Hendo, o sucessor de Stevie G

Foto: Liverpool FC

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Chega ao fim uma relação profissional de 17 anos. Um garoto que chegou aos nove ao icônico Anfield Road finalmente o deixará e, contrariando prognósticos, não colocará termo em sua nobre carreira, mas a prolongará no discreto futebol norte-americano. Não obstante, os Reds vêm se preparando para essa transição há tempos. Evoluído tática e tecnicamente e dotado de liderança, Jordan Henderson herdará o posto de Steven Gerrard e será o responsável por capitanear o Liverpool em seus futuros desafios.

Embora não tenha sido formado na casa que passará a comandar, seu vínculo com ela já vige há quatro anos. Poucos do atual elenco viveram tanto na histórica cidade portuária – apenas Martin Skrtel, Brad Jones, Glen Johnson e Lucas Leiva estão lá há mais tempo, mas suas saídas não deverão tardar. Jovem, sério e com uma longa trajetória pela frente, Hendo renovou seu contrato até 2020 e é o candidato ideal para a sucessão, que conta com uma distinta linhagem de jogadores, como Paul Ince, Alan Hansen, Ian Rush e Emlyn Hughes.

Foto: Liverpool FC

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Possivelmente o atleta que mais cresceu sob o comando de Brendan Rodgers, o camisa 14 conseguiu nos últimos três anos o que dele se esperava: regularidade e consistência. “Eu o fiz vice-capitão do clube e ele realmente cresceu, não só como jogador, mas como um jovem rapaz. Hoje, você vê sua qualidade, sua liderança e seu poder. Ele é um jovem fantástico e essa foi a razão para dar isso a ele. Quando Steven não está no campo, ele é um líder de verdade para nós e não há dúvidas de que ele poderá se tornar o capitão do clube”, disse Rodgers ao The Guardian no início de 2015.

Foto: The FA

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Contratado junto ao Sunderland na última gestão de Kenny Dalglish por um valor considerado alto à época (cerca de 15 milhões de libras), Henderson viveu dias de descrédito e pressão no início de sua trajetória. Atuando muitas vezes como um camisa 10 ou como um meia-direita, passava grande parte dos jogos alheio aos acontecimentos, não alcançando o potencial dele esperado e nem tampouco mostrando sua boa técnica.

Foto: Sunderland AFC

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Seus números demonstram de maneira evidente sua evolução sob o comando Rodgers. Antes de sua chegada, Hendo disputou 48 jogos, marcou dois gols e proveu quatro assistências. Com Rodgers, já são 136 jogos, 18 gols e 27 assistências, saltando de uma média de 0,12 participações em gols por jogo para 0,33, quase o triplo.

Foto: Liverpool FC

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O inglês, hoje com 24 anos, não é um criador nato, um autêntico armador, mas um exemplar do meio-campista completo, o box-to-box – como também o é Gerrard. Sólido, faz com muita propriedade a transição entre os setores dos Reds, sendo uma engrenagem essencial à fluidez do time.

– Leia mais: Liverpool sem Gerrard: Uma nova Era

“Se o Brendan fizer dele o capitão será ótimo e ficaremos todos felizes. Se não, isso não afetará suas qualidades de liderança, não estou preocupado. Ele está na liderança de nosso grupo. Ele permanecerá sendo alguém que precisa assumir responsabilidades na liderança quando vier para a (Seleção da) Inglaterra. Se ele fizer isso, chegando como o Wayne Rooney, como o capitão de seu clube, ótimo”, revelou o treinador da Seleção Inglesa Roy Hodgson ao DailyMail em março deste ano.

Foto: Liverpool FC

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Hoje, o meio-campista revela inclusive uma versatilidade que não lhe era peculiar, sendo opção útil em quase todos os setores da meia cancha (sobretudo aqueles mais próximos da faixa direita).

Se não é tão talentoso e decisivo quando Gerrard (o jogador de toda a história dos Reds que mais tempo foi o capitão, longos 12 anos), Hendo mostra um grande leque de qualidades que justificam sua promoção ao posto de novo líder. Sua juventude, seriedade, qualidade técnica e perspectiva de futuro fazem dele o jogador mais adequado à sucessão do ídolo que partirá.

“Certamente, acredito que o Jordan tem tudo o que é preciso para ser um grande capitão. Ele é um profissional fantástico que tenta ser exemplo em todas as sessões de treinamento e em todos os jogos. Ele cresceu como jogador e, com experiência, está melhorando o tempo todo. Ele poderá se tornar um grande capitão para este clube. É um jogador fantástico para eu entregar a braçadeira. Tenho muito respeito por Jordan Henderson e sei que todos no clube sentem o mesmo. […] Inicialmente, foi muito difícil para o Jordan. Ele era um garoto no Sunderland e a mudança para Liverpool foi a primeira fora de sua área. Foi uma grande mudança em uma idade jovem. Jogar pelo Liverpool, com toda a pressão e expectativa, é difícil. É um clube muito exigente. Mas o Jordan ficou e lutou contra isso. É em situações difíceis, como essa, que você aprende muito sobre o tipo de jogador e o tipo de caráter que alguém tem. Ele trabalhou ainda mais duro. Ele é um profissional de verdade e um caráter forte. Todo dia está na academia fazendo trabalho extra. Não bebe e cuida de si mesmo. Ele fez muitos sacrifícios para jogar bem por esse clube”, disse Gerrard ao Liverpool Echo, em janeiro deste ano.

Foto: Liverpool FC

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É óbvio que Henderson não é Gerrard e não é justo comparar suas histórias e diferenças. A despeito disso, as últimas temporadas têm mostrado que não há ninguém melhor do que Jordan para suceder Steven. Respeitados por seus companheiros e verdadeiros líderes dentro do campo, mesmo tendo sido criados em escolas diferentes, os jogadores guardam semelhanças. Com longos anos de carreira pela frente, Henderson representa um futuro que conviveu com um respeitadíssimo passado, o indivíduo mais adequado para capitanear o início de uma nova era em Anfield Road.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.