Quando a farda verde usou a camisa amarela

  • por Lucas Sousa
  • 4 Anos atrás

Há exatos 45 anos, Carlos Alberto Torres erguia a taça Jules Rimet na Cidade do México. Na partida final, vitória tranquila do Brasil: 4 a 1 frente a Itália. Mais de 100 mil pessoas presenciaram o sucesso da seleção no estádio Azteca e quase 90 milhões comemoraram pelas ruas brasileiras a conquista do tricampeonato mundial. Nos gabinetes políticos e nos quartéis de todo país, um pequeno grupo comemorava ainda mais: os militares.

A Copa do Mundo de 1970 foi amplamente utilizada pelo regime militar (vigente no Brasil entre 1964 e 1985) como ferramenta política.

A história da Copa do México não pode ser contada ignorando os aspectos políticos vividos pelo Brasil nos anos de chumbo. O maior evento esportivo do mundo foi escolhido para difundir os ideais militares e agregar o país enquanto pessoas eram perseguidas, torturadas e mortas. A arma política utilizada pela farda verde foi a camisa amarela. Em 1970, definitivamente, o futebol não foi apenas um jogo.

;

O fiasco em 1966 e os novos comandantes

A Copa de 1966, na Inglaterra, foi a primeira após o golpe militar. Se na política o Brasil entrava em um dos piores momentos de sua história, o cenário era bem diferente no futebol. A seleção canarinho havia vencido os dois últimos mundiais (58 e 62) e viajaria à terra dos inventores do jogo certos de que trariam o tri para casa.

O ambicioso João Havelange fez de tudo para garantir que o Brasil alcançasse o tricampeonato mundial e, assim, fortalecesse sua campanha para a presidência da FIFA. O sucesso só viria a partir da Copa de 1970.

O ambicioso João Havelange fez de tudo para garantir que o Brasil alcançasse o tricampeonato mundial e, assim, fortalecesse sua campanha para a presidência da FIFA. O sucesso só viria a partir da Copa de 1970.

Naquela época, o futebol não era foco de interesse de Castello Branco, presidente do país, mas sim de João Havelange, presidente da CBD (atual CBF). Havelange queria ser presidente da FIFA (cargo que ocupou entre 1974 e 1998) e via na conquista do tri um facilitador para seu caminho. Para tanto, apostou em Vicente Feola, técnico campeão na Suécia em 58, para conduzir o escrete verde e amarelo. O resultado foi a segunda pior colocação brasileira em Copas.

Feola nunca teve, de fato, a seleção sob seu comando. Para a disputa do Mundial, convocou 44 jogadores, para depois selecionar os 22 que iriam à Inglaterra. Além disso, o treinador sofria com pressões externas, principalmente de Havelange, que queria Garrincha como titular da equipe. O camisa 7, porém, estava no fim de sua carreira e já sofria com problemas pessoais, como o consumo excessivo de álcool.

O Brasil até venceu a Bulgária na estreia (2 a 0), mas perdeu para a Hungria (3 a 1) e Portugal (3 a 1), com direito a dois gols de Eusébio, dando adeus à Copa de 66. A equipe que viajou para a Europa em busca do terceiro título voltava para a América do Sul após três jogos.

Os anos seguintes foram marcados por duas mudanças importantes na política brasileira. Em 1968, sob o comando do marechal Costa e Silva, o Ato Institucional número 5 foi promulgado. O AI-5 ficou conhecido como “golpe dentro do golpe” e foi o responsável por grande parte das censuras, mortes e torturas que aconteceram durante o regime. Começava o período mais truculento da ditadura militar, e a legitimação do governo frente à população se tornava uma necessidade.

Os discursos militares falavam em “unicidade”, “integração” e “união” para que o país pudesse crescer e se desenvolver, como um esforço conjunto para o bem de todos. Nesse sentido, também foi criado o curso de Educação Moral e Cívica, disciplina escolar obrigatória nas escolas que visava ensinar os ideais do regime para as crianças e torná-las “menos subversivas”. Mas poucas estratégias foram tão eficientes quanto a chegada de Médici ao poder.

O general Emílio Médici assumiu a presidência em 1969 e, logo no início do seu governo, tirou proveito do “milagre econômico”, período marcado pelo crescimento e pela abundância de emprego no país. Além disso, Médici tinha uma relação muito forte com o futebol. Havia jogado pelo Grêmio Bagé e, diferente de outros governantes, era um torcedor de futebol de verdade. Esses fatores (emprego disponível e identificação com o futebol) fizeram de Médici um presidente muito popular no meio dos trabalhadores, mesmo havendo diversos casos de perseguição política no seu mandato.

No campo esportivo, João Havelange sabia que um novo fracasso em Copa dificultaria sua chegada à FIFA, mas, mesmo assim, fez uma aposta ousada para comandar a seleção: João Saldanha.

O técnico derrubado pela ditadura

João Saldanha tinha pouca experiência no futebol. Foi jogador e, posteriormente, treinador do Botafogo, conquistando o Campeonato Carioca de 1957, mas há muito não vivenciava o campo e a bola. Quando foi convidado para assumir a seleção, já trabalhava nas cabines, como jornalista. Nelson Rodrigues o apelidou de “João Sem Medo”, por não ter receios de dizer aquilo que pensa e de defender o que acredita. E Saldanha acreditava na ideologia comunista. Foi membro e militante do PCB e um ferrenho opositor do regime militar.

A opção pelo jornalista no comando técnico tinha um motivo principal: diminuir as críticas à seleção. Como comentarista esportivo, Saldanha era um dos principais críticos ao fiasco em 1966 e um dos grandes nomes da imprensa futebolística do país. Ao entregar o cargo para ele, a ideia era que os companheiros de profissão fossem menos rigorosos nos comentários e, ao mesmo tempo, ver se o homem que tanto falava mal sabia fazer melhor. E sabia.

O Brasil venceu os seis jogos das eliminatórias, marcando 23 gols e sofrendo dois, e se classificou para a Copa do Mundo de 70. Em 1969, enquanto estava na Europa observando possíveis adversários da seleção, Saldanha recebeu a notícia do assassinato do amigo e guerrilheiro Carlos Marighella pelo exército. Perguntado por jornalistas locais sobre o que acontecia no Brasil, “João Sem Medo”, longe da censura militar, não poupou palavras para falar sobre perseguições, torturas e mortes no seu país. Era o estopim para sua saída do cargo.

O treinador que resgatara a moral e a imagem da seleção brasileira já não servia mais para a ditadura. Aos olhos do militares, sua missão já havia sido cumprida. O jornalista Carlos Ferreira Vilarinho, autor do livro “Quem Derrubou João Saldanha”, afirma que o então treinador era mais do que uma ameaça no comando da equipe brasileira.

“Era uma ameaça e mais: não se admitia que um militante do quilate do Saldanha voltasse com a Jules Rimet nas mãos, voltasse nos braços do povo. A vitória não poderia ser atribuída a um líder oposicionista, a uma figura inimiga do regime “nazista” que vigorava no Brasil.”

PELÉ E SALDANHA

A relação entre Pelé e Saldanha não era das mais amistosas. Quando o treinador caiu do comando da seleção, o rei do futebol não disfarçou seu contentamento.

Além disso, Saldanha não se dava bem com Pelé. O comandante dizia que o camisa 10 era míope e estava disposto a tirá-lo da equipe por conta de sua condição física.

“Para mim, Pelé não seria titular da seleção brasileira, apesar de sabermos que ele é um gênio. Pode jogar boas partidas, mas não está em boas condições físicas.”

O jogador do Santos foi o único na seleção que não se colocou ao lado do comandante após sua saída. Pelo contrário, chegou a afirmar que o técnico “nunca entendeu coisa de futebol” e que ele inventava demais na escalação.

João Saldanha deixou o cargo de treinador em 17 de março de 1970 após 17 jogos e um aproveitamento de 85%. Depois dele, somente Osvaldo Brandão, com dez jogos a mais, superou essa marca (87%). Triunfante no campo, foi vencido fora dele e trocado por Zagallo.

;

A Copa do Mundo de 1970

Três nomes estavam na lista da CBD após a saída de Saldanha: Dino Sani, Otto Glória e Zagallo. O primeiro era técnico do Corinthians, mas admitiu não ter condições psicológicas de assumir o cargo por conta da sua pouca experiência. O segundo era o treinador de Portugal em 66, que eliminou o Brasil, mas não aceitava influências externas e exigia independência da seleção. Foi descartado. Zagallo aceitou as exigências da confederação e ficou com o cargo.

ZAGALLO 1970

O Velho Lobo não convenceu no seu início de trabalho. O Brasil empatou com Paraguai e Bulgária, dentro do Morumbi, e ele foi vaiado. A delegação (com alguns militares como membros) que viajou para a América do Norte não criava grande expectativa e uma eliminação não seria vista com surpresa. Na estreia, contra a Tchecoslováquia, a seleção brasileira sofria com a pressão de representar o Brasil no momento em que o futebol era a principal arma da ditadura para se afirmar. O ministro Jarbas Passarinho afirmou que o Mundial era “uma questão nacional importante neste momento”.

Superando a pressão e a desvantagem inicial, os brasileiros venceram os tchecos por 4 a 1, gols de Rivelino, Pelé e Jairzinho, duas vezes. Após a vitória, a Folha de S. Paulo destacou que o resultado foi importante para “esvaziar boa parte dos descontentamentos a que aludíamos e deram ao presidente Médici uma colaboração valiosíssima”.

No segundo jogo, 1 a 0 Brasil contra a Inglaterra, em jogo eternizado pela defesa impossível do goleiro Gordon Banks.

A primeira fase terminou com outro resultado apertado, 3 a 2 sobre a Romênia.

Como a Copa de 70 teve apenas 16 seleções, o mata-mata já começava nas quartas. O Brasil derrotou o Peru, treinado pelo bicampeão mundial Didi, por 4 a 2 e foi disputar a semifinal contra o Uruguai, seleções que não se encontravam em Copas desde a final de 1950. A data da partida coincidiu com o dia em que 40 guerrilheiros brasileiros estavam sendo enviados para o exílio na Argélia por conta do sequestro do embaixador alemão Ehenfried Anton Theodor Ludwig Von Holleben.

AME-O OU DEIXE-O

Pelo slogan e propagandas coletivistas propaladas pelo Regime Militar, ou os brasileiros se uniam em torno de um mesmo objetivo, tal qual uma equipe de futebol, ou deveriam deixar o país.

Em uma nota oficial do Ministério do Exército (publicada na Folha como se fosse notícia), os militares trataram de colocar os “criminosos” contra a seleção de futebol. Na ótica da ditadura, enquanto os jogadores lutavam para dar alegria ao povo brasileiro em um país estrangeiro, no Brasil, “maus traidores” tentavam desagregar a nação:

“Causou profundo impacto na seleção a notícia chegada ao México sobre o sequestro do embaixador alemão. Pelé, Brito, Rivelino, Clodoaldo e outros craques lamentaram que maus traidores e criminosos venham a quebrar a tranquilidade e o entusiasmo da seleção. Lamentaram nossos craques que os terroristas, a serviço de países comunistas, tentem com atos criminosos atingir um país amigo”.

Por fim, Clodoaldo, Jairzinho e Rivelino garantiram vitória por 3 a 1 contra o carrasco de 50 e colocaram o Brasil na final. No dia do jogo decisivo, o jornal Estado de São Paulo dava o tom do clima vivido em Brasília:

“No Palácio do Planalto, não se admite a hipótese de derrota”.

https://www.youtube.com/watch?v=sXR37AEhbzQ

E o título veio após 90 minutos que confirmaram toda a supremacia brasileira e consagraram a melhor seleção de futebol da história: 4 a 1, com um dos gols mais bem trabalhados de todas as Copas, marcado por Carlos Alberto, fechando a conta.

O Brasil era tricampeão mundial e levaria, definitivamente, a taça Jules Rimet para casa.

Médici aproveitou o sucesso da campanha no México para exaltar os ideais militares. Após recepcionar os jogadores e levantar a taça, o presidente discursou:

“E identifico, na vitória conquistada na fraterna disputa esportiva, a prevalência de princípios que nós devemos amar para a própria luta em favor do desenvolvimento nacional. Identifico no sucesso de nossa seleção de futebol a vitória da unidade e da convergência de esforços (…). Mas é preciso que se diga, sobretudo, que os nossos jogadores venceram porque souberam ser uma harmoniosa equipe, em que, mais além que a genialidade individual, afirmou-se a vontade coletiva”.

MÉDICI TRIUNFANTE

A fala do general toma a seleção de futebol apenas como ponto de partida para exaltar os desejos militares. O time de futebol é colocado com um exemplo a ser seguido, já que, de acordo com o viés militar, só venceram porque se uniram em torno de uma causa. A mensagem proposta era clara: se a nação também se unir para alcançar o objetivo (ou seja, diminuir a oposição ao governo militar), conseguirá seu êxito (o desenvolvimento econômico do país).

;

O gênio que serviu o regime

MÉDICI E PELÉ

Pelé é um capítulo a parte quando se trata da ditadura no Brasil. Afinal, aquele que era a grande estrela – e se consolidaria como o maior de todos os tempos – merecia um tratamento especial por parte do governo. Em um momento de utilização do futebol como ferramenta política, ter Édson Arantes do Nascimento ao seu lado era de fundamental importância. E os militares tiveram.

Em entrevista ao UOL Esporte, em 2013, o camisa 10 diz ter boicotado a Copa do Mundo de 1974 como forma de “apoio ao país” por estar “infeliz com a situação da ditadura”. O craque afirmou que tinha totais condições técnicas e físicas para jogar em alto nível e revelou um pedido do então presidente, Ernesto Geisel.

“Pediram para eu voltar para seleção, eu não voltei. Eu já tinha me despedido do Santos, mas eu estava bem demais. Mas o Geisel (presidente da República entre 1974 e 1979), a filha dele, veio falar comigo, para eu voltar e jogar a Copa de 74. Por um único motivo não aceitei: estava infeliz com a situação da ditadura no país. Estava preocupado com o momento. Em apoio ao país, eu recusei, pois estava muito bem (físico e técnico) e poderia jogar em alto nível.

A situação, porém, já foi diferente. O jornalista Lúcio de Castro teve acesso a documentos do “Acervo Médici” que comprovam o apoio de Pelé ao governo Médici.

Depois de ser campeão no México, o jogador e sua esposa viajaram com passaportes diplomáticos até o país para a inauguração da Plaza Brasil, em Guadalajara. Representante do Brasil, Pelé também se encontrou com Luiz Echeverria, político que chegaria à presidência mexicana e teria seu governo marcado pela “Guerra Sucia”, período de repressão, tortura e morte de oposicionistas.

Em carta de cinco páginas enviada a Médici, o jogador agradece pela “honrosa missão de representar esse ilustre governo” e se diz “sumamente honrado” em representar o presidente e os “queridos irmãos brasileiros”. Poucos dias antes da viagem, Pelé também passou por um DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social, órgão responsável por reprimir movimentos contrários ao regime militar) e se prontificou a pronunciar contra o “comunismo” caso fosse necessário.

Foto: Reprodução/ESPN

Foto: Reprodução/ESPN

Sob o comando do “honrado presidente”, 98 “irmãos brasileiros” foram torturados e mortos nas delegacias de todo o país.

LEIA MAIS

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.