Nada está tão ruim que não possa piorar

  • por Victor Gandra Quintas
  • 4 Anos atrás

O famoso dito popular que ilustra o título deste texto casa bem com a atual situação do Cruzeiro. O time bicampeão brasileiro conseguiu, em poucos meses, derrubar a bela imagem que vinha construindo ao longo dos dois últimos anos. E a demissão de Marcelo Oliveira, responsável maior pelos títulos passados, é a marca de que alguma coisa está errada na Toca da Raposa.

Era de se esperar, depois de dois excelentes anos, que os destaques do time saíssem. A diretoria fez o possível para segurá-los. Gilvan Tavares, o presidente, com seu escudeiro Alexandre Mattos, foram elogiados por torcida e imprensa. Mas foi só o diretor sair para as coisas desandarem. A saída de Mattos, contudo, não foi o único motivo pelo qual que o time descambou. Houve uma sucessão de erros.

As saídas de Everton Ribeiro, Ricardo Goulart, Marcelo Moreno, Egídio e Lucas Silva foram sentidas. Seria normal, portanto, uma reformulação. E isso aconteceria se pelo menos jogadores de características semelhantes fossem contratados. Marcelo Oliveira pediu – chegou a exigir – certos jogadores, mas não foi atendido. Ao contrário, viu seu elenco ser inflado com atletas de ataque sem qualidade e descaso com o meio-campo, setor que mais demandava reforços.

A saída de Everton Ribeiro, que pelo futebol mostrado no Cruzeiro jogará a Copa América com a Seleção, foi a mais sentida, pois deixou carente de armação o time Celeste. Um camisa 10, então, foi pedido, não só pelo treinador, mas por toda a torcida. Era evidente a necessidade deste jogador. A diretoria tentou Lucas Lima, do Santos, mas o clube paulista rejeitou a oferta cruzeirense. É verdade que não está fácil encontrar nomes de qualidade para a posição no futebol brasileiro, mas a procura poderia ter se estendido para outros times do continente. Tanto é que o jogador que ocupa esta posição no time atualmente é o uruguaio De Arrascaeta. É claro que só quem está dentro do clube sabe exatamente como ele funciona, o que torna difícil questionar o trabalho interno, mas ficou evidente que o treinador pediu e não foi correspondido.

Foto: Facebook Cruzeiro / Divulgação

Foto: Facebook Cruzeiro / Divulgação

Falando em De Arrascaeta, o jovem chegou com a responsabilidade de armar o time, função que nunca desempenhou. Quando no Nacional do Uruguai, brilhou mostrando seus dribles e velocidade de raciocínio, não na armação das jogadas. Tanto que pouco correspondeu no time azul de Belo Horizonte.

https://www.youtube.com/watch?v=pxq0izp3cjs

Vive das canetas e dos lampejos. Tem potencial para ser um grande jogador, pode evoluir, até ser um craque, mas ainda não o é.

Marcelo Oliveira tem, sim, sua parcela de culpa neste time, ao insistir em jogadores em má fase como Willian no ataque. Ou por manter a mesma formação quando o time pedia mudanças, como contra o São Paulo no Morumbi ou o River Plate naquele jogo vergonhoso no Mineirão. Mas demitir aquele que talvez seja o melhor treinador em atividade no Brasil por conta disso, sendo que ele não foi o maior culpado pelo fracassado primeiro semestre de 2015, é covardia.

Covardia sim, e omissão da diretoria que não aceita a responsabilidade por ter contratado mal e trazido atletas que pouco contribuíram para a equipe. Tanto é que vários deles já saíram ou estão subutilizados por não apresentarem qualidade suficiente para vestir a camisa do Cruzeiro.

E esta covardia fica ainda mais evidente quando analisamos os números do time sob a batuta de Marcelo Oliveira. Segundo o site oficial do clube estrelado, foram 169 jogos, com 105 vitórias, 32 empates e 32 derrotas, contabilizando 68,44% de aproveitamento, um dos maiores da história do clube. Foram marcados nada menos do que 321 gols, com 147 sofridos, totalizando um saldo de 174. Credenciais espantosas em apenas dois anos. Marcelo, no dia de sua demissão, atingia a marca de quarto treinador a comandar o time por mais tempo.

Agora teremos um substituto. O nome mais forte é o de Vanderlei Luxemburgo, que venceu o primeiro Brasileirão dos pontos corridos com a Raposa. Isso há 12 anos. De lá para cá, o técnico vive de trabalhos medianos e muita mídia. Há outros técnicos, como Adilson Batista (que grande parcela da torcida amaria ver de novo no comando da equipe, mesmo não tendo nenhum trabalho decente desde que saiu de Belo Horizonte há 6 anos), Mano Menezes (que rejeitou o Crueiro algumas vezes), Luiz Felipe Scolari (que também tem certa identificação com o clube), Parreira, Abel Bragaas opções são muitas, porém, nenhuma animadora.

cruzeiro

Acompanhando os anos de 2013 e 2014, parecia que o time vinha numa crescente, que poderia ser a grande potência a ser batida no Brasil (e era!), que em 2015, mesmo com a reformulação, o Cruzeiro poderia progredir, pois contava com um treinador humilde, que sabia vencer. Um treinador que conquistou toda uma torcida que o rejeitara por ser ídolo do maior rival.

Obrigado, Marcelo! Foram dois anos de muita alegria, prazer e deleite. Você fez o Cruzeiro voltar à grandeza de antes e está marcado na história do clube. Espero que volte um dia, pois sequer deveria ter saído.

Pode ser que o ano ainda não esteja perdido, que o substituto consiga fazer o time progredir. Mas não há, no momento, um horizonte tranquilo à frente do Cruzeiro.

Comentários

Natural de Belo Horizonte. Torcedor do Cruzeiro e da Juventus. Um Doente por Futebol. Desde pequeno um apreciador do esporte mais popular do mundo, preferindo mais em acompanhar do que jogar (principalmente por não ter talento algum com a bola).