Arda Turan, o Imperfeito Mágico Turco

  • por Victor Mendes Xavier
  • 5 Anos atrás

Na polêmica entrevista de Daniel Alves ao programa Bola da Vez, da ESPN Brasil, uma das pautas foram os reforços do Barcelona para a nova temporada. O baiano definiu Arda Turan com uma palavra: personalidade. Mais do que a qualidade técnica e a disciplina tática, a vontade do turco de triunfar é ideal para abastecer um elenco que acaba de sair de (mais) uma temporada histórica. Arda tem um sonho em mente, vencer uma Uefa Champions League. Como competidor, será essencial.



A personalidade de Arda pôde ser constatada no Atlético de Madrid de Simeone, o time de Libertadores disputando UCL. Para o treinador argentino, sua equipe é constituída de quatro princípios fundamentais no futebol: a defesa organizada, o jogo direto ao atacante, a intensidade para contra-atacar e, claro, a famosa bola parada, o Messi colchonero. Numa análise mais ponderada, Arda não se destaca em nenhum deles. No entanto, Cholo o converteu numa estrela dentro do rígido sistema. Desde o início, o meia representou um choque emocional ao planejamento de Simeone, sendo a força motriz do time.

Por vezes, o Vicente Calderon se transforma em palco de batalhas, nas quais o esforço dos jogadores se conecta com a torcida de maneira singular. Em um cenário onde o divertimento e o espetáculo são coadjuvantes, a “magia” de Turan conquistou o público.

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São raros os jogadores, principalmente da posição, que conseguem unir garra com plasticidade no futebol. Arda é um deles. Em outras palavras, dentro do plantel rojiblanco, ele era único. Com uma leitura de jogo digna de um world class, o turco se juntava a Koke para “esconder”, segurar a bola e ordenar a troca de passes que aterrorizavam os rivais.

TESTE

Mas o turco tem defeitos. Um deles, bem evidente: ser pouco efetivo. A importância dele ao Atléti nunca foi constatada nas estatísticas da Liga Espanhola. Sua média de gols por temporada nunca passou de 3,5% e sua finalização não é um primor. Inteligente, Simeone deu a seu futebol um caráter defensivo. Principalmente quando a equipe abria o placar, o 10 de Manzanares se tornava um administrador de vantagem. O tempo passava, o adversário tentava pressionar e Arda tranquilizava não só passando, como driblando. Aliás, seu drible curto, de futsal, é quase perfeito.

Porém, ao contrário de figuras como Xavi e Iniesta, essa característica só emergia com maior brilhantez quando o Atlético tinha ao menos um gol à frente de seu rival. No final de 2014/2015, com problemas na produção ofensiva, os rojiblancos por vezes sentiram falta de algum homem de meio-campo mais incisivo e o “Leônidas” não respondeu, naufragando junto aos companheiros. Arda corria, corria, corria, produzia pouco e não conseguia transformar o pragmatismo em concerto. O exigente jogo físico que requer Simeone já não encantava mais o turco.

Arda Turan no Barcelona de Luis Enrique

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Luis Enrique não é Simeone, nem o Barcelona é o Atlético de Madrid. Na Catalunha, Arda, acostumado a jogar nos flancos com liberdade para se movimentar, terá que se adaptar a uma nova função. É provável que ele chegue para encorpar um novo perfil Iniesta dentro do grupo. No Barcelona de Guardiola, seu encaixe seria uma incógnita. Atualmente, as dúvidas existem, claro, mas não são tão grandes. Porque o Barça mudou. Não existe mais o modelo tático chamado de “Jogo de Posição”, a posse de bola não é tão essencial e o sistema é mais flexível.

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Ser um meia interior de um 4-3-3 será um desafio a Arda Turan, é verdade. Sua capacidade de associação é maior que a de Rakitić (o interior direito, que tem maiores responsabilidades com a bola na criação), assim como o entendimento para gerar linhas de passes curtas. Porém, o croata é imprescindível ao atual Barça porque defensivamente contribui de uma maneira que libera Alves para brilhar nas subidas ao ataque. Com Arda pode acontecer algo semelhante, mas não seria o ideal.

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Fica o exercício de imaginação: se jogando em um time de defesa recuada, de muito físico, Turan conseguia encantar, imagina o efeito que poderá causar ao lado de Neymar pelo lado esquerdo catalão?

ARDA E NEY

No Barcelona, a bola roda com maior velocidade e precisão que no Atlético de Madrid, o que é bem perceptível. Se atualmente os blaugranas não têm na posse de bola um meio de quebrar as linhas adversárias e construir ataques, ainda preza por ter a pelota nos pés. Luis Enrique a usa menos que Guardiola e Tito, mas a qualidade técnica de seus jogadores obrigatoriamente faz o Barça ter a iniciativa. Isso protegerá Arda, como protege Iniesta e protegia Xavi.

Buscar mais um jogador com perfil distinto de um gestor mostra que o Barça não pensa em ter um substituto de Xavi. Há um ano, a contratação de Rakitić (somada à venda de Fàbregas) indicava isso. No projeto da MSN, ter verticalidade na medular para acionar o ataque é o principal objetivo. Arda não é um organizador, mas sabe esfriar um jogo. É esse recurso que Luis Enrique busca, já que não terá mais o eterno camisa 6 de 1,70m para entrar no segundo tempo.

Mesmo imperfeito, o barbudo promete encantar o Camp Nou.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.