Romário / Ronaldo e a Copa do Mundo

  • por Victor Mendes Xavier
  • 3 Anos atrás

O Brasil lamentou a aposentadoria de Pelé durante quase duas décadas. O Rei foi um ser à frente de seu tempo, com habilidades e qualidades que o colocaram como o maior jogador de sua época e da história. Uma característica era unanimidade: a habilidade para fazer gols. Foram 1283 tentos anotados e 20 artilharias obtidas durante a carreira. O Brasil não parou de fabricar talentos pós-Pelé, mas esbarrou na carência de um camisa 9 de classe mundial. Entre as Copas de 74 e 90, a seleção sentiu a falta de um gênio capaz de concluir jogadas no ataque, especialmente em 1982 e 1990.

ROMÁRIO RONALDO

De repente, chegaram dois. Ao mesmo tempo, mas com velocidades distintas.

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Primeiro, aquele camisa 11, de 1,69m, debochado, marrento, mas igualmente genial. Após salvar a Canarinho de uma catástrofe naquele 19 de setembro de 1993, no Maracanã, o Baixo se exibiu no Mundial dos Estados Unidos, em 1994. Ao lado de um Bebeto também inspirado, Romário reafirmou a personalidade de uma nação desacreditada, à caça de uma taça que não levantava havia 24 anos.

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Do banco de reservas, um camisa 9 dentuço e magrelinho assistiu às maravilhas que Romário produziu durante aquele mês em solo americano. Ronaldo era a grande promessa brasileira à época e candidato a ser craque de uma Copa no futuro. O êxito do 11 tirou todo o peso das costas que aquele garoto de 19 anos certamente ganharia nos torneios seguintes. Ronaldinho encantava, e não tardou a assinar com um grande europeu. Assim como para Romário, o Barcelona foi sua casa. O carioca estreou em um campeonato oficial vestindo o uniforme azul e amarelo nas Olimpíadas de 1996. Os fãs de futebol voltavam suas atenções para aquele garoto que acabara de assinar transferência à elite europeia. Deixou lampejos, mas voltou de Atlanta sem o ouro.

Eis que chega 1997, ano-chave nesta história. Ronaldo já era o “Fenômeno” do momento, vencedor de Bola de Ouro e ídolo mundial, e iria compartilhar o ataque do Brasil com Romário em até três competições: Copa América, Copa das Confederações e um torneio amistoso na França. A seleção ganhou as duas primeiras e terminou a outra em segundo.

A final da Copa das Confederações, aliás, sintetiza o que aqueles dois jogadores representaram: na vitória por 6×0 contra Austrália, cada um marcou três gols. Batizada de Ro-Ro por Galvão Bueno, a dupla maravilhou o mundo. Romário marcou 12 gols naquele período; Ronaldo, 10. Muito além dos números, uma pergunta fica no ar: como se comportava, taticamente, aquela parceria?

O Brasil jogava no seu clássico 4-4-2, ou 4-2-2-2. O quadrado mágico tinha Cafu e Roberto Carlos como laterais e Leonardo e Denílson como meias. A função de Ro-Ro era bastante central. Eles caíam pelos lados, mas na maior parte do tempo ficavam estacionados próximos à área, fixando os zagueiros rivais. Com 31 anos, o peso de um craque de Copa e vencedor de Bola de Ouro nas costas, Romário usava a experiência e inteligência para facilitar o funcionamento do sistema ofensivo. No entanto, o papel encarregado por Zagallo não era o mais privilegiado ao Baixo.

Ronaldo, por sua vez, estava em outro nível. No auge, o Fenômeno aportava algo diferente. A habilidade e o físico fora do comum para o momento assustavam. Porém, para Zagallo, o camisa 9 ainda estava verde. Por isso, as condições dadas a Romário foram diferentes. Até por isso, criticou publicamente o Lobo, argumentando que poderia render mais se não cumprisse funções extras que não estava habituado. O Baixinho aceitou o “desafio” por um motivo especial: ganhar outra Copa o colocaria, definitivamente, no patamar mais alto do futebol brasileiro. Portanto, valia um esforço a mais.

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Os brasileiros esperavam a Copa de 1998 com os olhos brilhando. O Brasil era a melhor seleção do mundo, defendia a taça e tinha uma dupla de ataque midiática, que rompia qualquer barreira do imponderável. Pouco a pouco, as esperanças foram se quebrando. Romário sofreu uma lesão pouco antes do torneio. O jogador garantiu, em entrevista, que estaria recuperado da contusão a tempo de disputar as fases agudas do torneio, e que poderia ficar no grupo. De nada adiantou: Emerson foi convocado para seu lugar. Diante de dezenas de câmeras de televisão, o herói de 94 chorou em uma coletiva que será lembrada eternamente.

O Brasil chegou à França carregando o peso de favorito. Não tinha Romário e o R9 da vez era Ronaldo. Até a semifinal, o Fenômeno se exibiu. Porém, os acontecimentos da final de Saint-Denis o vilanizaram.

O Brasil caiu perante os pés (ou cabeça) de Zidane e sofreu uma dura derrota por 3×0, ficando com o vice-campeonato. O cenário pós-Mundial foi de indagação: com Romário, o Brasil teria sido campeão? Impossível responder. O fato é que a Copa do Mundo, logo ela, deixou de receber a dupla Ro-Ro. Houve outra oportunidade quatro anos depois, mas Felipão optou por não convocar Romário.

Aos fãs do esporte, deixem o que estão fazendo por somente quatro minutos e assistam a esse vídeo. Como doente por futebol, é de se emocionar.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa Esporte@Globo da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.