O bom início de Diego Aguirre no Inter

  • por Israel Oliveira
  • 5 Anos atrás

Historicamente,  a presença de treinadores estrangeiros no Internacional não é nenhuma novidade. O clube gaúcho já teve 15 “gringos” em seu comando, cultura muito popular principalmente no início do século passado até os anos 50. No século vigente, antes de Diego Aguirre, apenas Jorge Fossati prestou serviços no comando técnico do colorado.

Diante de um cenário brasileiro inflacionado e defasado taticamente, os estrangeiros tendem a ser vistos como solução diante de tamanha defasagem.  No ano passado o Palmeiras arriscou com Ricardo Gareca, porém, o projeto fracassou. O treinador teve espaço pra trazer algumas peças do elenco, mas não conseguiu formá-lo integralmente, deixando grandes buracos na formação palestrina. Seu estilo de jogo exigente e ofensivo não conseguiu ser executado pelo plantel limitado e o argentino acabou sendo demitido do Palmeiras com o clube na zona de rebaixamento.

>> Leia também: Pelé aprova reeleição de Blatter: “Melhor ter gente com experiência”

Com o discurso de acrescentar novas taças ao farto museu colorado, Vitorio Piffero viu em Tite a mente ideal para liderar seu ambicioso projeto. O gaúcho acabou optando pelo Corinthians após seu ano sabático, e as outras opções também não conseguiram ser adquiridas: Abel Braga, Mano Menezes e Vanderlei Luxemburgo.

Capture

Vitorio Piffero e Diego Aguirre, na apresentação do treinador, em 2014. Foto: Anderson Kblo (internacional.com.br)

Correndo por fora, Diego Aguirre chegou sabendo que se tratava de um plano C ou D na lista de preferências do Inter.

Nilton, Rever, Vitinho e Léo chegaram com a aura de titularidade, visando suprir falhas no elenco de 2014, como a falta de velocidade nos flancos e deficiência no jogo aéreo. Coube ao uruguaio integrá-los a base de jogadores renomeados como D’Alessandro, Alex, Charles Aranguiz e Nilmar.

Como tradicional em anos que o Internacional disputa a Libertadores, entrou em ação o rodízio de jogadores, possível graças ao bom nível oferecido pela base em relação ao Campeonato Gaúcho. Mas sua trajetória foi difícil nos primeiros passos. A derrota para o The Strongest (3×1) e o empate em casa contra o São José (4×4) criaram atritos entre Aguirre e a imprensa local, que passou a criticá-lo veementemente.

https://www.youtube.com/watch?v=cDsOCfsVDhE

As críticas possuíam certo nexo, mas no fundo carregavam a velha impaciência em relação a trabalhos feitos por treinadores de fora, cruz que o uruguaio infelizmente terá de carregar.

Em seu desenho inicial, Aguirre deu espaço para os principais reforços e pagou caro por isso. O Internacional se portou de forma bagunçada, espaçado ofensivamente, e com grandes dificuldades de recuperar a bola, assim sobrando para a ainda fraca defesa. Apesar das duas vitórias em casa na Libertadores, a apresentação não convenceu. Assim, o treinador tomou mais uma decisão polêmica, mas de pulso firme: um 3-6-1 ao enfrentar o Emelec no Equador, formatando a equipe com 3 volantes e sem nenhum centroavante de ofício.

11303682_776966799085652_400393337_n

Ajudas do acaso:

A melhor versão do Inter de Aguirre apareceu no Chile, numa atuação de gala contra La U.

Com as fracas atuações do lento Nilton, coube a Aguirre proteger a sua defesa com mais juventude. Se Nilton mostrava ser fraco com a bola no chão, demonstrando imensa dificuldade para retomar a posse e distribuir o jogo, Rodrigo Dourado é o oposto: a cria da base colorada tem imensa facilidade em desarmar e sair jogando, algo raro no futebol brasileiro.

DOURADO

Foto: Alexandre Lops (internacional.com.br)

A lesão de Vitinho trouxe uma mudança importante, com a efetivação momentânea de Jorge Henrique na titularidade, que logo viria a perder vaga para Valdívia. Essa mudança trouxe mais poder defensivo e efetividade lá na frente, já que Vitinho incomodava por sua displicência ao segurar a bola e buscar jogadas de efeito.

VALDÍVIA

Foto: Alexandre Lops (internacional.com.br)

Enquanto Jorge Henrique se notabiliza por sua responsabilidade tática, o ‘cover’ do chileno é um verdadeiro ponto de desequilíbrio; sua intensidade quebra defesas e mobiliza todo o ataque. Sua participação no Gauchão, onde foi eleito o melhor jogador, assinala sua evolução, muito em decorrência das mãos de Aguirre: o uruguaio insiste em treinar fundamentos, e Valdívia tem crescido em atributos vitais como passe e batida na bola.

Nas laterais, a sorte seguiu junto ao treinador. Léo, com um desempenho pra lá de comum, se lesionou e inicialmente foi substituído por Ernando, zagueiro improvisado no setor. Com as boas aparições do jovem William, o garoto ganhou a vaga, e não desapontou. Demonstra facilidade pra subir ao ataque, e não tem dificuldades no ‘um contra um’. No Grenal, foi dominante contra o raquítico Luan.

https://www.youtube.com/watch?v=vHADVyAtE-Q

Na esquerda, Fabrício, jogador explosivo ofensivamente, mas fraco na defesa e pouco inteligente com bola, acabou tendo um “surto”, e saiu do clube. Geferson entrou em seu lugar e demonstrou ser bem mais sólido e confiável no que se refere a defesa.

pents

Foto: Alexandre Lops (internacional.com.br)

Com esta “chuva” de contusões, o time titular do Internacional no Grenal que decidiu o título estadual foi com 8 jogadores da base. Se as lesões de seus companheiros colocaram muitos dos meninos da base no caminho de protagonismo, Aguirre deu respaldo e deve repetir mais esse modelo que teve muito sucesso em sua proposta.

Estilo de jogo:

Na época derradeira da temporada, quando parecia ter encontrado seus 11 titulares, lesões inesperadas como as de Gefferson e Nilmar davam impressão de empecilhos crônicos, mas graças ao rodízio implantado pelo treinador, que dá confiança ao seu grupo, o padrão da equipe se mantem intacto, apesar da diferença nas características.4-2-3-1

O Internacional joga em um 4-4-2/4-2-3-1, em que, ofensivamente, D’Alessandro transita do centro pra direita, tendo a escolha em espichar a bola para os ponteiros, gerir o jogo de passes, ou iniciar triangulações rápidas que abrem espaços para as incursões ferozes de Aránguiz. Sasha transita da ponta direita para o centro, de acordo com o movimento da bola. Quando a jogada está na direita e nos metros finais, o jovem fecha com o centroavante para fazer presença na área do adversário. O grande ponto de desequilíbrio tem sido Valdívia, que a partir de sua individualidade, tem liberdade pra partir pra cima e encontrar seus demais companheiros de ataque.

É uma equipe que marca em bloco baixo, buscando recuperar a bola e entregá-la para D’Alessandro ou Aránguiz, jogadores com grande capacidade de incorporar qualquer ritmo, seja ele frenético ou cadenciado. Com a lesão de Nilmar e a entrada de Lisandro Lopez, muda o perfil de ataque, que ganha um jogador de combate físico, mas que ainda sabe trabalhar com a bola no pé.

Traços preocupantes do trabalho:

https://www.youtube.com/watch?v=OK4S2PkZOks

Contra o Santa Fé na Colômbia, o Inter foi punido pelo excesso de covardia, num jogo em que sua equipe controlou as investidas adversárias com tranquilidade, mas ao formatar a defesa com 3 zagueiros e 3 volantes, acabou chamando o gol dos cardiais.

No Beira-Rio, em situação adversa, fez movimentos precisos para comandar uma excelente e épica virada em uma batalha milimétrica e sangrenta.

11355599_776968219085510_1080182145_n

O Colorado de Aguirre tentou impor um jogo rápido e vertical, colocando, em suma, dois atacantes enfiados (Lisandro López e Nilmar), experiência que no começo teve sucesso, principalmente pela troca de posições do argentino com Eduardo Sasha. Logo, o Santa Fé se recuperou no jogo e terminou no campo de ataque do Internacional, neutralizando a transição rápida dos donos da casa , que começava principalmente nos pés de Nilmar. Num golpe tático e motivacional, o colorado voltou fervendo para o segundo tempo, em toques rápidos e contando com a individualidade de Valdívia, além da cadência de Andrés D’Alessandro, que controlou todo seu lado, envolvendo a marcação, inciando triangulações e acionando as subidas de William, que foi ineficaz em seus cruzamentos. O gol saiu no abafa, mas as expulsões, o sufoco, foi armado pela estratégia de Diego Aguirre.

Sacrifício para D’Ale brilhar:

D'Ale

Foto: Alexandre Lops (internacional.com.br)

Defensivamente, Eduardo Sasha e Valdívia são vitais para a compactação, ajudando o lateral no avanço inimigo, sem abdicar da presença ofensiva. O esquema depende muito do fôlego e energia de ambos, que ajudam o maestro D´Alessandro a poupar energia. O argentino ocupa uma posição à frente da linha de 4 do meio-campo, podendo rodar de acordo com a direção da bola, pronto para recepcioná-la e iniciar os ataques do colorado.

Indícios do início de um bom trabalho:

Aguirre

Foto: Alexandre Lops (internacional.com.br)

Os resultados obtidos por Aguirre até então mostram como o treinador uruguaio merece créditos da torcida e imprensa: pela primeira vez após título da Libertadores em 2010 o Internacional passou das oitavas de final.

O Inter de Aguirre, em seus melhores momentos,  é sólido e convicto em campo, seja para se defender, especular e jogar em transição, ou se tornar protagonista, abafando o adversário a partir do campo de ataque.

Diego Aguirre não é um revolucionário, enfrentou diversos questionamentos, mas sua forma de gerenciar o grupo e implantar ideias, seja para jogadores veteranos ou novatos serve de exemplo. É um treinador bom o suficiente para escrever uma bela história no Brasil e ajudar a mitigar preconceitos contra estrangeiros.

Repleto de individualidades desequilibrantes e firme como conjunto, vai pintando o time a ser observado e batido.

Comentários