Geração blue: Chelsea e sua Base sólida

  • por Lucas Sousa
  • 4 Anos atrás

Em 2003, o milionário russo Roman Abramovich comprou o Chelsea. Disposto a colocar o clube no mais alto escalão europeu, não economizou na hora das contratações e diversas estrelas chegaram a Stamford Bridge. Porém, enquanto reforçava o elenco principal, também investia nas categorias de base, melhorando a estrutura, reformulando o quadro de funcionários e adquirindo jovens jogadores de outros clubes. Agora, depois de 12 anos do mandatário russo em Londres, os Blues começam a colher os frutos dos seus investimentos.

Sucesso das categorias de base

Nos últimos anos, as categorias de base do Chelsea vêm se consolidando entre as melhores da Inglaterra e da Europa. No cenário nacional, o clube é o atual bicampeão da FA Youth Cup, a FA Cup sub-18. Das últimas seis edições do torneio, os Blues levaram quatro e quebraram um jejum de 49 anos sem esse título. Também venceu uma das três edições da Premier League sub-21, em 2014. O principal título, porém, veio nesta temporada com a conquista da UEFA Youth League, a Liga dos Campeões sub-19, após derrotar o Shakhtar Donetsk na final.

Foto: Football Association - Chelsea levanta a taça da FA Youth Cup em 2015

Foto: Football Association – Chelsea levanta a taça da FA Youth Cup em 2015

O sucesso do trabalho feito em Cobham também pode ser visto nas seleções de base.

(O lema final do vídeo – sobre a altíssima qualidade do centro de treinamento de Cobham – resume bem a política da gestão Abramovich : “No Chelsea, a energia é investida nos jogadores”.)

Se no elenco principal o zagueiro Cahill é o único representante do time, as equipes de jovens ingleses são recheadas de blues. Para a disputa do Europeu sub-21, foram chamados três: Nathaniel Chalobah (20 anos), Ruben Loftus-Cheek (19) e Patrick Bamford (21). Dominic Solanke (17) e Izzy Brown (18) são presenças certas no elenco sub-18 e 19. Ao todo, cerca de 12 atletas integram as seleções de base inglesa, um ótimo número se comparado ao elenco principal. Diversos atletas de outras nacionalidades também compõem as seleções de seus países, como Jeremie Boga (França), Charly Musonda (Bélgica) e Ali Suljic (Suécia).

Foto: Chelsea FC - Jogadores comemoram a conquista da UEFA Youth League

Foto: Chelsea FC – Jogadores comemoram a conquista da UEFA Youth League

Mas não adianta muito conquistar títulos na base se esses jogadores não se tornarem atletas profissionais consolidados. Esse tipo de pensamento tem surgido com força no time londrino e Mourinho chegou a afirmar que a maior conquista da equipe não foi levantar a taça da FA ou UEFA, mas sim a revelação de Loftus-Cheek. São os frutos dos investimentos feitos por Abramovich, que precisam de uma mudança na mentalidade do clube para se consolidar.

Mudança de pensamento

Para o projeto do russo funcionar, os Blues precisam virar a chave. A gastança precisa dar lugar a contratações pontuais e uma valorização maior da base. A política de utilizar somente jogadores prontos em detrimento do desenvolvimento de jovens não pode reinar como outrora no clube londrino. E ninguém melhor que José Mourinho para tocar esse projeto.

O português não teria tanta pressa e ansiedade para buscar os títulos a qualquer custo e fazendo contratações mirabolantes. Além disso, é um treinador renomado, que já conquistou os mais importantes títulos da Europa e recebe um carinho incomum por parte dos torcedores. Um técnico que se sente em casa no Chelsea e conhece o clube como poucos. Com toda sua experiência, o português é o homem ideal nesse período de transição. E ele abraçou a nova mentalidade.

Prova disso é a temporada atual. Somando as duas janelas de transferências (de verão e inverno), o Chelsea arrecadou 10 milhões de libras (Transfermarkt) nas suas transações. Mourinho não vendeu nenhum titular e ainda adquiriu Fàbregas e Diego Costa, fundamentais na conquista da Premier League. Com exceção das saídas de Torres e Demba Ba, o time londrino lucrou em todas as transações, sendo que duas delas envolviam pratas-da-casa. Bertrand e van Aanholt surgiram como “o novo Ashley Cole”, mas nunca se firmaram em Stamford Bridge.

Arte: Doentes por Futebol

Arte: Doentes por Futebol

Durante o último período de negociações, o Special One afirmou que o pensamento no Chelsea mudou: agora o foco é produzir o dinheiro para depois gastá-lo.

“Nós estamos ganhando dinheiro para termos condição de gastar dinheiro. O Chelsea neste momento está ganhando mais dinheiro em transferências do que gastando.”

Desenvolvimento dos jovens

Enquanto time de jogadores prontos, os Leões de Londres viram alguns de seus atletas rejeitados brilharem com outras camisas. Sturridge e De Bruyne renderam, aproximadamente, 22 milhões de libras aos cofres azuis, mas foram vítimas dessa política que dava pouco espaço aos jovens. Atualmente, ambos poderiam ser peças importantes no elenco. O caso mais emblemático, porém, é o de Matic. O volante sérvio foi comprado pelos Blues em 2009, mas teve poucas chances no time titular e foi vendido ao Benfica por quatro milhões de libras dois anos depois. Em janeiro do ano passado, retornou a Londres mediante a quantia de 22 milhões de libras. Talvez se aquele Chelsea de 2009 tivesse uma mentalidade diferente (mais próxima à de 2015), Abramovich não teria gasto 18 milhões de libras com o volante.

Foto: Football Association - Sturridge teve boa passagem pelo Chelsea

Foto: Football Association – Sturridge teve boa passagem pelo Chelsea

Com um elenco menos recheado de estrelas por conta de regras da federação inglesa e do Fair Play Financeiro, o Chelsea busca aproveitar melhor seus atletas e evitar a repetição de casos como o de Matic. No início da temporada, três jogadores subiram para o plantel principal: o zagueiro Andreas Christensen, o zagueiro/lateral-esquerdo/volante Nathan Aké e o meio-campista Lewis Baker. Ao longo dos jogos, mais três atletas passaram a treinar entre os profissionais: o goleiro Jamal Blackman, o volante Ruben Loftus-Cheek e o atacante Izzy Brown. Embora não tenha sido promovido, o atacante Domic Solanke chegou a jogar alguns minutos na Liga dos Campeões.

É verdade que eles tiveram poucas oportunidades de jogar pelo profissional, mas Mourinho ressalta a importância da vivência diária com o grupo profissional no desenvolvimento dos jogadores.

“Dessa equipe que venceu a UEFA Youth League, quatro jogadores pertencem ao meu plantel. Quatro são meus jogadores, jogadores do elenco principal que treinam com a primeira equipe a cada dia e se desenvolvem com o elenco principal. O desenvolvimento deles é mais fácil quando eles estão treinando todos os dias com o time de cima, fazendo pré-temporada, jogando algumas partidas, jogando 20 minutos ou meia hora.”

Foto: Everton FC - Atsu foi emprestado ao Everton após boa Copa do Mundo

Foto: Everton FC – Atsu foi emprestado ao Everton após boa Copa do Mundo

Além de treinar com o elenco principal, uma etapa importante no desenvolvimento dos atletas é o empréstimo para outros clubes, quase sempre de menor expressão. Christian Atsu, Lewis Baker, Patrick Bamford, Nathaniel Chalobah e Tomas Kalas são os principais blues vestindo outras camisas. A ideia é que esses atletas sejam utilizados com frequência para ganhar experiência e rodagem entre os profissionais, retornando ao comando de Mourinho com uma bagagem maior. Geralmente os jogadores envolvidos nessas negociações são mais velhos (21 anos) e já estouraram a idade dos times de base.

“Eles (os jogadores da base) pertencem a um processo que não permite que eu tenha dez desses jovens no meu elenco, mas eu posso ter três ou quatro. Alguns dos mais velhos vão sair por empréstimo para jogar todos os jogos na Championship, na Premier League, ou até mesmo no exterior. E vamos trazer alguns dos mais jovens ao processo.”

A geração blue

“Se, em alguns anos, Baker, Brown e Solanke não se tornarem jogadores da seleção inglesa, eu serei o culpado”.

A corajosa frase dita por José Mourinho mostra o tamanho da expectativa criada para os próximos anos. Se na última década John Terry foi a única cria do clube a atingir alto nível, o futuro se mostra bastante promissor. Bamford e Loftus-Cheek se juntam aos três nomes citados pelo Special One como os principais destaques dessa “geração blue”, formada somente por ingleses.

Lewis Baker

Foto: Chelsea FC - O promissor Lewis Baker deve receber chnaces com Mourinho em breve

Foto: Chelsea FC – O promissor Lewis Baker deve receber chances com Mourinho em breve

Lewis Baker (20 anos) chegou ao Chelsea para integrar o sub-10. O meio-campista ambidestro e de técnica elogiável esteve em todas as equipes de desenvolvimento, sendo nomeado o jogador jovem do clube em 2013/14. Assinou um contrato de cinco anos em agosto de 2014, quando passou a integrar o elenco principal. Passou a segunda metade da temporada no MK Dons e ajudou o time a subir para a Championship. Também esteve nas seleções inglesa sub-16, 17, 19, 20 e 21.

Patrick Bamford

Foto: Chelsea FC - Patrick Bamford deve retornar ao Chelsea após boa passagem pelo Middlesbrough

Foto: Chelsea FC – Patrick Bamford deve retornar ao Chelsea após boa passagem pelo Middlesbrough

O mais velho desse grupo é também quem tem mostrado mais trabalho. Patrick Bamford (21 anos) foi fundamental durante a campanha do Middlesbrough na Championship. O jovem não conseguiu conduzir seu time à Premier League, mas terminou o campeonato com 17 gols e o prêmio de melhor jogador da liga.

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Bamford ostentando seu prêmio de Melhor Jogador da Segunda Divisão Inglesa. O jovem inglês afirmou na ocasião que seu futuro está no Chelsea.

Atacante que pode jogar centralizado ou pelas beiradas, Bamford chamou a atenção de clubes maiores, como Everton e Southampton, mas a diretoria já trabalha para uma renovação de cinco anos e o atleta deve ser aproveitado por Mourinho na próxima temporada. Atuou pela Inglaterra sub-18, 19 e estará no grupo que vai à Eurocopa sub-21.

Izzy Brown

Foto: Chelsea FC - O veloz Izzy Brown comandou o time no título europeu sub-19

Foto: Chelsea FC – O veloz Izzy Brown comandou o time no título europeu sub-19

Atacante de velocidade, joga pelas pontas ou pelo meio e tem boa estatura (1,82m). Esse é Izzy Brown (18 anos), capitão da equipe na conquista da UEFA Youth League e autor de dois gols na final.

https://www.youtube.com/watch?v=PpP5nRtjAa8

Sem dúvidas, é uma das maiores joias dos Blues. Aos 16 anos, já atuava pelo sub-21 e faz parte do elenco profissional desde fevereiro, fazendo sua estreia na derrota para o seu ex-clube, West Bromwich, pela 37ª rodada da Premier League. Vestindo a camisa da Inglaterra, esteve nas equipes sub-16, 17 e 19.

Ruben Loftus-Cheek

Foto: Chelsea FC - Ruben Loftus-Cheek estará no elenco principal em 2015/2016

Foto: Chelsea FC – Ruben Loftus-Cheek estará no elenco principal em 2015/2016

Volante alto, forte, de boa técnica e com chegada à frente, Ruben Loftus-Cheek (19 anos) é tratado pela mídia inglesa como “o novo Patrick Vieira”. Nos Blues desde os oito anos, Ruben foi integrado ao elenco profissional nesta temporada e fez sua estreia contra o Sporting Lisboa, na Liga dos Campeões, mas já havia participado da pré-temporada dos Blues em 2013. Também esteve no grupo campeão europeu sub-19 e vai à Euro sub-21. Na base, passou pelas seleções sub-16, 17 e 19.

Dominic Solanke

Foto: Chelsea FC - Dominic Solanke é uma das maiores promessas do clube

Foto: Chelsea FC – Dominic Solanke é uma das maiores promessas do clube

Goleador nato, Dominic Solanke (17 anos) é uma das grandes promessas do futebol inglês. É mais um que está no clube desde os oito anos e passou por todas as equipes de base até estrear pelos profissionais, embora ainda não seja, oficialmente, integrante do elenco principal. Foi artilheiro e campeão da Euro sub-17 e UEFA Youth League, além de receber o prêmio de melhor jovem das seleções inglesas. Renovou seu vínculo com o Chelsea por cinco anos em setembro de 2014 e, em março do ano seguinte, participou de um treinamento com o time principal da Inglaterra. Atuou pelas seleções sub-16, 17, 18 e 19 do seu país.

Base Sólida para o Futuro:

GERAÇÃO BLUE 15-16

Depois de anos e mais anos gastando milhões de libras a cada janela de transferências, o Chelsea caminha para uma mudança na condução do clube: menos contratações aos montes e mais valorização dos jovens da base, algo pouco comum entre os grandes da Inglaterra. Com um elenco estruturado e um técnico experiente, os Blues parecem prontos para lançar algumas de suas promessas na equipe principal. Isso já na temporada 2015/16.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.