Não invente, Dunga!

Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Foto: Rafael Ribeiro/CBF – Com alterações inexplicáveis, Dunga irritou os torcedores

O torcedor brasileiro começou a assistir ao jogo contra a Venezuela esperançoso. Embora não tivesse Neymar, a grande estrela na companhia Canarinha, suspenso e possivelmente fora da competição, o treinador Dunga alinhou o time mais clamado pelo público, promovendo as entradas de Philippe Coutinho e Robinho e a saída do criticado Fred. Rapidamente, os efeitos das alterações foram sentidos.

Com mais movimentação do que nas partidas anteriores, o Brasil fez o seu melhor primeiro tempo das últimas partidas, considerando os amistosos contra México e Honduras e as partidas contra Peru e Colômbia, válidas pela Copa América. Embora tenha tido em grande parte da etapa inicial uma posse de bola estéril, a seleção brasileira mostrou controle das ações e até uma pequena demonstração do jogo coletivo que se espera em um time de futebol.

Com um volante a menos, a defesa ganhou mais solidez e o meio-campo, fluidez, embora nenhum dos jogadores ofensivos tenha feito um jogo excelente, tendo sido Willian o jogador mais lúcido do setor, o grande destaque individual brasileiro na partida. Assim, contra uma equipe venezuelana que – sobretudo após o primeiro gol – apenas se defendia, com praticamente todos os jogadores recuados em seu próprio campo, o futebol brasileiro se sobressaiu e os gols de Thiago Silva e Roberto Firmino deram números justos ao placar.

Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Foto: Rafael Ribeiro/CBF – Firmino voltou a marcar contra a Venezuela

Não obstante, sem uma explicação muito clara, o técnico Dunga assumiu o protagonismo na segunda metade da etapa final. Fosse porque tivesse considerado a partida ganha e apta à realização de testes, ou simplesmente por algum infeliz devaneio, o comandante assustou o torcedor, que terminou a partida irritadíssimo com a pressão imposta pela seleção Vinotinto, sem entender as opções de seu treinador.

Se os técnicos dos clubes para os quais torcemos decidissem lançar em campo uma equipe com quatro zagueiros, dois volantes e dois laterais, certamente pediríamos sua cabeça ou diríamos que seu lugar seria um manicômio, dada a certeza da insanidade que uma opção dessas reflete. Imagine quando essa opção acontece na seleção brasileira, aquela esquadra pentacampeã mundial.

Foto: Rafael Ribeiro/CBF - Jogador estável, Willian voltou a fazer um bom jogo

Foto: Rafael Ribeiro/CBF – Jogador estável, Willian voltou a fazer um bom jogo

Se Dunga quisesse um volante a mais em campo, o que por si só já seria discutível (afinal, contar com mais jogadores de defesa não necessariamente reflete uma maior proteção), poderia ter colocado Casemiro ou Fred, opções naturais para o setor. Se queria outro lateral-direito, poderia ter lançado Fabinho, cuja função originária é pelo referido flanco. Há tempos não se via algo tão esdruxulo como a seleção brasileira atuando com uma primeira linha de quatro defensores, com um zagueiro na lateral direita, e uma segunda, no meio-campo, com três volantes, sendo um deles zagueiro, e com um lateral pela meia cancha.

Nada explica esse tipo de atitude, de forma que chamar o treinador Dunga de Professor Pardal ofenderia profundamente o saudoso personagem da Disney. Um improviso, por pior que seja, ainda seria aceitável. O que é inadmissível é o Brasil atuar com três jogadores em funções distintas das suas originárias por conveniência do treinador, que possuía peças especializadas para todas as posições.

Foto: Rafael Ribeiro/CBF - Se queria outro volante, por que Dunga não colocou Casemiro?

Foto: Rafael Ribeiro/CBF – Se queria outro volante, por que Dunga não colocou Casemiro?

Se Dunga deu alento ao torcedor com a escalação inicial, suas alterações na segunda etapa enterraram as esperanças no trabalho do treinador. Diante das dificuldades que têm sido vistas na Copa América, com todas as seleções, não se pode dar ao luxo de “fazer testes”. Todos os jogos são decisivos. Por isso, neste momento em que o torcedor se alegra com a vitória brasileira, mas se desespera com a possibilidade de o técnico colocar tudo a perder em um jogo decisivo, o pensamento público é um só e reflete-se em um pedido:

– Por favor, Dunga, não invente!

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho), 25 anos. Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no O Futebólogo e na Revista Relvado.