A CBF também não sabe para que serve um Pan

Em pé: Luciano, Tinga, Luan, Eurico, Bressan e Andrey; agachados: Dodô, Euller, Rômulo, Barreto e Clayton. Quais desses você conhece? (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Em pé: Luciano, Tinga, Luan, Eurico, Bressan e Andrey; agachados: Dodô, Euller, Rômulo, Barreto e Clayton. Quem desses você conhece? (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

No mesmo dia em que um debate sobre a real importância dos Jogos Pan-Americanos se alastrava pelas redes sociais, a Seleção Brasileira foi eliminada do torneio de futebol da competição após sofrer uma virada-relâmpago. Com um jogador a mais desde os 10 minutos, Vencia o Uruguai até os 37 do 2º tempo. Aí, o meia Dodô, do Atlético-MG, foi expulso. E em igualdade numérica, a Celeste marcou os dois gols de que precisava para ir à final. Esse fim de jogo dramático acontecia mas, na web, o que repercutia muito mais era a questão: para que serve um Pan?

Antes de mais nada, é preciso situar o torcedor mais desatento (provavelmente, este nem ficou sabendo do torneio…). A pergunta foi título de uma matéria na revista de maior circulação no país. Um questionamento que só tem algum grau de pertinência porque muitos países não mandam à competição seus atletas de elite. O que, evidentemente, não apaga o suor, as lágrimas e sobretudo as medalhas de quem vai a um Pan e faz história. É, portanto, indiscutível: tentar diminuir os Jogos com manchetes sensacionalistas é desrespeitar cada um dos que representaram o Brasil em Toronto ou em qualquer outra edição do evento.

Lucas Piazon, grande nome da Seleção no torneio, contra o Panamá (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Lucas Piazon, grande nome da Seleção no torneio, contra o Panamá (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Além do mais, é curioso notar que essa pergunta jamais tenha sido feita pelo tal veículo no longo período em que os direitos de transmissão do Pan-Americano pertenciam à emissora mais assistida pelos brasileiros. Tira um pouco da credibilidade da indagação e deixa a impressão de que a crítica nasceu puramente do ressentimento de um parceiro comercial e de uma vulnerabilidade circunstancial do evento, agora nas mãos de um inimigo político (que contra-atacou), perante patrocinadores. Fica parecendo que o real propósito não é discutir efetivamente a relevância do evento, e sim apenas rebaixar um produto comercial que a tal emissora não pode mais vender.

Até por isso, o futebol do Pan, assim como todas as outras modalidades disputadas nos Jogos, vêm sendo eclipsados por outros temas nos noticiários mais assistidos do país. Sem os direitos de transmissão, ela não pôde mostrar mais do que imagens rápidas. Assim, (mais) esse vexame olímpico da Seleção Brasileira deve passar quase desapercebido. O que é uma pena, pois se trata de (mais) uma grande oportunidade para discutir o papel que a CBF vem reservando ao grande patrimônio nacional de que dispõe.

Bressan, contra o Uruguai: jogo pesado (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Bressan, contra o Uruguai: jogo pesado (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

A lista dos 18 jogadores brasileiros convocados para o torneio mereceu contestações de todos os tipos. Aparentemente, ela não teve qualquer critério que padronizasse de alguma maneira as escolhas. Teve nomes pouco conhecidos como o goleiro Andrey, do Botafogo-SP – titular em todos os jogos -, os laterais Tinga, do Fortaleza e Vinícius Ribeiro, do Perugia, entre outros. Teve a presença surpreendente de jogadores que vêm em péssima forma em seus clubes – basta perguntar a qualquer flamenguista sobre o zagueiro Bressan. E teve até atletas com pouca ou nenhuma história em seleções de base, como o volante Rômulo e o atacante Luciano, do Corinthians, que terminou sendo um dos destaques do time. Sem fazer juízo de valor de cada um deles, o grupo que representou o futebol brasileiro em Toronto foi bem alternativo, para dizer o mínimo.

A campanha até começou com duas goleadas: 4 a 1 sobre os donos da casa na estreia, e 4 a 0 sobre o Peru no segundo jogo. Parecia que o Brasil seria capaz de carregar o favoritismo que, naturalmente, era seu. Mas no jogo de fechamento da fase de grupos, veio o primeiro fiasco: vencendo a possante seleção Panamá por 3 a 0, permitiu o empate, com direito a uma falha grotesca de Andrey. E na primeira partida dos mata-matas, o torcedor brasileiro (que acompanhou o torneio) acordou para a sua rotina recente (ou nem tanto…) de vergonhas. Aconteceu o ‘Torontazo’.

Enfrentando o Uruguai com um a mais durante 70 minutos, tudo que a Seleção conseguiu fazer foi um gol em um rebote de uma cobrança de pênalti. Quando os dois times ficaram com 10 em campo, os uruguaios simplesmente tomaram a vitória de volta, com dois gols em pouco mais de um minuto. Com sua obstinação característica, expuseram toda a fragilidade – técnica e emocional – de um time claramente sem lastro para representar uma história tão gloriosa. A fibra mostrada pelo time celeste foi tanta que o meia Albarracín contou ter percebido um certo “medo” entre os brasileiros.

Mas de quem é a culpa? Como exigir um desempenho de qualidade de uma Seleção fraca tecnicamente e sem qualquer empatia perante o torcedor? O que esperar de um grupo selecionado com base em critérios para lá de discutíveis? Em que pese a dificuldade em se estabelecer uma lista de atletas dentro de um limite etário incomum, a CBF não parece ter entendido bem a finalidade do Pan. Um torneio que hoje tem sua importância discutida, mas que ajudou diretamente na formação da geração campeã mundial em 94. Afinal, a medalha conquistada em 87, em Indianápolis, Estados Unidos – a última de ouro do Brasil no evento – foi fundamental para a formação de nomes como Taffarel, Ricardo Rocha, Ricardo Gomes, Raí, Evair e Bebeto, entre outros.

Se a ideia da entidade era encarar o torneio como uma oportunidade de amadurecer jovens valores, ela errou por não ter levado ao Canadá o que tinha de melhor na sua safra 93. Se o pensamento era não desfalcar os clubes nacionais em meio ao Brasileirão, poderia ter mantido parte do grupo que disputou o Mundial sub-20 na Nova Zelândia, substituindo pontualmente os jogadores que não pudessem participar, por qualquer razão. Mas a forma aparentemente aleatória com que os jogadores foram escolhidos apenas serviu como gesto de desprestígio, que reforça essa ideia dos Jogos Pan-Americanos enquanto algo desnecessário. Da mesma forma, enfatiza a imagem de uma CBF desatenta às reais necessidades do futebol nacional e firme, como sempre, ao lado de seus parceiros.

Brasil campeão do Pan de 87: o início para nomes como Bebeto, Raí, Taffarel e Ricardo Rocha, entre outros (Foto: Reprodução/Placar)

Brasil campeão do Pan de 87: o início para nomes como Bebeto, Raí, Taffarel e Ricardo Rocha, entre outros (Foto: Reprodução/Placar)

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.