O fim de uma instituição aurinegra » DPF

O fim de uma instituição aurinegra

Foto: BVB.de

Foto: BVB.de

Ofuscado pela despedida de Jürgen Klopp, um jogador discreto também deu adeus ao Signal Iduna Park neste sábado (23). Eterno capitão dos Schwarzgelben, Sebastian Kehl se despediu do torcedor que o acolheu há 14 temporadas. Criado no Hannover 96 e com rápida passagem pelo Freiburg, o volante se afirmou como uma verdadeira instituição aurinegra, tendo vivido dias de luta e glória em Dortmund.

Com 1,88m e uma perna canhota poderosa, Kehl sempre foi um volante de características peculiares, tornando-se o grande símbolo da instituição Borussia Dortmund. Seriedade, dedicação e muito suor fizeram dele um ícone. Não obstante, sempre demonstrou um estilo discreto, carregando o piano e fazendo grande parte do trabalho sujo que toda equipe precisa. Além disso, sempre gostou de arriscar chutes de fora da área e marcou seus golzinhos durante as 17 temporadas em que atuou.

Foto: BVB.de

Foto: BVB.de

Membro das Seleções Alemãs que disputaram as Copas do Mundo de 2002 e 2006 e a Eurocopa de 2004, demonstrava também versatilidade, tendo chegado a atuar como zagueiro, líbero e lateral esquerdo. Sabe aqueles jogadores completos, que não são craques, mas dificilmente apresentam deficiências notórias? Pois bem, Kehl poderia ser um expoente desse grupo. Curiosamente, antes de fechar com o Dortmund, havia aceitado um adiantamento para fechar com o Bayern de Munique.

“Você não pode ser mais jogador do BVB do que o “Kehli”, disse Klopp em abril deste ano.

Foto: BVB.de

Foto: BVB.de

A admiração de Jürgen Klopp por seu capitão reflete o carinho e o respeito que seus companheiros nutrem por ele:

“Essa pode ser sua última temporada, mas ele está longe de ser um pensionista do futebol”, disse Neven Subotic após a vitória do Borussia contra o Hoffenheim, na Copa da Alemanha, ocasião em que o volante marcou um belo gol.

Ao final de sua trajetória, o volante, que ainda deve ganhar minutos na final da Copa da Alemanha, computa 340 jogos pelos Borussia, com 23 gols marcados. Aliás, o alemão só não entrou mais vezes em campo nos últimos 14 anos em função de uma dividida com Hasan Salihamidžić, na temporada 2006-2007, que gerou grave lesão em seu importante joelho esquerdo, o qual nunca mais foi o mesmo e mostrou-se mais suscetível às contusões nos anos que se seguiram. Pela Nationalelf, disputou 31 partidas, marcando três gols.

Foto: BVB.de

Foto: BVB.de

Ao todo, ainda tendo a possibilidade de vencer a Copa da Alemanha da atual temporada, Kehl acumula três títulos da Bundesliga (2001-2002, 2010-2011 e 2011-2012), uma Copa da Alemanha (2011-2012) e duas Supercopas da Alemanha (2013 e 2014). E a análise de suas conquistas revela algo importante: como todo atleta de grande espírito, o alemão nunca abandou o clube, mesmo nas dificuldades. Vitorioso no início e no final de sua trajetória aurinegra, Kehl sobreviveu às intempéries que assolaram o Dortmund no meio dos anos 2000.

Com a presença imponente de seu capitão, o Borussia desceu do céu ao inferno e, como uma fênix, renasceu. De campeão a quase falido, o clube conseguiu se reerguer e chegar, inclusive, à final da UEFA Champions League, na temporada 2012-2013. Não há dúvidas de que o grande caráter e influência de Kehl tiveram papel importante na retomada do time.

“Foi legal. Eu ainda consigo chutar uma bola que vem alta muito bem. Mas eu tive um pouco de sorte que a bola voou assim e acertou a parte interna da trave. Eu ainda sonho em fazer isso na final (da Copa da Alemanha) em Berlim, novamente”, disse Kehl também após o jogo contra o Hoffenheim.

Kehl viu craques da estirpe de Amoroso e Marco Reus representarem o aurinegro; viu Roman Weidenfeller chegar ao clube e se transformar em outra referência da equipe; ajudou no lançamento de jovens extremamente promissores como Mario Götze e Nuri Sahin; e assistiu o brasileiro Dedê ser ovacionado em sua emotiva despedida, em 2011. Além disso, viu também Tomas Rosicky crescer como grande criador; e, surpreendentemente, David Odonkor ser convocado para a Copa do Mundo de 2006. Ademais, estava lá quando o experiente Christian Wörns se aposentou.

Kehl respirou o Borussia Dortmund. Ele esteve lá o tempo todo.

“Ele é um pilar de força, sem dúvida. (…) Ele não é apenas um cara bom, mas um verdadeiro líder. Sempre está lá para ajudar os jogadores jovens, ele assume responsabilidade e quando as coisas ficam difíceis, lidera de frente. Um brilhante exemplo para os outros”, disse Weindenfeller ao site oficial do Borussia.

Foto: BVB.de

Foto: BVB.de

Será muito estranho olhar o elenco aurinegro e não mais vê-lo. Ao fim de sua trajetória, Kehl, aquele jogador que sempre primou pela discrição, fixou-se indelevelmente no coração do torcedor. Matt Hummels, seu sucessor na linhagem de capitães do Borussia, não precisa de um modelo de líder, afinal conviveu com um. Pela porta dos fundos – deixando sempre a porta da frente aberta –, Kehl deixou o Signal Iduna Park, talvez por sua peculiar discrição ou simplesmente por não querer tornar suas lágrimas públicas.

A atmosfera de Dortmund no dia 23 de maio de 2015 deve ter comovido até aqueles que não ligam para a magia que o futebol representa. A ovação que recebeu das arquibancadas e os cumprimentos de seus companheiros certamente perdurarão na memória de Kehl, que soube quando parar. O alemão para conservando sua imagem: a de um líder, um ícone, uma verdadeira instituição.

Comentários

Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.