Uma emersão em meio ao caos

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Foto: CBF – Contratado às pressas, Micale foi bem em seu início

É incontroverso o fato de que a Confederação Brasileira de Futebol tem trabalhado com uma escrita errada por linhas tortas que não leva o futebol brasileiro a lugar algum, senão à sua própria cova. Não mais nos escandalizamos com nada que vem da entidade maior do futebol tupiniquim. Apesar disso, em meio ao caos, a instituição mostrou um planejamento para o futebol de base no início de 2013, com a contratação de Alexandre Gallo e criou uma ponta de esperança nos endurecidos corações do torcedor brasileiro. Finalmente, parecia que o Brasil se preocuparia em trabalhar a fundação, a base, o alicerce para um futuro de vitórias.

Se o escolhido para desempenhar o papel foi um nome discutível, a proposta apresentada foi convincente e muito dela se revelou em duas medidas: Gallo, o coordenador técnico das categorias de base, havia sido escolhido para conduzir o país nas Olimpíadas de 2016, na busca pelo inédito ouro olímpico. Também teria a dura tarefa de viajar além-fronteiras, buscando evitar que o país perdesse jovens talentos para outras nações, o que gerou ótimos frutos, como são os casos de Rafinha Alcântara e Andreas Pereira, que optaram, definitivamente, pela Canarinho.

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Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Foto: Rafael Ribeiro/CBF – Projeto de Gallo foi abandonado

No entanto, essa tola esperança desvaneceu com a surpreendente e obscuramente explicada demissão do comandante, após convocar o selecionado que disputaria o Campeonato Mundial da categoria Sub-20. O porquê da direção da CBF ter aguardado o treinador fazer sua convocação para demiti-lo é o menor dos questionamentos. Mais uma vez, caímos no problema originário: o imediatismo. Independente do trabalho que Gallo estava desempenhando. Ainda era prematuro tirar conclusões, a despeito de seus dois anos à frente da base brasileira. Uma fala de José Maria Marín em fevereiro deste ano deu a tônica do problema, da incoerência que rege o futebol nacional:

“Nós não gostamos do desempenho da seleção em Montevidéu. Futebol é coletivo. Houve muito individualismo e pouco coletivo. Vamos ter uma reunião com o Gallo. Vamos dar uma oportunidade para ele esclarecer esse desempenho. Mas o que garante técnico é o resultado”, disse Marin, conforme veiculou o UOL.

Foto: Rafael Ribeiro/CBF - Falas de Marin dão a tônica da incoerência da CBF

Foto: Rafael Ribeiro/CBF – Falas de Marin dão a tônica da incoerência da CBF

Nas categorias de base, o que garante a permanência de um treinador são exclusivamente os resultados? É evidente que estes são importantes, mas não podem ser o cerne da questão, a pedra angular de um trabalho com garotos. Além disso, seguindo os dizeres de Marin, a Confederação deveria demitir Dunga do comando técnico da equipe principal, uma vez que a seleção brasileira é, mormente, a individualidade de Neymar e a ausência do jogo coletivo.

No meio disso tudo – polêmicas abafadas na imprensa quanto à convocação do jovem Matheus Biteco, lesionado há tempos, e outra com o promissor Gerson, do Fluminense – a batata quente caiu no colo de Rogério Micale, ex-treinador de base do Atlético Mineiro e do Figueirense, onde fez trabalhos sólidos. E, em meio ao caos, a equipe emergiu sob o novo comando.

Foto: Rafael Ribeiro/CBF - Convocação de Guilherme Biteco foi tema de controvérsia

Foto: Rafael Ribeiro/CBF – Convocação de Matheus Biteco foi tema de controvérsia

Mesmo sem ter tido condições de convocar seus próprios nomes, o treinador conseguiu organizar com incrível rapidez a equipe. Fez ótimo papel no Mundial Sub-20 recém-findo, sendo vice-campeã e lutando até o final pela conquista (sofrendo o gol da derrota dois minutos antes do final da prorrogação).

Além do bom nível de exibições, Micale conseguiu fazer as individualidades de alguns jogadores aparecerem. Assim, nomes como Gabriel Jesus, Judivan – que infelizmente lesionou-se com gravidade durante a competição –, Andreas Pereira, Marcos Guilherme e Danilo (eleito o segundo melhor jogador da competição) se apresentaram para os holofotes. A vitória maiúscula contra a seleção senegalesa (5×0, na semifinal) mostrou o grande potencial da geração brasileira e foi o melhor momento tupiniquim na competição.

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Foto: Bruno Cantini/CAM - Jemerson é um dos frutos do trabalho de Micale no Atlético Mineiro

Foto: Bruno Cantini/CAM – Jemerson é um dos frutos do trabalho de Micale no Atlético Mineiro

Micale teve tempo de trabalhar na base do Atlético e assim apareceram Bernard, João Pedro, Filipe Soutto, Carlos, Jemerson, Dodô, Lucas Cândido e Eduardo, integrando, com qualidades, o elenco alvinegro. No Figueira, onde conquistou a Copa São Paulo de Futebol Jr. de 2008, também fez respeitável trabalho e por essas razões, recebeu a tarefa junto à seleção brasileira e merece ter tempo para trabalhar.

Por mais que tenha sido uma decisão tomada às pressas e, provavelmente, feita sem a devida reflexão, a contratação de Rogério Micale foi uma boa tacada da CBF. A questão que se impõe agora é a paciência que a entidade terá para permitir o desenvolvimento de um trabalho de verdade, a longo prazo, que possa, por fim, render bons frutos. Se não temos nomes indiscutivelmente acima da média, como Neymar em 2011, ainda há bons valores que valem o investimento e a paciência.

Foto: FIFA/Getty Images: Seleção Brasileira fez bom papel no Mundial Sub-20

Foto: FIFA/Getty Images: Seleção Brasileira fez bom papel no Mundial Sub-20

Em meio ao caos que a CBF representa, sob a direção de Rogério Micale, a seleção brasileira sub-20 fez um papel respeitável e condizente com a sua história. Após o torneio, fica a expectativa e a torcida para que possa ser desenvolvido um trabalho bem estruturado e planejado, para que colhamos frutos em um futuro não tão distante. Na base, os resultados são importantes (e espera-se que a cúpula da Confederação esteja satisfeita), mas não são o que sustenta-na. Por outro lado, o desenvolvimento de uma melhor estrutura o é, uma vez que estimula o bom trabalho nos clubes e projeta um futuro bem-sucedido na seleção principal.

Foto: FIFA/Getty Images - Com bons trabalhos, Micale precisará de continuidade para fazer boa gestão

Foto: FIFA/Getty Images – Com bons trabalhos no currículo, Micale precisará de continuidade para fazer boa gestão

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho), 25 anos. Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no O Futebólogo e na Revista Relvado.