Porque o Barcelona é o melhor do mundo

  • por Victor Mendes Xavier
  • 5 Anos atrás

A frase que intitula este texto, verso de Ja Som Campions, música símbolo da torcida do Barcelona, poucas vezes foi tão sincera. No estádio Olímpico de Berlim havia um novo campeão europeu: um ano depois de ver o maior rival enfim conquistar o décimo título de Champions, o Barcelona está de volta ao topo da Europa. Não obstante, o fez com louvor, como na terceira vez. Foi o título que encerrou a temporada mais vitoriosa do clube, com a segunda tríplice coroa de sua história. Dessa vez, não foi o Barça da posse de bola e do tiki-taka, mas sim o Barça da objetividade nas transições, que rompeu com o jogo de posição para encaixar de maneira quase que perfeita o trio de ataque formado por Messi, Suárez e Neymar.

A final de 2015 fez jus ao Barcelona de Luis Enrique, esse time veloz e coerente às características de seus jogadores, que viu o sistema defensivo, tão desdenhado, abafar o adversário no momento crítico, incrivelmente sólido na bola parada, e pontual nos lances-chave. Não foi a primeira vez na temporada que os blaugranas, em situações de perigo e vendo o rival crescer, aproveitou uma bola para ser mortal e jogar por água abaixo a motivação adversária. Se o Pep Team prezava por ter a pelota em seus pés para construir suas jogadas, o Lucho Team provou, mais uma vez, que velocidade é seu forte.

Já somos campeões

Foto: Site Oficial da Uefa | No mata-mata da Champions, Neymar e Suárez mostraram por que a diretoria blaugrana foi atrás deles.

Foto: Site Oficial da Uefa | No mata-mata da Champions, Neymar e Suárez mostraram por que a diretoria blaugrana foi atrás deles.

Quando o Barcelona contratou Suárez, a desconfiança soou mais forte. Primeiro, porque havia dúvidas sobre o encaixe do uruguaio à filosofia de jogo culé; segundo, pelo fato de ser uma bomba-relógio, que poderia explodir a qualquer instante. Não foi o que aconteceu. Demonstrando amplo profissionalismo, o Pistoleiro não tardou a cair nas graças da torcida. Além disso, não é exagero dizer que o atual camisa 9 é o símbolo da mudança no estilo de jogar barcelonista. Se, entre 2009 e 2012, Xavi era o tiki-taka, hoje Suárez é a agilidade, persistência e agressividade. O atacante vertical, que não deixa um zagueiro em paz, ágil e móvel, confiante no que faz e decisivo quando tem que ser.

Neymar chegou um ano antes. Tinha a fama na Espanha de cai-cai. Muitos colocavam em xeque sua capacidade futebolística na Europa. “Será que ele vai ser capaz de mostrar num futebol de elite o que produziu no Brasil?”, questionavam. O brasileiro, como sempre, calou um a um. Luis Enrique construiu um sistema que privilegiasse os dribles de Ney. Se com Tata Martino vimos um Neymar rigorosamente cumprindo funções de um típico ponta catalão, tão aberto pelo lado e jogando na “linha de lateral”, o atual tem liberdade de movimentação e aparece na área com mais frequência. Foram 39 gols na temporada, entre eles um no Real Madrid, três no Atlético de Madrid, três no Bayern de Munique, cinco no PSG e um na Juventus, para fechar com chave de ouro seu fenomenal ano. Ovacionado pelos torcedores nos festejos de comemoração de fim de 2014/2015, não há mais dúvida: aos 22 anos, Neymar está na história do Barcelona.

Foi um sonho que todos nós queríamos

Foto: Site Oficial do Barcelona | Messi dá o sinal de ok: ele é o maior jogador da história do clube catalão

Foto: Site Oficial do Barcelona | Messi dá o sinal de ok: ele é o maior jogador da história do clube catalão

Em Berlim, não foi o melhor Messi do ano. Mas isso importa? De seus pés, foram produzidos dois gols. No primeiro, de Rakitić, a bola invertida da direita para a esquerda, que tanto destroçou os sistemas defensivos espanhóis e europeus, achou Alba, passou por Neymar e Iniesta para croata concluir. No segundo, de Suárez, quando a Juventus estava melhor no jogo, o argentino arrancou como ainda não havia feito, deixou Bonucci para trás e chutou com força. Buffon espalmou nos pés do uruguaio, que estufou as redes. Também iniciou o terceiro, deixando Pogba para trás e encontrando Neymar livre.

Em 2014, Messi viveu um ano difícil. Com as condições físicas aparentemente em queda, o argentino definhou nos meses finais da campanha com Martino, quando o fracasso do Barça foi retumbante. Nada vai apagar da memória do camisa 10 aquele chute rente à trave esquerda de Neuer no Maracanã, que poderia ter decidido uma Copa do Mundo. Disposto a dar a volta por cima, Messi contratou um nutricionista e um preparador físico para recuperar a velha forma. E ele conseguiu. Não foi o Messi enérgico de anos atrás, mas sim um jogador mais plástico, experiente, com uma leitura de jogo única no futebol atual. Voltou à ponta direita e a cada vez que tocou na bola mostrou que é o “novo Xavi”: tem peso na estrutura azulgrená, é mais estético e mostrou sua versão mais completa. Messi dribla, chuta, lança, passa, marca gols e dá assistências. Lionel Andrés Messi é o maior jogador da história do clube. É o Rei de Barcelona.

Eu não posso esquecer aquele momento


Num aspecto geral, a temporada de Iniesta foi irregular. Sem Xavi ao lado e tendo que se adaptar a uma forma de jogo em que a circulação de bola não fosse tão crucial, muitas vezes vimos o espanhol mais recuado que o habitual. Porém, mostrou em Berlim por que não pode ser subestimado. Eleito o melhor em campo na final, Iniesta mostrou mais uma vez que é o homem-decisão.


A história dele com as finais começou em 2006. O jovem Andrés entrou em campo na volta do intervalo com a missão de melhorar a qualidade da troca de passes da equipe de Rijkaard. Conseguiu. De primeiro volante, potenciou o trabalho de Ronaldinho e Eto’o e permitiu a Deco ficar mais à vontade ao receber a bola. Todos sabiam que ali estava um jogador especial. Em 2009 e 2011, já protagonista, foi um terror à medular do Manchester United. Nas duas ocasiões, se associou com Xavi e Busquets de maneira divina. Se alguém merece ficar na história do futebol espanhol como autor do gol de um título de Copa do Mundo, este é Andrés Iniesta.

Mais atrás, um homem também fazia história, Gerard Piqué. Desacreditado, o zagueiro deu a volta por cima de maneira absoluta. Contra a Juve, uma atuação digna de um dos melhores defensores da década. Prova disso está nos números: Piqué cortou todas as 12 bolas levantadas à sua área. Impecável, como havia sido contra Real Madrid, PSG e Bayern de Munich. A redenção está completa.

Temos um nome e todos sabem: Barça, Barça, Baaarça!

Foto: Site Oficial do Barcelona | A vitoriosa geração barcelonista ainda deve durar bastante tempo

Foto: Site Oficial do Barcelona | A vitoriosa geração barcelonista ainda deve durar bastante tempo

Dez anos atrás, era somente uma. Agora são cinco. Antes de tudo, o Barcelona atual não é um ciclo, daqueles que acabam de maneira tão fácil e rápida. Quando sofreu 7×0 do Bayern na semifinal de 2013, muitos pensaram que era o fim. Não foi. E é por isso que os aficionados culés dormem aliviados. Porque sabem que trata-se de uma geração de vencedores. Daniel Alves, Gerard Piqué, Javier Mascherano, Sergio Busquets, Andrés Iniesta, Lionel Messi, Luis Suárez e Neymar Júnior não vão parar por aí. Quatro Champions em nove anos. Quando se trata de futebol, o jovem século XXI se veste de azul e grená.

*Em homenagem aos culés, o título e cada intertítulo deste texto são versos de Ja Som Campions, música citada no primeiro parágrafo

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.