Sem mudar, Sport se transforma e colhe os frutos

Ainda invicto na Série A do Brasileiro, Sport mostra ao Brasil que o planejamento compensa (Foto: Divulgação/Sport/Carlos Ezequiel Vannoni).

Ainda invicto na Série A do Brasileiro, Sport mostra ao Brasil que o planejamento compensa (Foto: Divulgação/Sport/Carlos Ezequiel Vannoni).

Nas seis rodadas iniciais do Brasileirão de 2015, o grupo dos quatro melhores teve uma única constante: a presença do Sport. O clube pernambucano faz o seu melhor início de Brasileirão na era dos pontos corridos. Acumula uma invencibilidade de treze partidas na competição, somando com os sete jogos sem derrota na reta final da edição passada. Também já igualou a melhor sequência de sua história no certame, marca que já durava quarenta anos. Uma campanha calcada em alguns pilares sólidos, que já atiçou os sonhos de boa parte da torcida. E que, apesar de ter começado num momento em que poucos esperavam, não surpreende – e premia – aqueles que souberam esperar.

De repente?

Esse desempenho notável, que hoje deixa os torcedores rubro-negros em estado de euforia, pegou muitos deles de surpresa. Afinal, após um 2014 de sucesso, o Sport vivia um momento de incertezas. Não conseguiu ir nem à final da Copa do Nordeste, nem à decisão do Estadual, num ano em que parecia ter um planejamento pronto para outros feitos memoráveis.

Mais: as duas eliminações, cada uma à sua maneira, foram doídas. No Nordestão, a pancada veio de um algoz de quem o Leão é um legítimo freguês. E no Pernambucano, a eliminação foi para o Salgueiro – foi a primeira vez que um clube do interior eliminou um da capital numa semifinal. O primeiro semestre foi, enfim, para esquecer.

Na Copa do Nordeste, um algoz de sempre selou o fracasso do Sport no 1º semestre (Foto: Divulgação FPF/Marlon Costa).

Na Copa do Nordeste, um algoz de sempre selou o fracasso do Sport no 1º semestre (Foto: Divulgação FPF/Marlon Costa).

Por tudo isso, o Sport entrou no mês de maio cercado pela desconfiança. A pressão era grande sobre jogadores como Vítor, Mike, Joelinton e até Diego Souza. O técnico Eduardo Baptista, até então quase unanimidade entre a torcida pelos bons resultados de 2014, passou a ter suas opções cada vez mais questionadas.

Nesse contexto, a quatro dias da estreia na Série A, veio o primeiro ”teste” contra um rival da competição: pela Copa do Brasil, o Leão enfrentou a Chapecoense fora de casa. E em meio ao dilema de jogar o torneio a sério ou esquecê-lo e mirar a Copa Sul-Americana, viajou, atuou mal e perdeu por 2 a 0. Ou seja, se era mesmo um teste, o time parecia fadado à reprovação que viria, no fim do ano, na forma de rebaixamento.

Mas foi aí que, para o susto de alguns, o vento virou para o Rubro-negro. E ao invés de soprar como prometia – em direção à parte de baixo da tabela -, ele tem empurrado o Leão na sua melhor arrancada no atual formato do Brasileirão. O time tem feito boas partidas, voltou a mostrar suas melhores qualidades e conseguiu corrigir quase todos os problemas crônicos que vinha apresentando. Vem somando pontos importantes e se mostrando um dos candidatos à briga pelas primeiras posições.

Na estreia na Série A, o Leão mudou o rumo dos ventos e iniciou sua arrancada histórica (Foto: Marlon Costa).

Na estreia na Série A, o Leão mudou o rumo dos ventos e iniciou sua arrancada histórica (Foto: Divulgação FPF/Marlon Costa).

Pode espantar alguns o fato de que essa revolução se deu praticamente com o mesmo elenco que terminou o ano passado no clube e se reapresentou em janeiro. Mas esse é só mais um sinal do bom trabalho que vem sendo conduzido por um grupo que abraçou a causa do Sport.

Continuidade

Para essa melhora coletiva do time e individual de seus jogadores, não foi preciso nenhuma mudança drástica. Mais importante foi a calma na hora de analisar o que estava dando errado e, acima de tudo, manter aquilo que vinha se mostrando acertado. Foi por isso que a demissão de Eduardo Baptista sequer foi cogitada pela diretoria rubro-negra, apesar de ter sido pedida por parte da torcida em alguns momentos.

Resistindo à pressão, os dirigentes mantiveram sua crença no projeto que vinha sendo desenvolvido e no trabalho mostrado no dia-a-dia pelo técnico. Tiveram peito para mantê-lo. Ato raro de lucidez, num futebol tão acostumado a ver rolar as cabeças dos seus professores na primeira crise. E no caso do Sport, era a segunda.

Mesmo após a eliminação para o Salgueiro no PE, momento mais difícil de sua passagem pelo Sport, Eduardo manteve a confiança em suas convicções e teve o respaldo da diretoria (Foto: Divulgação FPF)

Mesmo após a eliminação para o Salgueiro no PE, momento mais difícil de sua passagem pelo Sport, Eduardo manteve a confiança em suas convicções e teve o respaldo da diretoria (Foto: Divulgação FPF)

Da mesma maneira, o próprio Eduardo tem parcela determinante de responsabilidade nessa virada. Porque também não hesitou em se manter fiel às suas convicções, mesmo quando os resultados não eram satisfatórios. O treinador conservou o estilo de jogo da equipe, procurou manter critérios justos na hora de escalar o time e evitou disparar contra seus jogadores, adotando quase sempre um discurso protetor. Se algum dia ele teve dúvidas sobre a qualidade do grupo à sua disposição, jamais deixou transparecer esse sentimento à imprensa. E essa segurança fez com que os atletas reforçassem, a cada partida, declaração ou comemoração de gol, que estavam fechados com ele.

Solução…

Dentro de campo, a grande mudança ocorreu na lateral direita, o setor mais “travado” do time ao longo do primeiro semestre. Afinal, Patric, o grande destaque do clube no Brasileiro de 2014, tinha saído e deixado uma lacuna imensa que Vítor, seu sucessor, simplesmente não conseguia preencher. Para resolver o problema, foi contratado Samuel Xavier, do Ceará.

Lateral rapidamente se consolidou como peça fundamental do time do Sport (Foto: Ivan Storti/Divulgação Santos FC).

Lateral rapidamente se consolidou como peça fundamental do time do Sport (Foto: Ivan Storti/Divulgação Santos FC).

Primeiro, ele chamou a atenção pela semelhança física com o atual jogador do Atlético-MG. Mas não demorou muito para que começasse a ser notado por suas atuações. Sua entrada trouxe um equilíbrio que ainda não tinha aparecido em 2015, e permitiu com que o time crescesse como um todo.

… e afirmação

Da evolução coletiva, floresceram os destaques individuais. A começar pelo próprio Samuel, que já é dono da posição. Na lateral esquerda, Renê se consolidou entre os laterais mais efetivos do país, enquanto Durval mantém a segurança – e a seriedade – de sempre. Rithely, após 200 partidas no clube, finalmente vive grande fase e parece estar atingindo seu potencial. Diego Souza, Régis e Elber (este, em recuperação até agosto de uma lesão no joelho) estão decidindo jogos e até Joelinton, que já era xingado pela parte mais impaciente da torcida, voltou a brilhar. Tanto que atraiu os olhares do Hoffenheim. Os alemães terminaram pagando quase R$ 8 milhões para tirá-lo do Sport.

Contestado pela torcida durante anos, Rithely vive o auge da carreira em 2015 (Foto: Divulgação Sport/Carlos Ezequiel Vannoni).

Contestado pela torcida durante anos, Rithely vive o auge da carreira em 2015 (Foto: Divulgação Sport/Carlos Ezequiel Vannoni).

Mescla

Outra característica que marca esse Sport é a homogeneidade de seu plantel. É um time que consegue manter o mesmo padrão de jogo independentemente das peças escolhidas para atuar nas partidas, sejam elas dentro ou fora de casa. O único jogador que parece, de fato, insubstituível é o xerife Durval.

Isso ficou claro nas vezes em que Diego Souza, o grande astro da equipe, foi bem substituído por Régis. E também a partir do momento em que Magrão, o eterno ídolo rubro-negro, machucou o ombro e deu lugar ao meia, no jogo contra o Flamengo. Pois desde que o camisa 87 deixou a baliza para Danilo Fernandes, a torcida ainda não sentiu falta do maior goleiro da história do clube.

Régis demorou a engrenar, mas tem feito boas partidas quando substitui Diego Souza (Foto: Divulgação FPF/ Marlon Costa)

Régis demorou a engrenar, mas tem feito boas partidas quando substitui Diego Souza (Foto: Divulgação FPF/ Marlon Costa)

Todos os outros titulares têm reservas que entram e alteram pouco o funcionamento do time. Mais um ponto para Eduardo Baptista. Sempre fiel às suas convicções, ele provou estar montando – atenção: desde fevereiro de 2014 – um elenco equilibrado, técnica e financeiramente. Melhor: dando às categorias de base um espaço inédito na história recente rubro-negra.

Este é, sem dúvida, o grande legado do treinador ao clube. Afinal, ele usa as costas largas de medalhões como Magrão, Durval, Wendel e Diego Souza para construir o cenário ideal para a explosão de jovens como Renê, Neto Moura, Joelinton… e outros que ainda virão.

Equilíbrio

A melhora rubro-negra também passa, evidentemente, por uma mudança no perfil dos seus adversários. Na esfera regional, o Leão era a grande força. Por isso, enfrentou adversários recuados durante todo o primeiro semestre. Mas Eduardo sabia que essa rotina não duraria até o fim do ano.

Sport varia entre quatro esquemas táticos com a naturalidade que só um trabalho bem consolidado é capaz de dar

Conforme prometido, Sport varia entre quatro esquemas táticos com a naturalidade que só um trabalho bem consolidado é capaz de dar

No dia 2 de maio, após a conquista do flamejante 3º lugar no Pernambucano, o ambiente era pesado. Mas o técnico se mostrava tranquilo. Estava certo de que o trabalho daria frutos. “O Sport teve uma certa dificuldade. As equipes vinham muito fechadas. Encontramos um pouco essa dificuldade em propor o jogo. Agora, as equipes jogam mais. Marcam e deixam jogar, se assemelham mais à nossa equipe”, disse então.

Nessa mesma entrevista coletiva, Eduardo foi perguntado sobre o que queria ver no time durante o Brasileiro. “O torcedor pode esperar um time de muita luta, que vai resgatar aquela intensidade de 2014. Um time aguerrido, veloz. Organizado defensivamente e também jogando ofensivamente, com velocidade e saída rápida. É isso que a gente vai fazer no Brasileiro”, prometeu.

Na época, o discurso não correspondia ao futebol que a equipe vinha apresentando. Mas quando lida após esse início arrasador de campeonato, essa resposta mostra que o técnico conseguiu implementar seus conceitos com êxito. Para isso, precisou de tempo e de respaldo da diretoria. Além, é claro, de um grupo que não deixa dúvidas: está jogando por ele e por um clube que teve paciência para esperar o tempo de colher.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.