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Sobre Dunga, racismo, homofobia e futebol

  • por Doentes por Futebol
  • 4 Anos atrás
Técnico provocou choque  ao dar declaração racista em coletiva de imprensa da Copa América (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Técnico provocou choque ao dar declaração racista em coletiva de imprensa da Copa América (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Por Roberto Dantas

26 de junho de 2015, para todos os efeitos, foi um dia alegre para os defensores dos Direitos Humanos e da igualdade mundo afora. Em decisão memorável, a Suprema Corte dos Estados Unidos aprovou o casamento gay e lésbico nos 50 estados do país ianque.

Entretanto, um dia feliz para quem luta contra o homofobia ganhou tons menos alegres para quem combate o racismo. O técnico da seleção brasileira, Dunga, conhecido por suas declarações fortes, passou (e muito) dos limites do aceitável ao afirmar:

“eu até acho que eu sou afrodescendente de tanto que apanhei e gosto de apanhar.”



A declaração racista do comandante do escrete canarinho tem uma curiosa preocupação em estar dentro do “politicamente correto”, utilizando o termo “afrodescendente”. Dunga, meu caro, não adianta usar novos termos e manter preconceitos seculares.

Ironicamente, a estrondosa vitória dos LGBTs retirou muito da repercussão que os dizeres de Dunga teriam em dias “normais”. Isso serve para lembrar que a luta por uma sociedade mais igualitária atua em várias frentes, e está sempre em curso. Sempre.

A Carlos Caetano Bledorn Verri, resta apenas ter o mínimo de dignidade para se retratar da tremenda idiotice que falou. À sociedade, o repúdio ao comentário em todas as esferas é o melhor remédio. Isso não pode ser tolerado.

Evidentemente, este é um texto político. Como é um texto político para um site de futebol, arriscarei um breve comentário sobre o esporte bretão em si. Uma eventual saída de Dunga da CBF por conta da declaração racista provaria que ditados são ditados por uma razão de ser, produtos de uma sapiência popular de muitos anos. No caso em questão, cairia como uma luva, caso a demissão se confirmasse, a velha máxima de que “há males que vem para o bem”.

Horas depois da gafe de Dunga, a CBF emitiu uma nota de esclarecimento sobre a declaração do seu treinador. Com quase a mesma felicidade das palavras anteriores, Dunga afirmou (supondo, é claro, que foi mesmo ele o autor da nota):

“Quero me desculpar com todos que possam se sentir ofendidos com a minha declaração sobre os afrodescendentes. A maneira como me expressei não reflete os meus sentimentos e opiniões.”

Torcidas como a Palmeiras Livre já levaram para dentro dos estádios a questão da homofobia e do preconceito de gênero. Na foto, representantes recebem o 14º Prêmio  Cidadão em Respeito à Diversidade. (Reprodução/Facebook)

Torcidas como a Palmeiras Livre já levaram para dentro dos estádios a questão da homofobia e do preconceito de gênero. Na foto, representantes recebem o 14º Prêmio Cidadão em Respeito à Diversidade. (Reprodução/Facebook)


Tais palavras ocas me fizeram refletir, sinceramente, sobre o mundo em que o futebol está inserido. Nesta mesma sexta-feira, o Doentes por Futebol, em apoio à causa LGBT, seguiu a moda do arco-íris que se instalou no Facebook. O site foi criticado duramente, com a grande maioria dos comentários (até desnecessário dizer) trazendo cunho homofóbico. O mesmo aconteceu na nova foto de perfil do New York City FC, time americano.

Agora, vemos uma declaração profundamente racista ser “esclarecida” por uma nota que poderia sinceramente vir de qualquer aplicativo fornecedor de respostas prontas. Não é de respostas prontas que precisamos. Precisamos é de ações afirmativas que se posicionem no caminho de uma sociedade mais igualitária. A CBF e Dunga, entidade máxima do futebol brasileiro e pessoa pública, respectivamente, claramente não se mostram muito preocupados com isso.

Este texto não vai ser bem visto por estar num site de futebol. Reclamarão, de certo. Assim como nas fotos coloridas das fanpages. Mas a política está em tudo. E se abster de opinar já é, por si só, se posicionar politicamente. O futebol não tem o direito de simplesmente ignorar a evolução da sociedade em nome de um purismo que só esconde a vontade de se manter um ambiente livre para preconceitos.

Está na hora de discutir política no futebol. Está na hora de discutir machismo no futebol. Está na hora de discutir homofobia no futebol.

Aliás, passou da hora.

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