O Cosmos vai a Cuba: O futebol (se) aproxima (de) dois povos

Durante muito tempo, o New York Cosmos foi a grande bandeira do futebol nos Estados Unidos. Um clube que nasceu para o show business, com astros renomados que, contra adversários quase amadores, dava espetáculo e arrastava multidões aos estádios de todo o país. Por isso, foi fundamental para o surgimento e o fortalecimento da relação entre o norte-americano e o esporte bretão. Nesta terça-feira, o Cosmos terá novamente a chance de servir como elo. Desta vez, para reconstruir uma ponte há décadas rompida – com direito até a um embaixador que costuma se mostrar mais sábio quando está em silêncio.

O clube está encarregado de uma missão diplomática. Em Cuba, fará um amistoso contra a seleção nacional da ilha que, desde 1959, vem lidando com um cruel embargo econômico imposto pelos Estados Unidos. Uma situação que trouxe pobreza, fome e miséria para o povo cubano, mas que está em vias de acabar graças à reaproximação entre os dois países. Movimento político simbolizado pela visita do Cosmos: uma tentativa de usar o esporte para reaproximar duas nações e dois povos que se entreolham cheios de desconfiança, temor e, claro, mistificação.

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Nos últimos anos, o futebol tem desatado uma paixão irresistível nas gerações mais jovens tanto em Cuba, quanto nos Estados Unidos. Mas há algum tempo atrás, a realidade era bastante diferente em ambos os países. Na ilha caribenha, ele foi deixado de lado pelo governo revolucionário, que adotou o beisebol como esporte nacional. Os norte-americanos, por sua vez, sempre tiveram sua cultura esportiva muito bem consolidada – e nela jamais esteve incluso o futebol.

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Só que até mesmo os olhares desses dois povos têm se voltado para o espetáculo das principais ligas nacionais europeias e, sobretudo, a Liga dos Campeões. Todas essas competições são acompanhadas atentamente por veículos de imprensa dos dois países e, principalmente nos EUA, o interesse já cresceu a ponto de levar torcedores aos estádios. Ou seja, há espaço para uma mudança de hábitos. E eventos como esse são ocasiões perfeitas para deixar essa transformação ainda mais engatilhada.

Delegação do New York Cosmos no voo para Havana. (Foto: Divulgação)

Delegação do New York Cosmos no voo para Havana. (Foto: Divulgação)

O poeta
Nessa viagem histórica, o embaixador do Cosmos não poderia ser outro que não Pelé. Maior craque a já vestir a camisa verde do clube nova-iorquino, o Rei do Futebol embarcou para Havana junto com a delegação. E chegando lá, não titubeou em dar uma daquelas declarações que o baixinho Romário não costuma perdoar.

Mas além de dar seu pitaco sobre a crise e o contexto político da FIFA, Pelé também ressaltou o caráter pacificador do futebol. “O futebol é a maior família do mundo e sempre traz paz, sempre ajuda a unir as pessoas”, disse à EFE, sem deixar de fazer aquela média com o povo cubano. “Penso que, talvez, em um futuro próximo, Cuba possa estar em uma Copa do Mundo”, afirmou.

Por tudo isso, o amistoso entre o New York Cosmos e a seleção de Cuba será histórico. Os cubanos terão uma chance inédita de ver, in loco, estrelas que há não muito tempo brilhavam no Velho Continente, como Raúl e Marcos Senna – além, é claro, do próprio Pelé. O Cosmos, por sua vez, se vê mais uma vez na condição de símbolo norte-americano em uma das missões mais importantes de sua história: refazer a relação entre duas nações que aprenderam a manter o pé atrás um com o outro. Mas a maior oportunidade mesmo é do futebol, que tem a faca e o queijo na mão para se aproximar de dois povos que nunca lhe deram muita bola.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.