(Jô)gando por mais uma chance

Foto: Bruno Cantini/ CAM

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O gol, diria Eduardo Galeano, “mesmo que seja um golzinho, é sempre goooooooooooooool na garganta dos locutores de rádio”. E quando a bola que balança as redes decide e eleva clube e torcedor ao mais alto posto de uma competição? Não há dúvidas: no desporto mais amado deste planeta, o gol é o mais sublime momento de uma partida. Dito isso, é claro que existem pessoas que se veem capacitadas a desempenhar a tarefa que alegra torcedores e flagela os rivais. Um deles é João Alves de Assis Silva: o .

Cria do Corinthians, ídolo no mundo russo, piada na terra à qual é atribuída a origem do futebol e festeiro no Inter, Jô é um daqueles personagens cuja história tem tido tantos altos e baixos que é possível imaginar os jovens de hoje contando para seus netos sobre aquele centroavante capaz de marcar gol de título continental e passar mais de um ano sem protagonizar o momento máximo do futebol. Como? Sim, leitor, é isso mesmo! Jô ficou mais de um ano sem balançar as redes.

Foto: Bruno Cantini/ CAM

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O dia 10 de abril de 2014, sem dúvida, não será esquecido pelo atacante do Galo. E não pelo gol marcado contra o Zamora-VEN, mas como a data fatídica que iniciou uma macabra contagem. Deste dia em diante, o jogador desceu do céu, sem escalas, para o inferno, fazendo valer o ditado: “quanto mais alto se voa, maior é o tombo”. Apesar disso, não era possível sabê-lo naquele fim de tarde de outono.

Depois daquele marco, veio a Seleção Brasileira, o fracasso e o vexame, as piadas, confusões e, por fim, o afastamento. O jogador que, a duras penas, reconstruiu uma imagem destruída no sul do país aniquilou-a em tempo recorde. Não obstante, por alguma mística qualquer, algum daqueles inexplicáveis fatos e atos que cercam a áurea do Atlético Mineiro, seu destino não estava selado.

Reintegrado no início do ano, Jô recebeu nova oportunidade, desta vez, todavia, com a necessidade de uma luta duríssima. Lucas Pratto, o melhor jogador do futebol argentino em 2014, chegara para sua posição.

A lesão do hermano, no início da temporada parecia a oportunidade perfeita para um retorno triunfal, mas com ela veio uma infortuna lesão do goleador da Copa Libertadores da América de 2013.

Foto: Bruno Cantini/ CAM

Foto: Bruno Cantini/ CAM

Recuperado, voltou a figurar na reserva. A despeito disso, passou a meramente esquentar seu assento, não sendo utilizado. A grande forma de Pratto vetava implacavelmente suas chances. Apesar disso, a contingência definiu que, após eliminar o rival na semifinal do estadual e empatar a primeira partida da final do referido campeonato, o Galo precisaria de gols. E quem melhor para marcá-los do que aqueles homens predestinados a balançar as redes? No meio da semana, Levir Culpi, secretamente, matutou a possibilidade de unir Pratto e Jô na final.

E o destino mostrou que uma nova chance deveria ser concedida ao goleador sem gols. Empatando por 1×1 contra uma destemida e brilhante Caldense, Levir ousou. Saiu Douglas Santos e entrou Jô, Jesús Dátolo moveu-se para a lateral esquerda e lançou de vez o time ao ataque. Impedido, o goleador definiu o fim: do Campeonato Mineiro e de sua seca. Se duvidar do Atlético parece loucura, duvidar de Jô também parece.

Vivendo inferno astral e com o filho internado no hospital, o goleador sofreu. A perspectiva de voltar a ser visto somente como um renegado era mais do que real, a despeito de uma irracional crença do torcedor atleticano em uma nova redenção do goleador. Foi necessário um ano e 23 dias para que o gol voltasse a alegrar a vida de um artilheiro adormecido e que lutou contra o esquecimento, João Alves de Assis Silva, o .

“Primeiramente, tenho que agradecer a Deus porque, sem ele, ninguém tem força. Eu tive a minha família, minha esposa, meu filho, Pedro, que está internado. Estou aqui jogando por eles, pela minha família. Vale a pena acreditar em Deus porque, uma hora, vem a recompensa,” disse o artilheiro ao final da partida.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.