Sobrou vontade. Faltou futebol

Thiago Silva dedica seu gol a Neymar || Créditos: Rafael Ribeiro / CBF

Thiago Silva dedica seu gol a Neymar || Créditos: Rafael Ribeiro / CBF

Horas antes da partida em que a Seleção Brasileira bateu a Venezuela por 2 a 1, Lédio Carmona, comentarista do canal SporTV, falou sobre a obrigação de vitória diante do selecionado viñotinto como uma demonstração de respeito à camisa “tão pisada nos últimos meses”. Naquele momento, de certo modo, o jornalista estava condicionando o triunfo à vontade dos jogadores brasileiros. Respeitosamente discordo dessa visão. O futebol já provou sobejamente que vontade é um componente importante, mas está longe de ser o aspecto mais relevante do jogo.

Como se trata de um esporte coletivo, arrisco dizer que o aspecto mais importante é a organização. Para ser considerada eficiente, uma equipe precisa se defender bem, armar suas jogadas com inteligência e ser contundente no ataque. Por consequência, intensidade e compactação se tornaram palavras de ordem quando se pensa em modernidade no futebol. E, embora a Seleção de Dunga seja compacta e intensa sem a bola, com ela nos pés a história é outra. Obviamente, a melhoria na fase ofensiva depende do entrosamento do novo time. Todavia, também cabe discutir as escolhas do treinador.

Desde os tempos de Felipão, a transição defesa/meio-campo tem sido um tormento para a Seleção. A bola circula de uma lateral a outra sem que os volantes assumam sua função de armar as jogadas. Por diversas vezes, o meia Willian precisou recuar para receber dos pés dos zagueiros que iniciar as manobras de armação enquanto Fernandinho permanecia preso à frente dos defensores e Elias se entregava à marcação. Do banco, Casemiro, um dos melhores passadores do grupo convocado para a Copa América, assistia a tudo sem receber uma oportunidade do técnico.

Firmino comemora o segundo gol da Seleção contra a Venezuela || Créditos: Rafael Ribeiro / CBF

Firmino comemora o segundo gol da Seleção contra a Venezuela || Créditos: Rafael Ribeiro / CBF

O grande ponto de inflexão da partida se deu após o gol de Roberto Firmino. O confortável placar de 2 a 0 propiciou a Dunga a possibilidade de colocar em campo o volante recém-incorporado ao Real Madrid e tentar ficar mais com a bola. Porém, o caminho escolhido foi colocar David Luiz no meio-campo pensando em vencer mais duelos aéreos e, quem sabe, especular lançamentos. Instantes depois, a entrada de Marquinhos no lugar de Robinho deu a certeza de que o treinador estava muito mais preocupado em defender o placar do que construir uma vitória mais contundente. Não por acaso, a Venezuela descontou após o rebote de uma cobrança de falta cometida pelo mesmo Marquinhos e o Brasil tomou um esperado sufoco nos minutos finais.

E assim, o torcedor brasileiro experimentou a sensação de ver sua seleção escalando quatro zagueiros para se defender da Venezuela. Mesmo que Marquinhos tenha ido para a lateral-direita e David Luiz para o meio, as alterações simbolizaram a maneira como Dunga enxerga o futebol. Embora o técnico tenha dito que acompanhou de perto a Copa do Mundo, restou a dúvida se observou a campeã Alemanha e seus volantes construtores. Neste ponto, e apenas neste, poderíamos seguir a linha de Lédio Carmona e dizer que se sobrou vontade durante os 90 minutos, faltou outro elemento abstrato tão importante quanto: Coragem.

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Fanático por futebol em nível não recomendável. Co-autor do livro “É Tetra! - A conquista que ajudou a mudar o Brasil”.