Pinturas Inesquecíveis: Pet e a falta

  • por Leandro Lainetti
  • 4 Anos atrás

PINTURAS INESQUECÍVEIS - PET

Em uma de suas frases mais famosas Cazuza dizia que “o tempo não para”. Talvez Cazuza não gostasse de futebol. Ou não conhecesse a atmosfera que cerca uma partida de futebol, especialmente a de uma final. No futebol o tempo para, acelera, desacelera, praticamente é um animal selvagem e indomável agindo ao seu bel prazer. Quem nunca se pegou, naquele momento de desespero, gritando loucamente “esse jogo não acaba” ou “mas já tem quarenta do segundo tempo?”.

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Pois é. No futebol, um segundo pode durar uma vida. Uma vida de alegria ou tristeza, de lágrima ou riso, euforia ou decepção. Um segundo, o tempo de um flash, de piscar um olho, de vencer ou perder. 27 de maio de 2001. O dia em que o relógio parou e fez um segundo ficar mais marcado do que 180 minutos.

Quarenta e três. Segundo tempo. Flamengo e Vasco duelavam pelo terceiro ano consecutivo pelo título estadual. O rubro-negro havia vencido em 1999 e 2000 e, depois de quase dois jogos inteiros, tudo indicava que a taça mudaria de lado daquela vez. A vitória por 2×1 na primeira partida permitia que o cruzmaltino perdesse por um gol de diferença, placar que se confirmava com os dois gols de Edilson para o Fla, e o de Juninho Paulista para o Vasco.

Quarenta e três. Segundo tempo. Edilson sofre falta de Fabiano Eller. O sérvio Dejan Petkovic pega a bola.

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Nenhuma das cobranças anteriores havia representado algum perigo ao goleiro Hélton. A distância nem era das melhores para quem costumava bater colocado. A pressão era grande e a probabilidade, pequena. As mãos rubro-negras iniciaram o ritual: todas ao alto, espalmadas, num frenético movimento acompanhadas da oração. Meeeeengoooooo. Meeeeengoooooo. Meeeeengoooooo.

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A barreira tinha mil homens mais um, o goleiro era um gigante e atrás do gol estava uma massa pronta para rechaçar a bola, rivalizando com a oração do outro lado do estádio. Então ele partiu. E chutou. E olhou, com os punhos cerrados. A bola se foi, fazendo uma curva daquelas que viram questão de prova de física, antes de se encontrar com o segundo que durou uma vida.

O silêncio sepulcral que se abateu durante a trajetória falava mais alto do que se toda aquela horda gritasse. E só foi interrompido no último instante daquele segundo eterno, quando a bola encontrou a ponta dos dedos de Hélton antes de cair em berço esplêndido. Gol. O gol que todos viram. O goleiro, de camarote. A barreira, que saltou girando 180 graus para assistir. A arquibancada, boquiaberta. O gringo, enlouquecido. O velho lobo, sem ar. Os outros jogadores, uns caindo em desespero, outros em correria desembalada.

27 de maio de 2001. Maracanã. Quarenta e três minutos e doze segundos. O dia em que o tempo, desmentindo Cazuza, parou. O dia em que o tempo, finalmente domado, parou. Porque ele também queria ver o gol de Petkovic.

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Jornalista trabalhando com marketing, carioca, 28 anos. Antes de mais nada, não acredito em teorias da conspiração. Até que me provem o contrário, futebol é decidido dentro das quatro linhas. Mais futebol nacional do que internacional. Não vi Zico mas vi Romário, Zidane, Ronaldinho, Ronaldo. Vejo Messi e Cristiano Ronaldo. Totti é pai.