O fim da brilhante carreira de Ferdinand

CAPA

Não, não é preciso vestir apenas uma camisa para se firmar como um grande ídolo. Na última década, o polêmico, porém craque da defesa, Rio Ferdinand provou a veracidade desta afirmação. Antes de fechar com o Manchester United, clube onde passou a maior e melhor parte de sua carreira, o beque foi ídolo no West Ham, que o formou, e viveu bons dias no Leeds United. A despeito disso, diferentemente de outros grandes jogadores, Ferdinand teve um final de carreira melancólico, com uma temporada derradeira ruim e a morte precoce de sua esposa, vítima de câncer.O fim da brilhante carreira de Ferdinand - Copy

Já em baixa em seus últimos anos nos Red Devils, com seu desligamento do clube, Rio Ferdinand se negou a dar sua carreira por terminada e apostou em uma temporada no Queens Park Rangers, voltando a sua Londres. Aceitando receber aproximadamente um terço de seus vencimentos do United (cerca de 40.000 libras semanais), deixou claro que queria jogar, desfrutar do final de sua carreira dentro dos gramados. “Isso chega para todos no final, mas, ainda assim, nos pega de surpresa”, relatou o defensor pouco após sua dispensa do Manchester United.

Todavia, ao final da temporada 2014-2015, o que se percebe é o erro do zagueiro, que começou a temporada como titular, sob o comando de Harry Redknapp, mas, desde a saída do comandante e a chegada de Chris Ramsey, perdeu espaço e ainda sofreu uma última lesão muscular. Seu saldo na última campanha foi horrível. Em doze jogos disputados, acumulou nove derrotas, duas vitórias e um empate. Certamente, admitir que chegou a hora de pendurar as chuteiras não é fácil, mas é uma avaliação necessária.

Nada que tenha manchado seus feitos, que começaram a ser escritos em 1996, aos 17 anos.

Início no West Ham

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Cria do West Ham, onde chegou a atuar com Frank Lampard e Joe Cole, Ferdinand foi descoberto por Frank Richard George Lampard, ninguém menos do que o pai de Frank Lampard, ídolo do Chelsea. Seu primeiro passo no futebol profissional aconteceu em 5 de maio de 1996, no empate por 1×1 do West Ham com o Sheffield Wednesday, na última rodada da Premier League 1995-1996. Na ocasião, teve pouco mais de cinco minutos para compreender o que o futuro lhe reservava no futebol profissional.

Na temporada seguinte, não teve espaço no início, sendo emprestado ao Bournemouth por um curto período. Na modesta equipe, disputou 10 jogos na terceira divisão e logo foi chamado de volta a Londres. Em seu retorno, ganhou mais oportunidades e entrou em campo 17 vezes, balançando as redes em duas ocasiões, contra o Blackburn e o Coventry City. Estava certo que a temporada 1997-1998 lhe reservaria uma importante sequência de jogos. O detalhe? Ainda não tinha, sequer, 20 anos, mas já assombrava pela peculiar qualidade técnica.

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Com mais de 40 jogos disputados, Ferdinand começou a confirmar as expectativas depositadas em seu futebol e, além de ter se tornado titular indiscutível, foi eleito o melhor jogador dos Hammers na temporada. O curioso é que, nesse período, Sir Alex Ferguson já havia tentado contratar o jovem beque. Após falhar na contratação de Markus Babbel, do Bayern de Munique, e de Célio Silva, brasileiro que não conseguiu licença de trabalho, o treinador voltou seu olhar para Ferdinand, mas, diante da recusa do West Ham, fechou com Henning Berg.

Até o final de sua trajetória na equipe londrina, que aconteceria em meados da temporada 2000-2001, atuou mais 60 vezes pelos Hammers, contabilizando um total de 158 jogos.

Grande fase no Leeds United

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Com o destaque que conseguiu no West Ham, era evidente que Ferdinand não continuaria muito tempo no clube, uma vez que a qualidade de seu futebol não era compatível com as pretensões da equipe do leste da capital inglesa. Por aproximadamente £18 Milhões – tornando-se o zagueiro mais caro da história do futebol até então –, o beque foi contratado pelo Leeds United, trazendo impacto imediato ao clube.

Sua estreia não foi como se esperava (derrota por 3×1 contra o Leicester City), mas, rapidamente, o inglês se encaixou na equipe, que terminou a Premier League 2000-2001 na quarta colocação. Além disso, o zagueiro foi importantíssimo na excelente campanha dos Peacocks na UEFA Champions League, chegando às semifinais e perdendo para o Valencia. Na trajetória, Ferdinand chegou a balançar as redes contra o Deportivo La Coruña, nas quartas de final.

Iniciada a temporada 2001-2002, foi escolhido o novo capitão da equipe, e disputou 41 jogos, conduzindo o Leeds à quinta colocação na Premier League, sua última boa colocação na competição. Após a Copa do Mundo, em função das dificuldades financeiras de seu clube, deu adeus à equipe, batendo seu próprio recorde de valor de transferência (que já havia sido derrubado com a transferência de Lilian Thuram do Parma para a Juventus) e partindo para o Manchester United por quase £30 Milhões.

Esplendor em Manchester

Com um contratado de cinco anos fechado, Rio Ferdinand chegou ao United com a missão de substituir Jaap Stam, que partira para a Lazio na temporada anterior e deixara um vácuo na defesa dos Red Devils. Sua estreia aconteceu no dia 27 de agosto de 2002, na goleada contra o fraco Zalaegerzegi FC, da Hungria, na fase classificatória da UEFA Champions League, 5×0.

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Logo em sua primeira temporada, conseguiu grande êxito, com o título da Premier League. Apesar disso, em setembro de 2003, o jogador deixou de comparecer a um teste antidoping e foi punido com uma suspensão de 12 meses, o que o levou a perder grande parte da temporada 2003-2004 e o início da campanha de 2004-2005. Nesse período, o United venceu uma FA Cup, mas viu o Arsenal dominar o Futebol Inglês.

Logo depois, foi a vez do Chelsea tomar o foco na esfera doméstica, deixando os Red Devils três temporadas em jejum no Campeonato Inglês. Não obstante, em 2005-2006, Ferdinand ajudou a equipe a conquistar a Football League Cup.

Seu primeiro gol pelo Manchester United saiu mais de três anos após sua contratação, em dezembro de 2005, na vitória contra o Wigan, 4×0. Na temporada, voltou a balançar as redes duas vezes, uma delas no clássico contra o Liverpool, garantindo a vitória, pelo magro placar de 1×0.

Veio, então, a temporada 2006-2007 e com ela a supremacia do Manchester United. Firmando uma parceria importantíssima com Nemanja Vidic, Patrice Evra e Edwin van der Sar, que haviam chegado no ano anterior e já estavam adaptados, ajudou o clube a conquistar a Premier League, iniciando uma sequência de três conquistas. 2006 também foi o ano em que Ferdinand vitimou, novamente, o Liverpool, com um de seus mais bonitos gols da carreira.

Em 2007-2008, foi a vez de presenciar a ascensão de seu clube na esfera continental, conquistando a UEFA Champions League e vendo uma trinca formada por Cristiano Ronaldo, Wayne Rooney e Carlitos Tévez brilhar intensamente. Nessa temporada, também protagonizou uma das cenas mais curiosas e lembradas de sua carreira. Na eliminação da equipe da FA Cup, viu Edwin van der Sar se machucar e Tomasz Kuszczak, seu substituto, ser expulso. Isso levou o zagueiro a calçar luvas e assumir a meta do United.

Outra polêmica que teve em Ferdinand seu protagonista aconteceu após a derrota dos Red Devils contra o Chelsea, em abril de 2008. Nervoso com o resultado, o zagueiro acertou acidentalmente um chute em uma guarda (steward). Posteriormente, alegou ter se desculpado e enviado flores à agredida.

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A temporada seguinte, 2008-2009, marcou uma nova campanha excelente do United na Premier League, na Football League Cup e na UEFA Champions League, com o clube perdendo a final para o Barcelona. No início da temporada, conquistou a Supercopa da UEFA e, ao final de 2008, o Mundial de Clubes. Todavia, foi a última temporada do zagueiro em nível excepcional. A partir de 2009-2010, quando viveu um período muito perturbado por lesões, começou a sofrer uma queda técnica. Apesar disso, ainda esteve presente em dois títulos ingleses.

Com o avanço da idade, os problemas de lesões, a queda técnica de todos os seus companheiros de defesa e a saída de Ferguson, ao final da temporada 2013-2014, já não era o mesmo. Encerrou, então, sua brilhante trajetória no United e rumou para o Queens Park Rangers. Ao todo, disputou 455 jogos pelos Red Devils.

Insucessos no English Team

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Na Seleção Inglesa, Ferdinand integrou uma geração de ouro. Ladeado por figuras da qualidade de John Terry, Sol Campbell, Ashley Cole, David Beckham, Frank Lampard, Steven Gerrard, Wayne Rooney e Michael Owen, fracassou em três Copas do Mundo (1998, 2002 e 2006 – em 2010 foi cortado em função de lesão). Todavia, também viveu bons momentos.

Tendo estreado com apenas 19 anos, em amistoso preparatório para a Copa do Mundo de 1998 contra a Suíça, Ferdinand disputou 81 jogos pelo English Team e chegou a capitaneá-lo em breves períodos, nos anos de 2008 e 2010.

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Entretanto, após a Copa do Mundo de 2010, foi perdendo espaço no elenco. Parte disso, pode-se dizer, ocorreu em função da controvérsia entre John Terry e Anton Ferdinand, seu irmão, que acusou o capitão do Chelsea de dirigir-lhe ofensas racistas. A convivência entre Terry e Ferdinand teria ficado deteriorada e, com o primeiro em melhor forma, o segundo passou a ser preterido.

Pela Seleção, marcou um total de três gols, contra a Dinamarca, na Copa de 2002, a Rússia, nas Eliminatórias da Eurocopa de 2008 e o Cazaquistão, nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010.

Doentes, confiram alguns trechos da última declaração de Ferdinand como jogador à BT Sports:

“Achei que era hora de pendurar as chuteiras e assistir outras pessoas jogarem o jogo. Depois de 18 anos como jogador profissional de futebol, sinto que é o momento certo para deixar o que amo.

Como um garoto de 12 anos, jogando futebol na Friary Estate, em Peckham, eu nunca sonhei que jogaria pelo West Ham, meu clube da infância, capitanearia o Leeds United, venceria a Champions League com o Manchester United ou que voltaria a trabalhar com meu primeiro treinador, Harry Redknapp, no Queens Park Rangers.

Sempre vou ter grande orgulho das 81 vezes que joguei pela seleção. São memórias preciosas que durarão uma vida. Gostaria de agradecer a Chris Ramsey, Harry Redknapp, David O`Leary e David Moyes, todas as estruturas e staff que cuidaram de mim ao longo dos anos e a todos os jogadores com os quais atuei.

Também gostaria de prestar homenagem à minha falecida esposa Rebecca e agradecer também aos meus pais pelos seus sacrifícios, encorajamento e conselhos durante toda a minha carreira. Finalmente, gostaria de agradecer aos torcedores de todos os clubes, pois sem eles o futebol profissional não existiria. Vou sentir falta de todos e de cada um de vocês nas minhas tardes de sábado.”

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.