Nada de piada, Douglas Costa é um bom negócio para todos

Foto: FC Bayern

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Após mais um fracasso da seleção brasileira, a maior parte da torcida verde-amarela – com toda a razão – se agarrou a algumas justificativas para aceitar o terrível momento do outrora temido futebol Canarinho. Uma delas sugeriu que a “safra é ruim e ponto final”. Assim, jogadores como Douglas Costa deixaram o Chile chamuscados após a eliminação da Copa América – até mesmo por ter isolado sua decisiva penalidade. Isso não o torna um jogador ruim ou inútil, muito longe disso.

Evidente que o nível do futebol ucraniano está longe de ser bom. Trabalha-se com no máximo quatro forças que são, todavia, muito inferiores às das ligas principais do futebol europeu. Não obstante, isso não atesta que um jogador não possa se desenvolver atuando na fria nação – sobretudo quando este é brasileiro. Adaptar-se a um país com uma cultura absolutamente diversa da sua, com uma temperatura que assusta e faz inclusive o torneio local parar durante algum tempo, além de trabalhar com um outro tipo de estrutura, conceitos distintos e ideias novas, não é algo fácil.

Foto: Shakhtar.com

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Quem via Willian (um dos poucos jogadores que o torcedor brasileiro não critica em demasia), no início de sua carreira, não imaginaria que aquele habilidoso meio-campista se destacaria no futuro mais por sua aplicação tática do que por sua ótima técnica. Isso é fruto de um trabalho que se deu aonde? Na Ucrânia. Não digo que com Douglas Costa se passa – ou passará – o mesmo, mas soa estranho duvidar de um jogador que foi disputado a tapas entre José Mourinho e Pep Guardiola, comandantes que aceitaríamos no comando da Canarinho, sem quaisquer reservas.

Douglas Costa sempre chamou a atenção pela velocidade e por seu drible. Assim, despontou no Grêmio e se mudou para o Shakhtar Donetsk, clube no qual prova, ano após ano, que não basta ter apenas talento para obter sucesso. Apesar de ter sido queimado por sua convocação para a Copa do Mundo de 2014, Bernard, por exemplo, está longe de ser um jogador tecnicamente deficiente, bem como Wellington Nem, ex-Flu. No entanto, sua peculiar técnica não lhes tem garantido uso contínuo da equipe. Junto a Dentinho, os dois foram os brasileiros que menos atuaram na temporada ucraniana (desconsiderando Márcio Azevedo, que teve uma grave lesão).

Mircea Lucescu tem deixado evidente que seus jogadores só receberão as chances que desejam cumprindo, fielmente, suas instruções, independentemente da boa técnica que possam possuir. Douglas Costa é um jogador que sempre entendeu o raciocínio do romeno e teve rápida ascensão na equipe. Terminou seu estágio em Donetsk na condição de titular indiscutível.

Foto: Shakhtar.com

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As firulas desnecessárias dos tempos do tricolor gaúcho deram lugar a um jogador mais agudo e objetivo. Parte de sua individualidade converteu-se em solidariedade, como confirmam suas 6 assistências nos 20 jogos em que entrou em campo pela Primeira Liga da última temporada (apenas Luiz Adriano, com 10, proveu mais passes para gols).

Por outro lado, analisemos o elenco do Bayern de Munique. Embora conte com uma riqueza de opções de meio-campo, com excelentes passadores e, em alguns momentos, com as ausências de Franck Ribery e Arjen Robben, faltou um atleta mais agudo, capaz de fazer o diferente, o imprevisível. Desde a saída do esforçado e habilidoso – porém nada brilhante – Xherdan Shaqiri, o clube alemão tinha ficado carente de jogadores para essa função. Mario Götze fez temporada ruim e Thomas Müller não tem, exatamente, essas características.

Foto: FC Bayern

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O maior e melhor exemplo dessa deficiência do time bávaro foi a eliminação para o Barcelona, na UEFA Champions League. Sem seus wingers, o Bayern ficou limitado e pouco criativo, a despeito das presenças de Bastian Schweinsteiger, Thiago Alcântara, Xabi Alonso e Philipp Lahm no meio-campo. Faltou um condutor de bola, um jogador de velocidade, com habilidade e drible. Faltou ao Bayern o que sobrou ao Barcelona: talento individual.

Toda a organização tática do Bayern não foi suficiente perante o Barça, mas permitiu que o clube fizesse jogos duros – a despeito do largo placar de 3×0, no jogo de ida, haja visto que os três tentos saíram nos 15 minutos finais. É óbvio que Douglas Costa passa longe de ter o talento para carregar uma equipe como o Bayern de Munique às glórias, mas pode ser muito útil durante a temporada, especialmente nas mãos de Guardiola.

Aliás, vale a lembrança de que, sob o comando do espanhol, jogadores medianos e de técnica inferior à do brasileiro, como Pedro Rodríguez, viveram o melhor momento de suas carreiras.

Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Conhecendo o padrão com o qual trabalha Guardiola, Douglas Costa não chegará ao Bayern pedindo a camisa e indo para o campo. Seu uso dependerá de adaptações e deverá ser feito modicamente, em doses homeopáticas, até porque o torcedor não pode esperar que o brasileiro desempenhe o papel de Robben como o titular. Suas semelhanças param na perna canhota e na preferência pelo lado direito do campo.

Os especulados €30 milhões dispendidos em sua negociação são obviamente um exagero, mas tornaram-se um padrão na realidade atual dos grandes clubes do mundo. Nesse momento em que há grande desesperança no futebol brasileiro, por toda a estrutura e conjuntura que fazem parte dele, ao invés de criticar a nossa safra e reclamar de jogadores, individualmente, devíamos levantar as mãos para os céus. Agradeçamos por termos mais um jogador brasileiro sendo trabalhado por Pep Guardiola.

Foto: Twitter Oficial de Douglas Costa (@douglascosta)

Foto: Twitter Oficial de Douglas Costa (@douglascosta)

Assim, é possível vislumbrar o negócio de Douglas Costa como algo positivo para todas as partes envolvidas. Para o Shakhtar, sua saída representou o aumento de seu caixa, em tempos de dificuldades (com a situação política da Ucrânia). Para o Bayern, sua chegada simboliza o acréscimo de uma possibilidade que faltou em alguns momentos recentes. Já para a seleção brasileira, sua transferência provê uma nova possibilidade, com um jogador de sabido talento, sendo treinado por um dos melhores comandantes do planeta.

Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Por isso, não é hora de ver a transferência de Douglas Costa para o Bayern com pessimismo ou como uma piada, mas sim de olhá-la com carinho. Mourinho brigou por ele e Guardiola contratou-o. O negócio custou caro e é certo que os envolvidos têm Douglas em alta conta.

Em uma hora em que grandes clubes da Europa olham com carinho para um jogador brasileiro, algo que tem acontecido cada vez menos, por que o tratamos com tanto desdém? Convido o torcedor a acompanhar os novos passos de Douglas Costa e tirar suas conclusões dentro de algum tempo, afinal, pelo exposto, a chegada do brasileiro ao Bayern não é piada, mas um bom negócio para todos.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho), 25 anos. Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no O Futebólogo e na Revista Relvado.