Não, Tite não entregou o ouro

  • por Lucas Sousa
  • 4 Anos atrás
Foto: Rodrigo Coca

Foto: Rodrigo Coca

Em abril, quando o Corinthians vivia seu melhor momento na temporada até então, Tite mostrou os “segredos táticos” do Timão em rede nacional. Na matéria exibida pelo Esporte Espetacular, o treinador falou um pouco mais sobre alguns comportamentos do seu time, deu exemplos com jogadas e explicou os motivos de tais ações.

Assisti a esta reportagem ao lado de um corintiano, o mais fanático que conheço. Enquanto ele via seu técnico falar sobre aspectos táticos do time, bradou: “Pô, Tite, vai entregar o ouro? Não entrega o ouro, não!” Achei a reação curiosa, mas, por conta do seu fanatismo, relevei. Porém, de lá para cá, o Corinthians venceu apenas um jogo e, passado pouco mais de um mês desde a “entregada” do treinador, muitos torcedores (e até jornalistas) pensam da mesma forma que o meu amigo corintiano.

Foto: Agência Corinthians

Foto: Agência Corinthians

Mas será mesmo que em um bate papo de 12 minutos um treinador entrega seu time assim? É óbvio que não. A queda de rendimento do Corinthians não tem nada a ver com a matéria exibida na TV Globo, nada.

Primeiro porque Tite não falou nada demais. É um tremendo exagero pensar que o jogo do Corinthians se resume apenas à compactação, triangulações, cruzamentos e contra-ataque. Conversando com o jornalista André Rocha, da ESPN, o treinador do Fluminense, Ricardo Drubscky, disse que aquilo mostrado pelo corintiano é “o mais banal da dinâmica ofensiva do Corinthians, não os movimentos mais complexos.”

E mesmo que fossem “os movimentos mais complexos”, já teriam sido descobertos pelos adversários há muito tempo. Existe um departamento nos clubes de futebol voltado apenas para a análise de desempenho, os scouts. Os responsáveis por isso dissecam cada detalhe do seu time e do adversário, de características de jogo (se baseando em estatísticas) até a distância percorrida em um período de tempo. Qualquer equipe de médio porte no Brasil conta com analistas de desempenho. Eles já sabiam de tudo o que Tite disse e muito mais.

Foto: Agência Corinthians

Foto: Agência Corinthians

Se no pior dos casos o clube não tiver um analista de desempenho, seu treinador tem livre acesso aos jogos do clube paulista na televisão ou internet para analisar quantas vezes quiser. São aspectos simples, facilmente identificáveis por um olhar mais atento e mostrados em diversas análises táticas. Na época, destaquei aqui que o treinador brasileiro não era nenhum revolucionário e que poderíamos ver o que foi mostrado no Esporte Espetacular em equipes médias da Europa.

O verdadeiro problema do Corinthians é crônico e ofensivo: propor o jogo. É um time reativo, que joga muito bem no erro do adversário, mas que tem muitas dificuldades quando precisa jogar, quando precisar tomar a iniciativa. É esse o grande desafio do treinador: evoluir ofensivamente sem perder a solidez defensiva característica, o tão falado equilíbrio. Não à toa, Tite se espelha em Carlo Ancelotti, que arma times seguros na defesa e efetivos no ataque. O comandante corintiano parecia estar no caminho certo para alcançar seu objetivo, até que a realidade do futebol brasileiro o apanhou.

Foto: Agência Corinthians

Foto: Agência Corinthians

Após TRÊS MESES de bola rolando, o Timão virou “Corinthians de Munique”, “Real Corinthians”. Walter Casagrande comparou o time de Tite a três equipes campeãs do mundo: o Flamengo de Zico, o São Paulo de Telê e o Milan de Arrigo Sacchi. Fabio Sormani foi além: disse que daria para a equipe corintiana ser campeã nacional na Itália e Inglaterra e que entraria na Liga dos Campeões para chegar entre os quatro melhores. Um exagero do tamanho da história de Tite no Corinthians.

Tite e Corinthians foram colocados no mais alto pedestal do futebol como o melhor time brasileiro dos últimos tempos. Isso em três meses de futebol. A empolgação com o trabalho apresentado pelos corintianos foi muito acima da média. Muito. Vale ressaltar que, na época, ele era sim o melhor time do Brasil, talvez até da América, mas não era para tanto. E quanto maior o pedestal, maior o tombo.

Vieram as derrotas e, de gênio da tática, Tite passou a ser o ingênuo treinador que entregou seu jogo em um canal de televisão. A crítica, porém, esquece da dificuldade ofensiva que o time carrega há um tempo, esquece dos problemas financeiros atravessados pelo clube, esquece, sobretudo, que se trata de futebol e deposita tudo nas costas do treinador. Daquele que continua apresentando aquilo que há de mais próximo com o futebol europeu aqui no Brasil.

Foto: Agência Corinthians

Foto: Agência Corinthians

Em um país onde a cultura tática é fraca, essas reações contribuem ainda mais para o atraso do nosso futebol. A “renovação pós 7 a 1” passa pelo fortalecimento dos aspectos estratégicos do jogo e por um debate tático maior entre treinadores, jogadores, imprensa e torcedores. Tite fez isso, deu uma contribuição para iniciar o debate, mas foi pego pelos elementos que derrubam treinadores um atrás do outro no Brasil: imediatismo e resultado. Se os pênaltis contra o Palmeiras tivessem entrado, ou se Cássio não tivesse falhado no Paraguai, talvez não existisse essa crítica ao “ingênuo Tite”.

Depois dessa receptividade ruim, pode ser que outros treinadores fechem as portas para falar abertamente sobre seus conceitos táticos. Afinal, é o emprego dele que está em jogo. Isso só contribui para o atraso do futebol brasileiro, onde a corda sempre estoura no treinador. O homem que organiza os onze jogadores, quem mais entende daquilo que vemos todo fim de semana, não pode falar um pouco sobre isso. É um retrato de um futebol que ainda tem um longo caminho pela frente.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.