Ainda aguardamos a despedida de Marques

Foto: Bruno Cantini/CAM

Foto: Bruno Cantini/CAM

O final dos anos 90 reservou ao Atlético Mineiro algumas das boas emoções de sua história recente. Em 1997, o clube conquistou a Copa Conmebol, goleando o Lanús na final. Em 1999, contrariando prognósticos, o clube classificou-se para os play-offs do Campeonato Brasileiro no apagar das luzes, bateu o rival e favorito Cruzeiro, passou pelo surpreendente Vitória e sucumbiu perante o Corinthians.

Time campeão da Copa Conmebol de 1997

Time campeão da Copa Conmebol de 1997

Nos anos que se seguiram, o Galo chegou à semifinal do Campeonato Brasileiro de 2001 e fez uma campanha decente em 2002. Nesse período, uma figura sempre esteve lá, ajudando o clube a permanecer no grupo dos melhores do país: Marques. Rápido, habilidoso e um garçom formidável, o jogador, cria do Corinthians, viveu seu auge no Galo, sendo reverenciado, chegando à Seleção Brasileira e sendo elevado ao posto de ídolo de uma torcida que viveu momentos turbulentos durante o início dos anos 90.

Curiosamente, bastou o Calango – como era chamado por boa parte da torcida – deixar as Minas Gerais, para que o futebol do time começasse a viver o pior estágio de sua história. Em 2003, Marques partiu para o Vasco, de onde seguiu para o futebol japonês, permanecendo longe de Belo Horizonte até 2005. Nesse período, o clube fez uma campanha razoável no Campeonato Brasileiro de 2003 e viveu um ano terrível em 2004, flertando até a última rodada com o rebaixamento.

Foto: Renato Pizzutto

Foto: Renato Pizzutto

Em 2005, nem seu retorno foi suficiente para evitar o descenso alvinegro à Série B. Apesar disso, foi muito bem, marcou gols importantes e manteve seu status de ídolo. Todavia, novamente partiu para o oriente, retornando ao Japão, onde permaneceu até 2008. De volta ao Galo, no ano do centenário do clube, Marques ainda era um grande jogador, mas sofria em demasia com problemas físicos e lesões, os quais não o impediram de fazer a diferença nas diminutas ocasiões em que entrou em campo, até 2010.

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Com o Galo vivendo instabilidade em seu retorno e o jogador sofrendo com contusões, sua terceira e última passagem pelas Minas Gerais foi bem apagada, mas não arranhou em nada sua bela história no clube. Houve, ainda, capítulos de rara beleza, que fizeram o coração do torcedor alvinegro vibrar de alegria e gratidão. É o caso do gol do título do Campeonato Mineiro de 2010, quando, poucos minutos após entrar em campo, recebeu passe magistral de Ricardinho e deu números finais à partida, promovendo uma comemoração inesquecível.

Foto: Bruno Cantini/CAM

Foto: Bruno Cantini/CAM

Todavia, embora o Xodó da Massa não tivesse um salário vultuoso e quisesse jogar até o final de 2010, Vanderlei Luxemburgo não aceitou renovar seu contrato por mais seis meses e o dispensou em meados daquele ano, gerando uma situação incômoda e que até hoje é lembrada com pesar pelo torcedor do Galo.

Várias vezes, já foi tema de debate na imprensa uma possível despedida para o ex-atleta, uma última oportunidade de o torcedor ver um de seus grandes camisas 9 em campo, mas o esperado reencontro da Massa com seu ídolo nunca saiu do papel.

Foto: Bruno Cantini/CAM I Marques também era querido entre seus companheiros

Foto: Bruno Cantini/CAM I Marques também era querido entre seus companheiros

“Seria legal que fosse algo preparado pelo clube. Lógico que, pelo carinho que tenho pela torcida, pelo Clube Atlético Mineiro, seria uma honra ter um jogo de despedida. Sei que fiz uma história bacana no clube, que dei meu máximo para defender a camisa. Foram quase 400 jogos (386)”, disse o jogador ao LANCE!Net, em 2013.

Por mais que sejam coisas absolutamente distintas, cuja interferência umas nas outras não deveria existir, a eleição de Marques para deputado estadual em 2010, sendo o segundo candidato mais votado de Minas Gerais, demonstrou claramente o apelo do jogador junto à torcida do Atlético. Ainda que alguns fãs do time o tenham criticado em alguns turnos, sobretudo em razão de sua ausência na final do Campeonato Brasileiro de 1999, não há dúvidas de que Marques e o Atlético sempre serão lembrados como assuntos intimamente relacionados.

Ao todo, o atacante marcou presença nos títulos da Copa Centenário de 1997, da Copa Conmebol de 1997 e dos Campeonatos Mineiros de 1999, 2000 e 2010; foi eleito para a Seleção Mineira de 1997, 1998, 1999, 2000, 2001, 2002 e 2005 do tradicional Troféu Guará (promovido pela Rádio Itatiaia); ganhou duas Bolas de Prata da revista Placar (em 1999 e 2001); e se firmou como o 9º maior artilheiro da história do Galo, com 133 gols.

Em 2014, Marques entregou  a Diego Tardelli o prêmio que venceu em duas ocasiões

Em 2014, Marques entregou a Diego Tardelli o prêmio que venceu em duas ocasiões

A abrupta saída de Marques, que ocasionou sua aposentadoria, deixou um gostinho amargo na boca da torcida atleticana. A forma como deixou o clube não esteve à altura de seus feitos. Radicado em Belo Horizonte, o Xodó da Massa merece e o torcedor espera uma despedida de verdade, afinal a porta dos fundos nunca deveria ter sido aberta para ele.

Já se passaram cinco anos, mas o adeus ainda não foi propriamente dito e o último grito de “Olê, Marques” ainda está guardado na garganta de uma multidão que não clama por uma despedida por mero saudosismo e sim por gratidão.

Comentários

Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.