Levir mostra que menos pode ser mais

Foto: Bruno Cantini/ CAM

Foto: Bruno Cantini/ CAM

Após a conquista do título do Campeonato Mineiro e a eliminação da Copa Libertadores da América, o Atlético Mineiro sofreu uma alteração tática que tem sido crucial para o bom desempenho do time no Brasileirão e já havia sido testada em 2014. Com um volante a menos e um jogador ofensivo a mais, curiosamente, o time cresceu, e um ponto em particular melhorou consideravelmente: a marcação. Como? Com um marcador a menos o time marca mais? Sim.

Durante a primeira parte do ano, o comum era ver o Galo alinhar Rafael Carioca e Leandro Donizete na contenção. Carioca, em função de sua maior desenvoltura com a bola nos pés, ganhava mais liberdade para participar do jogo, o que, embora pareça algo bom, não necessariamente era. Apesar de sua afinidade com a pelota, o jogador criado no Grêmio é um volante e não um meia, e, quando se aventurava na frente, pecava muitas vezes nos passes.

Foto: Bruno Cantini/ CAM - Isolado na contenção, Carioca cresceu

Foto: Bruno Cantini/ CAM – Isolado na contenção, Carioca cresceu

Mudança feita, Leandro Donizete, ídolo do torcedor, perdeu sua vaga no time titular e viu o argentino Jesús Dátolo, criticado em boa parte do início de ano, assumir seu posto, jogando mais recuado. Com isso, Carioca teve de se contentar com o trabalho sujo e cresceu. Restringindo-se à marcação, o volante passou a fazer participações defensivas melhores e a errar menos passes comprometedores. Por outro lado, Dátolo tem conseguido fazer com que a saída de bola do time seja mais precisa, participado mais do jogo e auxiliado melhor seus companheiros.

Foto: Bruno Cantini/ CAM - Renascimento de Giovanni Augusto no time tem ajudado

Foto: Bruno Cantini/ CAM – Renascimento de Giovanni Augusto no time tem ajudado

Inicialmente, a escolha de Levir Culpi foi pelo alinhamento de Carlos, Luan, Thiago Ribeiro e Lucas Pratto juntos, montando uma equipe com peças muito ofensivas. Uma melhor experiência trouxe Giovanni Augusto – que ganhou espaço após o fim de um imbróglio com o clube na justiça – ao meio, no lugar de Carlos. Apesar disso, a formação com os quatro avantes não deverá ser descartada.

Voltando ao princípio: como um time composto por peças tão ofensivas pode marcar mais do que um com mais especialistas na destruição? A resposta é simples: com inteligência tática e doação física.

Foto: Bruno Cantini/ CAM - Luan é o grande ícone do novo momento alvinegro

Foto: Bruno Cantini/ CAM – Luan é o grande ícone do novo momento alvinegro

Como poucas vezes se viu no futebol brasileiro, o time inteiro do Galo marca. E a figura que melhor exemplifica essa realidade é Luan. Atleta de impressionante capacidade física, o camisa 27 trabalha incansavelmente pelo melhor desempenho do time, sendo utilizado tanto como ponta, pelo lado direito, quanto mais centralizado, como meio-campista. Aliás, falando no flanco direito, é impossível não perceber a impressionante evolução do setor. Com Luan e Giovanni se entrosando, quem cresceu foi o contestado Patric, que a cada jogo, auxilia mais o time.

Foto: Bruno Cantini/ CAM - A  evolução de Patric é o maior sintoma do crescimento do Atlético

Foto: Bruno Cantini/ CAM – A evolução de Patric é o maior sintoma do crescimento do Atlético

Pela faixa canhota, Douglas Santos mostra-se, a cada dia, um lateral mais consciente de seu papel e de suas qualidades. “Estável” é um bom adjetivo para descrevê-lo. Seu companheiro de flanco, por vezes Carlos, por vezes Thiago Ribeiro, também destaca-se na marcação, atrapalhando, sobremaneira, a saída de bola dos adversários e acompanhando seus avanços.

Outra curiosidade desta nova versão do Galo é a pouca participação dos zagueiros. Embora tenham apenas um volante à sua frente, os beques raramente ficam expostos e isso tem uma explicação precisa: o Atlético tem acuado seus adversários no campo de ataque, dificultando a saída de bola dos rivais, que dificilmente têm conseguido avançar no terreno alvinegro e ameaçar a excelente dupla formada por Leonardo Silva e Jemerson.

Foto: Bruno Cantini/ CAM - Pratto tem se mostrado uma grande reposição à perda de Tardelli

Foto: Bruno Cantini/ CAM – Pratto tem se mostrado uma grande reposição à perda de Tardelli

Além disso, há que se ressaltar o vital papel desempenhado por Lucas Pratto na esquadra alvinegra. Dificilmente, o clube mineiro poderia ter encontrado um substituto tão bom para Diego Tardelli quanto o argentino. Apesar do porte físico avantajado, que transmite a impressão de que o jogador se movimenta pouco, Pratto dá opções a todo tempo, deixa seus companheiros em ótimas condições e ainda revela uma veia goleadora. Ademais, atazana a vida dos zagueiros adversários durante os 90 minutos, sendo uma importante figura na primeira linha de marcação do Galo.

É importante ressaltar, ainda, que o retorno do esquema com dois volantes não está totalmente descartado e certamente será utilizado em determinadas partidas e situações de jogo, mas, a despeito disso, a capacidade de marcação de uma equipe que não se utiliza de muitos especialistas na tarefa impressiona. Outro ponto de considerável relevo é a inteligência tática dos jogadores, que sempre buscam preencher os espaços, independentemente de estarem nas funções designadas ou não. Por vezes, as posições dos jogadores se alteram, mas a estrutura tática é mantida.

Foto: Bruno Cantini/ CAM

Foto: Bruno Cantini/ CAM

Os números também não nos deixam mentir. Segundo o site Footstats, o Galo é o terceiro time que mais acertou passes no Campeonato Brasileiro (1884), o que mais proveu assistências para gol (9), passes-chave (57), o que mais acertou finalizações (32), o sexto que mais desarmou (102 vezes), o que conseguiu maior número de lançamentos certos (111) e o segundo que mais viradas de jogo acertou (39).

Foto: Bruno Cantini/ CAM - Novidade, Thiago Ribeiro vai melhorando jogo a jogo

Foto: Bruno Cantini/ CAM – Novidade, Thiago Ribeiro vai melhorando jogo a jogo

Com Rafael Carioca na contenção, Dátolo e Giovanni Augusto na construção das jogadas, distribuição do jogo e gestão da bola (e ainda há Guilherme, figura de indiscutível qualidade, que está próximo de retornar de lesão), Carlos, Luan e Thiago Ribeiro trabalhando feito operários nos balanços ofensivo e defensivo, e Lucas Pratto sendo referência, o Galo cresceu coletiva e individualmente. Até mesmo jogadores contestados como Maicosuel e (isso sem falar no citado Patric) têm produzido melhor.

Levir trouxe ao Atlético o jogo coletivo que muitas vezes falta no futebol brasileiro, e vem provando, rodada após rodada, que um time recheado de marcadores não necessariamente marca mais ou melhor. Em sua quarta passagem pelo alvinegro das Minas Gerais, Levir vem mostrando que menos pode ser mais.

Foto: Bruno Cantini/ CAM - Levir mostra que em seus sete anos de Japão, não ficou parado

Foto: Bruno Cantini/ CAM – Levir mostra que em seus sete anos de Japão, não ficou parado

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.