Um clássico, seis gols, um artilheiro e muita história para contar

24 de janeiro de 2010. Era apenas mais um domingo de futebol no Rio de Janeiro. Apesar de ser um período do ano no qual o calor carioca atinge seu ápice, não era dia de praia. A chuva incomodava a todos e mudava a rotina de quem queria aproveitar o verão com os pés na areia e o corpo no mar. No meio disso tudo, acontecia um clássico entre Botafogo x Vasco, pelo Campeonato Carioca, que parecia ser “mais um” na história dos clubes, que se enfrentam desde 1923.

Apesar de invictos, os dois times estavam em começo de temporada e não empolgavam os torcedores, especialmente por estarem tentando se reorganizar após anos conturbados. O Botafogo vinha aliviado. No ano anterior, havia escapado do rebaixamento para a segunda divisão nacional apenas na última rodada, ao bater o Palmeiras no Engenhão por 2×1.

Em contrapartida, neste mesmo jogo contra o Verdão, a equipe carioca perdeu o atacante Jobson, grande destaque na escapada de 2009, no exame antidoping – ele também caiu no exame na partida contra o Coritiba – admitindo ter fumado crack antes do cotejo.

Para tentar acalmar os exigentes corações botafoguenses, a diretoria do clube trouxe dois atacantes estrangeiros para suprir a ausência de Jobson: o argentino Germán Herrera e o uruguaio Sebastián “Loco” Abreu.

Sátiro Sodré - Agif - Gazeta Press

Foto: Sátiro Sodré – Agif – Gazeta Press

O Gigante da Colina estava retornando da segunda divisão e apostava no emergente Vagner Mancini como técnico para aquela temporada. À época, o time contava com atletas que, pouco tempo depois, seriam nomes lembrados pelos torcedores, casos do goleiro Fernando Prass, do lateral-direito Fagner e do volante Nilton.

Entretanto, a aposta estava no trio ofensivo composto por Carlos Alberto, Philippe Coutinho e Dodô. O primeiro vinha de bom ano na Série B e parecia colocar a cabeça no lugar. Já Coutinho tinha apenas 17 anos e era a grande joia do clube. E o “artilheiro dos gols bonitos” chegou como esperança de gols, mesmo vindo de uma suspensão de dois anos após ter sido pego no exame antidoping. E seria exatamente Dodô o grande personagem desta nossa história.

Foto: Alejandro Pagni

Foto: Alejandro Pagni

O atacante teve passagem marcante pelo Botafogo no começo e na metade da última década. Ao todo, fez 90 gols em 124 jogos e é o maior artilheiro do clube no século XXI. Foi com a camisa do Fogão que ganhou a alcunha de “artilheiro dos gols bonitos”, por razões óbvias.

A saída do clube, entretanto, foi desastrosa. Em dezembro de 2007, Dodô rescindiu com o Botafogo e foi anunciado pelo rival Fluminense, que disputaria a Copa Libertadores no ano seguinte – na qual seria vice-campeão, perdendo para a LDU. Em agosto de 2008, ele rescindiu com o tricolor das Laranjeiras e, menos de um mês depois, foi suspenso por dois anos pela Corte Arbitral do Esporte (CAS). Apenas em 2010, o Vasco surgiu em sua vida, e Dodô passou a vestir a mística camisa 10 do clube.

Foto: Gazeta Press

Foto: Gazeta Press

Quis o destino que a volta por cima do atleta começasse a ser dada justamente às custas do clube em que mais se destacou.

Naquele chuvoso domingo de janeiro, Dodô precisou de apenas quatro minutos e um chute rasante para iniciar a redenção. Depois de roubada de bola na intermediária, ele recebeu, passou por um marcador e acertou um belo tiro no lado direito de Jefferson.

Os “Deuses do Futebol” quiseram que o primeiro gol dele com a camisa cruzmaltina fosse exatamente contra o Botafogo. E aquela história de não comemorar contra o ex-clube ficou de lado. Dodô correu entusiasmadamente e vibrou como se aquele fosse o primeiro gol da carreira. Era o recomeço de sua história e o começo da uma chuva para o Fogão. Não era uma chuva como aquela que já atormentava o Rio, mas uma muito pior.

Menos de meia hora depois de marcar o primeiro, o atacante tratou de ampliar o marcador duas vezes e anotar um hat-trick no clássico. O segundo saiu após cruzamento de Carlos Alberto na direita, enquanto o terceiro originou-se de belo contra-ataque armado por Souza e complementado por um sutil toque por cobertura.

Foto: Alexandre Cassiano

Foto: Alexandre Cassiano

Veio o segundo tempo e Dodô seguiu inspirado. Em uma falta que sofreu, o volante Léo Gago fez o terceiro – contando com falha de Jefferson.

Que estreia para Dodô… NÃO, PERA! Já era seu terceiro jogo! Quem debutava mesmo era Abreu, que passou despercebido em campo e saiu no intervalo. Mas pouco importava. Para os corações vascaínos, quem estava estreando mesmo era seu novo camisa 10. Menos de cinco minutos depois, Dodô serviu Coutinho, que fez o quinto tento cruzmaltino.

Um breve parêntese na nossa história: o gol de número cinco do Vasco foi histórico. Aquele foi o primeiro da carreira de Philippe Coutinho, hoje um dos destaques da Premier League e uma das grandes apostas da seleção brasileira para o futuro.

Aos 36 minutos, saiu o único gol do Vasco que não teve a participação de Dodô. Novamente foi de Coutinho, que sacramentou o impiedoso 6×0 no “Clássico da Amizade”.

Aquele resultado abalou as estruturas do Botafogo. O Gigante da Colina, que vinha de vitórias apertadas sobre Tigres e América, parecia ter encontrado o rumo e um artilheiro nato. O Fogão, muito pelo contrário, perdeu seu caminho. Nos dias seguintes, o técnico Estevam Soares foi demitido e Joel Santana chegou para substituí-lo.

Quis o destino que vascaínos e botafoguenses se encontrassem na final da Taça Guanabara, o primeiro turno do estadual. Quem levou a melhor? Aquele que saiu esfacelado do primeiro clássico: o Botafogo, futuro campeão carioca em cima do Flamengo.

Quanto a Dodô, ele até conseguiu ser o goleador do Vasco no estadual com 11 gols, mas deixou o clube no meio do ano. A partir dali, a carreira do “artilheiro dos gols bonitos” passou a se arrastar e, em 2013, se aposentou.

Realmente, o 6×0 de 2010 deixou marcas e dividiu os caminhos.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

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Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.