Jürgen Klopp e Eduardo Galeano

No mês de abril, o mundo sofreu uma grande perda. Como um punhado de areia, nos escorreu por entre os dedos a genialidade de Eduardo Galeano. O escritor uruguaio, de longe meu favorito, nos deixou demasiado cedo e por mais que tenha, também, deixado obras do tamanho da sua perspicácia, nada nem ninguém pode me consolar do estrondoso fato que é ter consciência de que não verei nenhuma página nova, nenhum comentário audacioso, nenhum outro livro que desafie o sistema e suas rigidezes como o fez com tamanha maestria Eduardo Galeano.

No mês de abril, o Borussia Dortmund sofreu uma grande perda. Jürgen Klopp anunciou sua retirada, visando novos voos para as mesmas estrelas. Nós sabemos: um jogo de futebol, a carreira, a vida e todas as outras coisas que arduamente são escravas do tempo estão sujeitas a essa impiedosa e angustiante ampulheta que não mede esforços para apedrejar nossos planos. Klopp deixa a muralha amarela com a imponência que ela há anos não tinha.

É óbvio que não quero aqui comparar o tamanho das perdas, quero, isto sim, unir a glória das genialidades.

A partir daquele anúncio, os últimos meses de Klopp no Borussia começaram a decorrer com a velocidade de um grão de areia jogado ao vento. A partir daquela notícia, desvirei, revirei e virei eu mesmo livros de Eduardo Galeano e na introdução ao célebre Futebol a Sol e à Sombra encontrei:

“Por sorte ainda aparece nas canchas, ainda que seja muito de vez em quando, algum descarado sem-vergonha que sai do roteiro e comete o desaforo de driblar toda equipe rival, e o juiz, e o público das tribunas, pelo puro prazer do corpo que se lança à proibida aventura de liberdade.”

Naquela época, ao ler tal trecho, logo pensei: Eduardo Galeano, tu foste esse descarado que saiu completamente do roteiro e cometeu o desaforo de driblar toda a equipe rival, o juiz e o público, pelo puro prazer do corpo que se lança à proibida aventura da liberdade. Teus escritos libertaram, libertam e libertarão e nós seguiremos caminhando, por ti, em direção ao horizonte e à utopia.

Essa semana, Jürgen Klopp viveu um dos seus últimos momentos de glória no clube aurinegro. Pela fase do Borussia e a fase que vive o adversário, pareceria um relato surrealista a narração que farei a seguir, fosse feita algumas semanas atrás. Jogando fora de casa, com um a menos, o Borussia Dortmund eliminou o Bayern de Munique com a angústia pintada na cal, sendo que os bávaros não foram capazes de acertar nenhuma das quatro cobranças.

São detalhes, meros detalhes, de mais um jogo de futebol. Porém, o diabo e os deuses estão nos detalhes. Certamente a cena mais marcante desse clássico não aconteceu durante o jogo, mas segundos após a penalidade derradeira de Neuer, em um instante que para muitos não passaria de detalhe.

Neuer estoura o travessão – aquele mesmo que tantas vezes o salvou. Apita o árbitro. Nas casamatas, Pep Guardiola, ele próprio digno de ser consolado, dirige-se a campo para consolar seus lutadores, enquanto que por ele, passa – ou melhor, voa – com um ímpeto majestoso, bradando e blasfemando a todos os santos, Jürgen Klopp.

https://www.youtube.com/watch?v=PxK-OMlGJIA

Sem vergonha de celebrar seus êxitos, descarado para fugir àquela falsa seriedade dos treinadores que agem como se tivessem uma bola de cristal, sem formalidades para saudar o adversário, Klopp voou, com os braços abertos, em direção aos seus protegidos – que tantas vezes o protegeram. Pep apenas esgueirou uma olhada, cabisbaixo. Sua tristeza, no entanto, sabe-se, revela admiração. E eu compartilho dessa admiração.

Jürgen Klopp, com tantos estratagemas e intelectualidades que foi capaz de colocar em campo, não se conformava com a mera prática por parte dos jogadores. Era ele, também, um jogador, a cada vibração, a cada discussão com o quarto árbitro, a cada corrida frenética em direção ao nada para celebrar um gol. Era ele, também, esse louco descarado e sem-vergonha que quis sair do roteiro, que quis esbravejar quando a cartilha demandava silêncio, chorar quando a cartilha demandava imparcialidade e ser impávido quando a cartilha demandava respeito. Jürgen Klopp cativou pelo talento, pelos títulos, mas, sobretudo, pela emoção. Sua emoção não lhe permitiu se conter à posição de singelo espectador; ele sentiu também a necessidade de correr, dançar e voar pelo campo pelo puro prazer do corpo que se lança à proibida aventura da liberdade.

E por mais que a ampulheta tenha finalmente virado, o meu agradecimento não é uma dessas coisas que impiedosamente são escravas do tempo. O meu agradecimento é eterno.

Obrigado, Eduardo. Obrigado, Jürgen.

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Antropólogo, fanático por relações internacionais, direitos humanos, literatura e, óbvio, Doente por Futebol. Além de colunista para o DPF, escrevo para o fã clube Borussia Dortmund Südbrasilien e no projeto latinoamericano Goltura Futebol. Jogo de segundo volante.