Joelinton: Talento “de Europa”, sim!

CAPA OLHO NELE - JOELINTON V2

O Sport começou o Brasileirão de 2014 tendo em Neto Baiano sua principal referência ofensiva. Tinha sido ele o grande personagem dos títulos estadual e regional daquele início de ano. Só que no segundo semestre, a dedicação não foi a mesma. E fora de sua melhor condição física, chegou o momento em que sua titularidade não se justificava mais. Poderia ser um problema sério para as pretensões do Leão, já que Leonardo, o reserva, era figura carimbada no departamento médico. Mas foi aí que apareceu um magrelão meio desengonçado, de nome estranho, para comandar o ataque rubro-negro, salvar o emprego do técnico Eduardo Baptista e se tornar a grande revelação da história recente do clube.

No início de novembro daquele ano, o Rubro-negro vivia um momento crítico da temporada. O time acumulava oito jogos sem vitória e, nessa sequência, havia marcado apenas quatro gols. Pela 32ª rodada do Brasileiro, o Leão enfrentava o Figueirense em casa. A vitória era crucial: afinal, qualquer outro resultado consolidaria ainda mais uma tendência perigosa de aproximação da zona do rebaixamento. Um caminho que, àquela altura do campeonato, poderia se revelar irreversível.

À direita, Joelinton, desde os 14 anos no clube. Descoberto, lapidado e revelado pelo Leão. Na foto, aparece também Neto Moura, outro que já desponta no futebol profissional (Foto: Arquivo)

À direita, Joelinton, desde os 14 anos no clube. Descoberto, lapidado e revelado pelo Leão. Na foto, aparece também Neto Moura, outro que já desponta no futebol profissional (Foto: Arquivo)

O jogo começou, os minutos foram passando e o conhecido gargalo ofensivo leonino ficou mais uma vez escancarado. A equipe criava poucas chances e, quando conseguia, faltava poder de fogo. Até que, após o intervalo, veio a campo Joelinton. Com o número 34 às costas, o jovem logo deu nova dinâmica ao ataque. Protagonizou boas tabelas com Diego Souza. E participou da jogada que culminou com o pênalti em que o camisa 87 fez o gol da sofrida vitória. Um cartão de visitas que abriu os olhos do torcedor para a ascensão de um talento talhado nas categorias de base do clube.

Grandes feitos…

https://www.youtube.com/watch?v=4L7Dm7aSTp8

A partir desse jogo que marcou o reencontro do Sport com as vitórias, Joelinton ganhou a confiança plena de Eduardo Baptista. À qual correspondeu sem deixar margem para qualquer contestação. De repente, o garoto se tornou titular absoluto. Vinte dias após a partida contra o Figueira, saiu o primeiro gol. Contra o Fluminense, diante da torcida, na Arena Pernambuco, ele escorou cruzamento de Renê e saiu para o abraço. A fase era tão boa que, após a partida, o técnico rubro-negro rasgou elogios à atuação de seu pupilo.

“Depois do jogo de hoje, vai ser difícil segurar Joelinton aqui. É jogador de Europa”, derreteu-se, ressaltando ainda que ele tinha levado a melhor no confronto pessoal contra Fred, centroavante do rival.

Contra o Flu, o camisa 34 deixou o dele numa partida primorosa e, para Eduardo Baptista, venceu o duelo com Fred (Foto: Marlon Costa)

Contra o Flu, o camisa 34 venceu o duelo com Fred, para Eduardo Baptista, e para Diego Souza, se firmou como alguém capaz de prender a bola enquanto ele escapava da marcação  (Foto: Marlon Costa)

… enormes responsabilidades

Era óbvia a intenção do treinador com a declaração: agradecer ao garoto pelo esforço e a personalidade mostrados naquele momento tão difícil para o conjunto. E mostrar a ele o futuro que o aguardava caso ele mantivesse aquela conduta. Só que as palavras terminaram semeando entre a torcida e a imprensa local uma falsa imagem de que Joelinton era um jogador absolutamente pronto para atuar nas ligas mais competitivas do mundo. De fato, difícil era esperar interpretação diferente, em um país cujo futebol é tão marcado pela cultura do imediatismo. Era como se o vaticínio de Eduardo tivesse, subitamente, transformado aquele menino de 18 anos, ainda suscetível a oscilações, em um matador de elite.

Foi cercado dessa expectativa que o atacante iniciou sua jornada em 2015. Tinha a confiança do clube, que resolveu apostar e valorizar sua principal revelação, ao invés de contratar um jogador “de peso” para a posição. Crédito simbolizado pelo número 9 que ele passou a envergar a partir de janeiro. Por tudo isso, quando atravessou sua primeira má fase, viu recair sobre si uma desconfiança nas mesmas proporções. Ao invés de aplausos e incentivos, passaram a vir das arquibancadas as vaias. Que pareciam impedir o garoto de repetir as grandes atuações do ano anterior.

Gol contra o Socorrense, pela Copa do Nordeste, foi um dos raros momentos de felicidade do atacante dentro de campo no 1º semestre de 2015 (Foto: Marlon Costa)

Gol contra o Socorrense, pela Copa do Nordeste, foi um dos raros momentos de felicidade do atacante dentro de campo no 1º semestre de 2015 (Foto: Marlon Costa)

O baixo rendimento de Joelinton no primeiro semestre de 2015 teve um custo muito alto para o Sport. O setor ofensivo voltou a ser problema. Travou novamente o time e, muito por isso, a falta de gols em momentos cruciais foi provavelmente a grande razão das eliminações no Pernambucano e na Copa do Nordeste. Com o fim abrupto da participação rubro-negra nas duas competições, a necessidade que o clube tinha de, enfim, fazer um investimento num atacante era escandalosa (alguns diziam até ser fruto de omissão da diretoria). Veio, então, Henane Brocador. Mas a demora na regularização do reforço, somada à lesão do concorrente Samuel, deu ao garoto mais uma oportunidade de mostrar, de novo quando poucos esperavam, que todo aquele talento mostrado não tinha ficado no passado.

Na estreia do Brasileiro em 2015, Joelinton deu sinais de que o bom futebol estava voltando. Na foto, ele mostra o melhor de seu repertório: a proteção de bola (Foto: Marlon Costa)

Na estreia do Brasileiro em 2015, Joelinton deu sinais de que o bom futebol estava voltando. Na foto, ele mostra o melhor de seu repertório: a proteção de bola (Foto: Marlon Costa)

Reafirmação

Com o início de mais um Brasileirão, o Sport voltou a se mostrar o time confiável de um ano antes. E com essa evolução coletiva, reapareceu aquele Joelinton que havia encantado a torcida. Boa partida na estreia contra o Figueirense. Na 2ª rodada, uma linda assistência de calcanhar para gol de Elber no Maracanã, contra o Flamengo. Na 4ª rodada, gol na Vila Belmiro, contra o Santos. Até que pipocaram as primeiras notícias de que a Europa já tinha crescido os olhos sobre o jogador. Investidores alemães já estavam, inclusive, no Recife para apresentar uma proposta oficial ao Sport por ele. A essa altura, sua saída já era inevitável.

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https://youtu.be/w5jVounP77o?t=14s

E assim, na 5ª rodada, o jovem fazia sua despedida do clube que o revelou. Com mais uma assistência no melhor estilo pivô, que Maikon Leite, autor do gol, fez questão de ressaltar. “Só ele no grupo pegaria aquela bola e eu confiei no meu companheiro”, afirmou. Um lance com a assinatura do prata da casa, que terminou num verdadeiro golaço e deu ao Sport uma vitória épica e determinante para dar sequência ao bom início de campeonato.

Joelinton vinha sendo observado desde o início de 2015 pelos alemães, que fecharam negócio assim que abriu a janela de transferências (Foto: Divulgação)

Joelinton vinha sendo observado desde o início de 2015 pelos alemães, que fecharam negócio assim que abriu a janela de transferências (Foto: Divulgação)

Poucos dias depois, ele assinava contrato com o Hoffenheim, seu novo clube. E transformava os elogios de Eduardo Baptista, meses antes, em uma profecia que teve que ser engolida por quem ridicularizou ou descontextualizou suas palavras. Sim, Joelinton hoje é jogador de Europa. E numa liga que é exemplo de organização e bom futebol, terá a oportunidade de continuar sua evolução. Agora, sob os olhares ainda mais atentos de clubes que, ao contrário da maioria dos brasileiros, investem com base no planejamento, e não no imediatismo.

Pernambucano feliz da vida com a camisa de seu novo clube (Foto: Divulgação)

Pernambucano feliz da vida com a camisa de seu novo clube (Foto: Divulgação)

 

Ficha do jogador

Nome completo: Joelinton Cássio Apolinário de Lira
Data de nascimento: 14 de agosto de 96 (18 anos)
Altura: 1,90m
Peso: 76 kg
Clubes: Sport (2014-2015), Hoffenheim (2015).

Números pelo Sport
39 partidas
7 gols

 

 

 

Trajetória

Nascido na pequena cidade de Aliança, na Mata Norte de Pernambuco, a 80 km do Recife, Joelinton foi descoberto aos 14 anos pelo olheiro João Maradona, em uma peneira. Veio para as categorias de base do Sport e morou na concentração do clube até sua saída para a Alemanha.

Teve uma passagem pela seleção sub-17 em 2012, convocado pelo técnico Marquinhos Santos, e marcou dois gols pela Amarelinha.

Para quem quiser saber mais detalhes vida pessoal e do início de carreira do jogador, a dica é ler a entrevista que ele concedeu ao companheiro Daniel Leal, repórter do Superesportes.

Características

Em sua rápida ascensão no Sport, Joelinton chegou a marcar alguns gols importantes, mostrando bom poder de finalização e frieza em frente ao goleiro. Mas se destacou menos pelo faro artilheiro e mais pela sua dominância nas disputas de bola.

Pelo alto, é quase sempre favorito a vencer o confronto individual contra o marcador. E com a bola no chão, sabe usar muito bem seu corpo (e o do rival) para proteger a bola e garantir a posse. Assim nasceram várias jogadas de perigo do Sport nos últimos meses.

O desafio no Hoffenheim

A primeira meta do pernambucano no seu novo clube é convencer a comissão técnica de que ele tem condições de ser aproveitado no time principal desde já. E considerando o histórico do Hoffenheim de utilizar de maneira consistente seus atletas jovens, é difícil imaginar que ele será emprestado para ganhar experiência ou sob qualquer outro pretexto.

Com capacidade para 30.150 pessoas, a WIRSOL Rhein-Neckar Arena, onde Joelinton jogará com o Hoffenheim, tem 90,1% de taxa de ocupação (Foto: Divulgação)

Essa política está bem explícita no próprio site oficial do clube, na página que fala dos métodos da academia para atletas de até 19 anos.

“Nossa filosofia é baseada num modelo de desenvolvimento que educa jogadores em aspectos fundamentais da vida esportiva e cotidiana. Cultivamos uma relação honesta com nossos jovens e assumimos a sincera responsabilidade pelo desenvolvimento deles“.

Ou seja, já que o clube se propõe a ser uma escola, seu sucesso só depende dele próprio manter sua vontade de aprender e evoluir.

Dentro de campo, a disputa será intensa. O técnico Markus Gisdol tem à disposição para o comando do ataque alguns jogadores experientes, como Schipplock e o húngaro Szalai. O único que parece garantido no setor é o jovem Kevin Volland, titular da Alemanha sub-21 e grande promessa do clube hoje. Mas aparentemente, Joelinton chega para preencher a lacuna deixada pelo francês Anthony Modeste, que foi negociado com o Colônia.

Por isso, deve ganhar suas oportunidades como referência ofensiva, ajeitando a bola para que atacantes mais móveis cheguem de trás. Se conseguir cumprir bem esse papel e fazer seus golzinhos de vez em quando, tem tudo para ganhar a confiança do treinador e dos companheiros.

Precedentes

Com o perdão do trocadilho, Jan Köller é a maior prova de que o estilo de Joelinton tem tudo para dar certo na Bundesliga (Foto: Divulgação)

Com o perdão do trocadilho, Jan Köller é a maior prova de que o estilo de Joelinton tem tudo para dar certo na Bundesliga (Foto: Divulgação)

Não faltam exemplos de centroavantes com as características de Joelinton que obtiveram destaque na Bundesliga. Ainda que o novo futebol alemão esteja cada vez mais marcado pelo toque de bola e pelas inovações táticas, aquele arquétipo de camisa 9 forte e alto ainda encontra muito espaço no país.

Stefan Kiessling (Bayer Leverkusen), Mame Diouf (ex-Colônia), Bas Dost (Wolfsburg), Mario Gomez (ex-Stuttgart e Bayern), Mario Mandzukic (ex-Wolfsburg e Bayern), Edin Dzeko (ex-Wolfsburg), Alex Meier (Eintracht Frankfrut), Claudio Pizarro (Bayern). Todos esses são atletas cujo estilo de jogo se assemelha bastante ao do ex-rubro-negro, e que devem servir de inspiração para que ele atinja, no país que venceu a última Copa do Mundo, todo o seu potencial.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.