O show vai ter que parar

  • por Victor Mendes Xavier
  • 5 Anos atrás

Paco Jémez previa Estadio Valencia

“Creio que não vou seguir treinando o Rayo Vallecano”. Com essa frase, a capa do Marca do último sábado, 16 de maio, anuncia uma interessante entrevista com Paco Jémez, atual técnico do Rayo. Genial e genioso: é dessa maneira que podemos definir o treinador, que opta por um estilo bem incomum para uma equipe da estirpe do clube de Vallecas, um pequeno bairro situado na cidade de Madrid. Durante três anos, a confiança dos jogadores na figura de Paco foi imprescindível. Por vezes, a filosofia super ofensiva e kamikaze colocava em xeque a qualidade dos defensores. Muitos gols foram sofridos. Porém, nada que abalasse a fé dos súditos para com seu rei. Pelo contrário: a cada crítica, o laço entre ambas as partes era reforçado.

Até 2013/14, os erros que custavam pontos importantes eram basicamente os mesmos: através da saída de bola. Evitando chutes, a ideia de sair jogando pelos lados ou pelo centro era o mapa da mina para rivais que começavam a marcação no campo de defesa rayista. Não à toa, enfrentar o Rayo era certeza de goleada por parte de Barcelona e Real Madrid. Disposto a competir, Paco acenou com a primeira mudança mais radical. Para correr menos riscos defensivos, o treinador adaptou sua equipe a uma forma mais direta. O espanhol seguia colocando um primeiro volante à frente da área, abrindo os zagueiros e liberando os laterais. Porém, quando em perigo, a ligação defesa-ataque foi uma opção mais plausível. Entrou em cena, então, Joaquín Larrivey. Hoje no Celta, o argentino foi o grande nome dos madrilenhos na luta contra o rebaixamento. Em “modo Batistuta”, o atacante dominava e protegia com brilhantez todas as bolas lançadas a ele.

A humildade para ler as necessidades de sua equipe e se auto-corrigir é fundamental nos segundos turnos de ouro que o Rayo faz. O técnico nunca rompeu com a filosofia, mas sempre foi dando um jeito de introduzir trocas e variações táticas que ajudaram a inverter a tendência dos resultados ano após ano. Em sua primeira temporada, o 3-3-4 foi deixado de lado por um 4-2-3-1 mais coeso; depois, o jogo direto a Larrivey, já explicado. Em 2015, a aposta foi por um ataque mais vertical, baseado em transições mais aceleradas. Menos toques horizontais, mais objetivos. Os cruzamentos à área rival também foram adicionados à proposta de jogo.

Trashorras Getafe 15

Nesse cenário, o meio-campista Roberto Trashorras foi a peça-chave. O espanhol era visto como o camisa 10 que pausava a partida e assegurava a posse de bola. Agora, é quem conduz a pelota de maneira veloz. A proteção às laterais é maior e os ponteiros ganharam tarefa extra na recomposição. Com a bola, criar superioridade pelos flancos é obrigação. Para isso, ter um enérgico Gael Kakuta é providencial. O francês não deixa o lateral-esquerdo adversário em paz e é excepcional quando faz a diagonal “fora-dentro”, como o Messi de Frank Rijkaard. À esquerda, Trashorras se desloca para cruzar bolas na área com frequência ao centroavante Manucho e ao meio-campista goleador Alberto Bueno. Bueno tem 16 gols na Liga, mais tentos que Benzema (15), Sergio García e Bale (13) e Mandzukic e Vietto (12).


Quando perde a bola, a intensidade para recuperá-la continua intacta. Há um mês e meio, perdeu por 2×0 para o Real Madrid, mas fez seu melhor jogo contra os rivais merengues em três anos. Os registros não mentem sobre o terceiro Rayo de Jémez. O aproveitamento cresceu de 40% no primeiro turno para 48%. A posse de bola caiu de 57% para 52%. Além disso, passou de quarto time que mais lança bola à área para o décimo (em média, são 18 cruzamentos por jogo, cinco a menos que o Atlético de Madrid). O Rayo chega à última rodada ainda brigando por uma vaga na Liga Europa, mesmo que as chances sejam mínimas. Com um dos menores orçamentos à disposição, Paco e seu time foram exemplares nas últimas temporadas. Por três anos, a garantia de se divertir assistindo a uma partida dos vallecanos era total. Com a provável chegada de um novo treinador, as mudanças serão inevitáveis. Mas a torcida é que o projeto de Paco Jémez não seja esquecido.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.