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A dificuldade de se manter Galáctico

Historicamente, o Real Madrid é o clube que mais balança o imaginário dos amantes do futebol mundial. Seja por suas conquistas, por sua condição de “realeza” ou mesmo pelos craques que sempre envergaram o manto merengue, o clube sempre esteve em um patamar diferenciado na escala do futebol. Nesse sentido, o ano de 2000 tornou-se emblemático na história da equipe: Florentino Pérez tornava-se presidente do clube e iniciava a era dos Galácticos.

Foto: RealMadrid.com

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Com uma nova proposta de marketing, o clube traria craques e os rentabilizaria. Segundo o diretor-geral do clube, José Ángel Sánchez, o modelo de comercialização da marca Real Madrid foi inspirado no da Disney, com O Rei Leão, como o jornalista argentino Diego Torres discorreu em seu excelente livro “A Guerra de Mourinho” (2013).

“A primeira janela para um filme era o cinema. A segunda, a reprodução nos aviões de passageiros. Depois, a edição do DVD (…) No universo que o diretor vislumbrou, os adeptos transformavam-se em “audiências” (…). Durante o jogo, as audiências dividiam-se em três blocos. No estádio instalavam-se os que pagavam a geral, os que compravam o lugar cativo, as empresas que alugavam os camarotes, ou os particulares que contratavam as zonas VIP (…) Fora do estádio estavam as empresas que alugavam os direitos de transmissão (…) O espetáculo não terminava quando o jogo acabava (…) Ao ponto em que o Real Madrid se parecia mais com a Disney do que a Disney alguma vez se parecerá com o Real Madrid”.

Nascia ali uma equipe que constelava craques da estirpe de Zinedine Zidane, Luis Figo, Ronaldo, David Beckham, Cristiano Ronaldo, Kaká, Fabio Cannavaro, dentre outros. Um time que passou a limitar o espaço de outras figuras de indiscutível importância, mas de menor brilho quando expostos aos holofotes. Até Fernando Hierro, apenas José Martínez Sánchez, o Pirri, Juan Alonso e Ricardo Zamora, em uma lista de 17 nomes, haviam sido capitães do Real Madrid sem se aposentar no próprio clube.

Insensatez

Foto: RealMadrid.com

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Não obstante, a política trazida no início do século XXI vem mudando a realidade histórica do clube. Pouco mais de 24 horas após a conquista do 29º título do Campeonato Espanhol do Real Madrid, em 2003, o clube notificou Hierro de que não renovaria seu contrato, a despeito de um desempenho ótimo em sua última temporada. Uma história de 13 anos terminou em 24 horas e, ao que tudo indica, contra a vontade do jogador. Como explicar ao restante do elenco a dispensa sumária de seu líder? Ademais, junto com o zagueiro, o Real abriu a porta para saída de Vicente del Bosque, que mais tarde voltaria a mostrar seu valor com a Seleção Espanhola.

Hierro seguiu para o Al Rayyan, que apresentou-lhe um rico e interessante projeto: além de receber um ótimo ordenado, o espanhol jogaria com o ótimo alemão Mario Basler e contra figuras da qualidade de Gabriel Batistuta, Pep Guardiola e Stefan Effenberg, que também se mudaram para o Catar. Apesar disso, o jogador foi facilmente convencido na temporada seguinte e partiu para o Bolton, onde voltou a atuar em uma liga de peso, em sua derradeira temporada como profissional.

Foto: RealMadrid.com

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Outro ponto curioso é o fato de que o Real Madrid se desfez facilmente de seu capitão, que era indiscutivelmente um ótimo defensor, e ficou órfão no setor, uma vez que o clube não contratou ninguém para seu lugar. Os Merengues abriram mão de Hierro para contar apenas com Ivan Helguera, Francisco Pavón, Álvaro Mejía e Rubén González, jogadores de credenciais absolutamente discutíveis.

Com a saída de Hierro, Raúl González herdou a tarja de capitão, envergando-a até 2010. Outro líder nato, jogador que mais vezes vestiu o manto madrileno e maior artilheiro da história do clube, o atacante também não terminou sua carreira no Madrid, mas, dessa vez, com uma história um pouco diferente.

Outro líder fora

Foto: RealMadrid.com

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Ainda sob a gestão de Ramón Calderón, presidente que entremeou períodos de direção de Florentino Pérez, em 2008 o jogador, juntamente com Iker Casillas, firmou contrato longo, intitulado por muitos de vitalício. Não obstante, em 2010, novamente sob a gestão de Florentino, Raúl deixou o clube e partiu para um novo desafio no Schalke 04. Em 2009-2010, o craque só foi titular em 13 oportunidades no Campeonato Espanhol e teve média de 35 minutos em campo em cada um dos 30 jogos em que entrou em campo.

O Real não abriu a porta para Raúl, mas a enorme competitividade do elenco e até mesmo algumas críticas vindas de diretores e torcedores desmotivaram o craque, que terminou sua trajetória merengue de forma triste, lesionado. José Mourinho chegou a tentar convencê-lo a permanecer, mas a decisão do jogador estava tomada.

Com sua saída, Casillas herdou a braçadeira de capitão e começou a viver seu inferno astral. Profissional desde 1999, o goleiro recebera ali, com todos os méritos, o direito de representar o clube madrileno. A despeito disso, o que parecia ser uma verdadeira glória, passou a se tornar uma verdadeira provação.

Foto: RealMadrid.com

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‘Olla’

Quieto, como precisamente descreveu Diego Torres, Casillas passou a ameaçar o domínio de Mourinho. Por mais influência que exercesse, o português sempre esteve em conflito com alguns jogadores do elenco madridista, sobretudo com os espanhóis Iker Casillas, Sergio Ramos e Xabi Alonso.

O capitão (Casillas) nunca se destacou pela sua capacidade para o marketing. Mais para o introvertido, de trato agradável, este homem não tinha o dom da autopromoção. Pelo contrário. Não tinha habilidade para isso (…) Era alheio à ambição de poder e ao impulso controlador que distinguiram os outros grandes líderes do futebol. Preguiçoso para as questões burocráticas, evitava as discussões o mais que podia”, apontou Diego Torres em outro trecho.

Foto: RealMadrid.com

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Além de queixar-se da autoridade dos campeões mundiais de 2010, o treinador tentava inserir o número máximo de jogadores agenciados por Jorge Mendes no Real Madrid, algo que não deixava de irritar os craques hispânicos. No entanto, os jogadores sempre respeitaram o português, como relata exaustivamente o jornalista argentino, que viveu os bastidores do clube entre 2010 e 2013. Apesar disso, não bastasse a megalomania de Florentino Pérez, com Mourinho o clube se tornou ainda mais difícil de se trabalhar. A mania de imposição e a paranoia do português deixavam o clima permanentemente tenso.

E a corda estourou sob Casillas. Então um dos melhores goleiros do mundo, possivelmente o melhor, o goleiro passou a sofrer reprimendas internas e até foi reserva do fraco Antonio Adán – o que pioraria com a contratação de Diego López, após o capitão sofrer uma lesão em dividida com Álvaro Arbeloa.

Foto: RealMadrid.com

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“A lista que Mourinho apresentou ao presidente em meados de novembro de 2012 foi metade desiderato metade ultimato. O primeiro ponto era uma condenação dos capitães. Dizia que Casillas e Ramos tinham atingido um nível intolerável de poder. Queixava-se de que Casillas o desacreditava dizendo publicamente que se inspirava em Guardiola (…) O segundo ponto exigiu a contratação de um guarda-redes que rivalizasse com Casillas”, salientou o jornalista argentino.

Porta de saída

Com isso, indiscutivelmente, Casillas se desmotivou. Sua forma técnica piorou. Preterido por Mourinho, o goleiro passou a ser visto mais no banco de reservas do que dentro das quatro linhas, isso em seu auge técnico. Por fim, Mourinho saiu e o goleiro ficou, mas sua técnica e seu prestígio já não eram mais os mesmos.

“Cada nação futebolística tem a sua pirâmide sagrada. No cimo costumam estar os heróis que ganharam o Mundial. (…) Em Espanha o ídolo que tinha preenchido esse lugar chamava-se Iker Casillas. A destruição do herói, com todo o seu peso simbólico, era a tentação suprema para um homem como Mourinho, obcecado em propagar a noção de que ele era o legislador supremo”, atestou Diego Torres.

Com Carlo Ancelotti, Casillas recuperou um pouco de seu prestígio, mas não o suficiente. Nos últimos dois anos, conviveu com um misto de reações nas arquibancadas de Santiago Bernabéu. Houve vaias confrontadas por aplausos. O ambiente já não deixava o goleiro à vontade.

Com essa situação, o esperado aconteceu e Casillas deixou o Real Madrid: solitário em sua coletiva final. Seu destino em 2015-2016 é o Porto.

Foto: FC Porto

Foto: FC Porto

Seja por decisões controversas do megalomaníaco Florentino Pérez, pela alta competitividade do elenco, pelos muitos egos envolvidos ou pelas pressões vindas das arquibancadas, o Real Madrid mostra-se um clube único. Ao mesmo tempo que é o sonho de todos, pode se tornar um pesadelo. Hierro, Raúl e Casillas não nos deixam mentir: é difícil se manter galáctico.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.