. A vinda à América representava uma tentativa de convencer Alejandro Sabella de que deveria ser chamado para a Copa do Mundo daquele ano.

Ao final, foram quatro breves e ricos meses no Galo. Apesar de nada ter conquistado em Belo Horizonte, jogou em alto nível e conseguiu um lugar na lista de 30 jogadores de sua Seleção, sendo cortado da lista final. Pelo alvinegro, disputou 19 jogos, marcou um gol e ao sair deixou um “até logo” em seu instagram pessoal.

“Há muito tempo que eu não vejo um jogador com está qualidade. Tecnicamente, taticamente, ele é bom em todas as áreas que você pode ter em um atleta,” disse Levir Culpi em entrevista coletiva.

Foto: valenciacf.com

Foto: valenciacf.com

De volta ao Velho Continente, havia chegado a hora de Otamendi deixar de ser visto apenas como um bom zagueiro. Era tempo de confirmar os prognósticos do início de sua carreira e virar referência. Em uma equipe que sofreu profunda remodelação, sob o comando do português Nuno Espírito Santo, o beque cresceu e faz brilhante temporada.

Tranquilo, raçudo, dono de excelente posicionamento, rapidez e tempo de bola, voltou a ser cobiçado pelas maiores equipes de todo o mundo e fez jogos memoráveis. No total, já entrou em campo com a camisa do Valencia em 38 ocasiões, marcando seis tentos. Um leão em ambas as partidas contra o Barcelona, autor de gols da vitória contra Atlético de Madrid e Real Madrid, ajudou imensamente sua equipe a voltar a sonhar com as posições superiores da tabela do Espanhol e levou o time a um saldo extremamente positivo contra as grandes potências do país: duas vitórias, dois empates e duas derrotas.

Com desempenho fantástico, sua precoce saída do Valencia tem sido especulada e o Manchester United é apontado como possível destino do argentino, que integra a lista de 30 jogadores convocados para a Copa América e ganhou elogios de Tata Martino:

“Não se pode negar o excelente nível que hoje têm Otamendi e Garay nas suas equipas. Acredito que o Otamendi está no grupo restrito dos melhores centrais do mundo, o problema é que chama pouco à atenção”, afirmou em entrevista ao Diario Popular.

Foto: valenciacf.com

Foto: valenciacf.com

Elogiado por todo o mundo, o zagueiro de “apenas” 1,83m se transformou em um gigante. Chamado carinhosamente de “Otamito” e “Otamonstro” pela torcida do Atlético, Otamendi se confirmou um grande jogador na escala internacional e ruma a passos largos para a conquista de um lugar em algum dos maiores clubes do planeta. Aos 27 anos, vive a plenitude de sua forma e merece todos os elogios que tem recebido, uma vez que teve personalidade para lidar com pesadas críticas no início de sua carreira e, por méritos próprios, deixou de ser patinho feio e se transformou em referência.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.