10 craques sul-americanos órfãos de Libertadores

  • por Lucas Sartorelli
  • 5 Anos atrás

Na noite de 22 de junho de 2011, o juiz apitava o final de Santos 2×1 Peñarol e oficializava não apenas o terceiro título de Copa Libertadores para o alvinegro praiano. Naquele dia especial, era também a maior conquista da América na carreira de todos os jogadores que vestiam branco no estádio do Pacaembu. Entre eles, Neymar, que com 19 anos e toda a responsabilidade da camisa 10, repetia o feito de Pelé de 1962 e 1963, há mais de 45 anos à época.

Foto: Pelé/página oficial

Foto: Pelé/página oficial

O menino, grande destaque do torneio, se tornaria uma das estrelas mundiais atuando por Barcelona e seleção brasileira. Enfrentou todos os obstáculos e usufruiu das belezas que só o torneio símbolo do futebol da América do Sul pode proporcionar, com as maiores rivalidade entre clubes do continente. Dentro de campo, visibilidade, mas também luta, garra e talento se sobrepondo ao padrão tático. Discussões, pressão e catimba, equipes de baixíssimo nível e altitude, premiações modestas, infrações disciplinares que às vezes ultrapassam os limites e escudos policiais fazendo a proteção dos jogadores em escanteios. Sangue, suor e lágrimas. Toda a tarimba que um jogador precisa para atuar em outras praças. Fora de campo, públicos apaixonados e suas festas inigualáveis com faixas, bandeiras, papéis e luzes, grande diversidade de culturas, grades separando o torcedor do campo, brigas entre torcidas. Em geral, um espetáculo fora do padrão de “modernidade” atual, de uma autenticidade clássica e única, ainda que discutível.

Foto: mundoriver.com

Foto: mundoriver.com

Neymar e Pelé enfrentaram a Copa Libertadores e saíram vencedores. Notáveis como Zico, Riquelme e Tevez, também. Porém, há gigantes que ficaram pelo caminho ou que sequer a disputaram.

Conheça 10 craques nascidos na América do Sul que, por diversas causas e razões, não têm ou muito provavelmente não terão a Copa Libertadores em seus vencedores currículos.

Maradona

Maradona apareceu para o mundo do futebol em 1976 com apenas 15 anos, quando fez seu primeiro jogo como profissional pelo Argentinos Juniors, depois de passar pelas categorias de base do clube de Buenos Aires. Entretanto, foi a partir de 1978 que, mais maduro, mostrou todo o seu enorme potencial. Sagrou-se duas vezes artilheiro do Campeonato Metropolitano (que, na época, valia tanto quanto o campeonato nacional) e uma vez do Campeonato Argentino. Em 1979, aos 17 anos, foi eleito o melhor jogador sul-americano. A dose repetiu-se em 1980: Maradona foi artilheiro dos dois campeonatos e eleito outra vez o melhor jogador do continente, com o adicional de ter levado o Argentinos Juniors ao vice-campeonato nacional, melhor resultado do clube até então.

marado

Foto: Reprodução

Em 1981, já muito assediado por clubes nacionais e internacionais, se transferiu para o Boca Juniors, seu time de coração. Na primeira temporada, jogou 40 partidas e marcou 28 gols; foi o comandante do time na conquista do Metropolitano de 1981. No ano seguinte, se transferiu para o Barcelona, desfalcando o clube na Taça Libertadores, título que o clube já havia conquistado em 1977 e 1978. Depois de uma trajetória vencedora, aliada a escândalos na Europa, El Pibe voltaria a jogar no futebol argentino entre 1993 e 1997, voltando ao Boca Juniors após uma rápida passagem pelo Newell’s Old Boys. No entanto, apesar de mostrar um futebol convincente, não conquistou nenhum título, dando adeus a qualquer chance de entrar em campo por uma partida de Copa Libertadores na carreira.

Roberto Carlos

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Foto: Reprodução

Considerado um dos melhores laterais de todos os tempos, Roberto Carlos disputou a Libertadores por Palmeiras e Corinthians, e o máximo que conseguiu foi chegar às quartas de final pelo alviverde, em 1995. Na ocasião, foi eliminado pelo Grêmio em dois jogos emocionantes. Após levar uma goleada de 5×0 no estádio Olímpico, o Palmeiras venceu o jogo da volta por 5×1, sendo eliminado pelo saldo negativo de 1 gol. Em 2009, foi anunciado como reforço de peso do Corinthians. Uma precoce eliminação na primeira fase da Libertadores, para o modesto Tolima em 2011, forçou sua saída do clube, alegando ter sido ameaçado por torcedores. Encerrou a carreira pouco tempo depois.

Ivan Zamorano

Foto: larojaoficial.cl

Foto: larojaoficial.cl

Em 1988, antes de chegar ao St. Gallen, da Suíça, “Bam-Bam” Zamorano atuou nos pequenos chilenos Cobresal e o Trasandino. Neles, teve grande destaque com artilharias e títulos de Copas do Chile. No entanto, foi apenas no final da carreira, após ter feito seu nome no mundo do futebol, que o chileno teve a chance de disputar uma Libertadores, e ela ocorreu pelo América-MEX, em 2001. Apesar de não ter saído com o título, o artilheiro marcou 5 gols em 3 jogos.

Teófilo Cubillas

Foto: pasionlibertadores.com

Foto: pasionlibertadores.com

Campeão peruano, artilheiro, melhor jogador da América do Sul, ídolo em Portugal, destaque em Copa do Mundo, eleito melhor peruano da história e um dos melhores de todos os tempos. Só faltou o troféu da Libertadores. Atuando pelo Alianza Lima, única camisa que defendeu na América do Sul, Cubillas teve duas passagens de grande destaque no clube. Disputou algumas edições do principal torneio continental da América, entre as décadas de 60 e 70, e foi um dos artilheiros em 1972.

Carlos Gamarra

Foto: canaleinter.it

Foto: canaleinter.it

Mesmo atuando boa parte da carreira em clubes da América do Sul e disputando algumas edições da Libertadores, Gamarra nunca teve a oportunidade de se sagrar campeão sul-americano. Eleito o melhor zagueiro da Copa do Mundo de 1998, o paraguaio colecionou ainda diversos títulos nacionais por onde passou: do Campeonato Paraguaio, com o Cerro Porteño, onde foi revelado, à Copa da Itália, com a Internazionale-ITA, já no final da carreira.

Gabriel Batistuta

Foto: bocajuniors.com.ar

Foto: bocajuniors.com.ar

Maior goleador da história da seleção argentina com 56 gols em 78 jogos, Batistuta passou por três clubes argentinos antes de seguir carreira na Europa. Sua melhor campanha em Libertadores foi com o Boca Juniors, em 1991. A primeira fase prometia, com os grandes rivais Boca e River no mesmo grupo. Batigol se destacou marcando os dois gols da vitória por 2×0, em La Bombonera, após o Boca ter conseguido vencer por 4×3, no Monumental. O clube xeneize ainda passou por Corinthians e Flamengo no mata-mata, mas o sonho do título continental parou nas semifinais, contra o futuro campeão Colo Colo-CHI.

Ronaldo

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

Como muitos dos craques citados, Ronaldo teve a chance de jogar a Libertadores no início e fim da carreira. No caso do Fenômeno, duas marcas foram deixadas: uma positiva, antes da vitoriosa passagem pela Europa, e uma negativa, após o retorno ao Brasil. Revelado pelo Cruzeiro em 1993, o jogador disputou a Libertadores no ano seguinte, e embora o clube mineiro tenha sido eliminado nas quartas-de-final pelo surpreendente Unión Española-CHI, Ronaldo saiu da competição com prestígio.

Na vitória por 2×1 contra o poderoso Boca Juniors, pela fase de grupos, o franzino atacante de 17 anos pegou a bola perto do meio de campo, driblou toda a defesa argentina e tirou do goleiro, mostrando ali uma combinação letal de arranque e habilidade que futuramente lhe renderia três prêmios de melhor do mundo. Como nem tudo são flores, Ronaldo, assim como Roberto Carlos, esteve na traumática eliminação do Corinthians para o Tolima, em 2011, fato que acelerou sua decisão de pendurar as chuteiras.

Alvaro Recoba

Foto: elnacional.com.uy

Foto: elnacional.com.uy

Considerado um ícone do futebol uruguaio, Recoba atuou por cinco anos em seu país antes de embarcar para a Internazionale-ITA. Em 1997, estreou na Libertadores, anotou um gol na vitória contra o Peñarol na fase de grupos, mas foi eliminado nas oitavas-de-final pelo Colo Colo-CHI. De volta ao Nacional, teve sua melhor participação na edição de 2013, onde mais uma vez foi até as oitavas-de-final. Foi eliminado nos pênaltis pelo Real Garcilaço-PER.

Carlos Valderrama

Símbolo de uma grande geração do futebol da Colômbia, Valderrama esteve em algumas Libertadores, todas por clubes de seu país. Revelado em 1981 pelo inexpressivo Unión Magdalena, o folclórico e carismático camisa 10 colombiano só fez sua estreia no maior torneio sul-americano em 1986, um ano depois de chegar ao Deportivo Cali. No entanto, os resultados não foram os esperados.

Foto: deportivocali.co

Foto: deportivocali.co

Além de duas campanhas discretas (em 1986 e 1987), o jogador ainda viu o América, também de Cali e maior rival, chegar às finais das duas edições. De volta ao país de origem em 1993, foi o capitão que conduziu o Júnior de Barranquila ao título colombiano daquele ano, garantindo vaga na Libertadores de 1994 – chance de enfim se consagrar no torneio. Com uma ótima campanha, o Júnior foi até as semifinais da competição, mas, enfraquecido pelo fato de Valderrama atuar lesionado, foi derrotado pelo Velez Sarsfield nos pênaltis. O clube argentino seria o futuro campeão daquele ano.

Romário

Foto: RomarioOnze/Acervo

Foto: RomarioOnze/Acervo

O Baixinho, autor de mais de mil gols (segundo sua contagem) e campeão do mundo com o Brasil em 1994, possui inúmeros troféus em seu currículo. Mas lhe faltou o da Libertadores. Apesar de ter atuado boa parte de sua carreira no Brasil, Romário não conquistou o cobiçado troféu muito em questão da maioria dos clubes por onde passou, que não disputaram o torneio. Romário jogou oficialmente apenas a edição de 2001, quando atuava pelo Vasco. Autor de 4 gols na competição, o “gênio da grande área” chegou até as oitavas-de-final e não pôde jogar os confrontos decisivos das quartas, contra o Boca Juniors, devido a uma lesão. Desfalcado de seu maior artilheiro, o cruzmaltino viu suas chances de seguir em frente irem embora, ao perder as duas partidas e ser eliminado.

Lionel Messi

La Pulga demonstrou afinidade com a bola desde cedo. Com sete anos, atuava nas categorias de base do clube do coração, o Newell’s Old Boys. Alguns anos depois, entre problemas de crescimento e recusas financeiras de seu clube para o custeio do tratamento, a família do futuro prodígio resolveu viajar até a Espanha e o garoto chegou ao Barcelona. Após um processo médico intensivo que o fez crescer trinta centímetros em trinta meses, a promessa logo brilharia nas categorias de base do time catalão.

Foto: instagram.com/leomessi

Foto: instagram.com/leomessi

Em 2003, foi promovido ao time principal, iniciando uma trajetória extraordinária. Sobre Libertadores, não há muito sobre o que falar a respeito do maior jogador surgido nos últimos anos. Mas é claro que ele não poderia ficar de fora de uma lista de craques sul-americanos. Recentemente postou em uma rede social uma foto com seu filho vestindo uma camisa do Newells, provando que não esqueceu do clube da juventude. Resta assim, a esperança de Messi, um dia, resolver terminar a carreira onde iniciou os primeiros chutes. Quem sabe não experimenta o sabor inédito de entrar em campo por uma Libertadores da América?

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Paulistano, projeto de jornalista e absolutamente ligado a tudo o que envolve essa arte chamada futebol, desde a elegante final de uma Copa do Mundo às peculiaridades alternativas das divisões mais obscuras de nosso amado esporte bretão. Frequentador assíduo nas melhores (e piores) várzeas e peladas de fim de semana, sempre à disposição para atuar em qualquer posição.