O Grêmio de Roger e sua busca pelo protagonismo

 

Grêmio 0 x 1 Criciúma: explicando e aprendendo


O embalado Grêmio recebeu o singelo Criciúma, militante da segunda divisão e atual 14º colocado, na sua avantajada Arena, pela Copa do Brasil. No G4 do Brasileirão, há 5 meses invicto em casa e com vitóri
as recentes contra equipes como Corinthians, Cruzeiro e Palmeiras, o Imortal Tricolor pintava como favorito. A derrota por um a zero surpreendeu, mas não é inexplicável.

Sob o comando de Roger, o Grêmio inovou seu estilo de jogo. Por anos orgulhoso e acostumado a ter um estilo “peleador”, com aglomeração de volantes (cultuados entre os torcedores) e atenta aos equívocos do adversário, o Tricolor gaúcho assiste nos últimos meses a um câmbio considerável na forma de jogar o futebol: deixou de especular sobre os possíveis erros do oponente e passou a ser protagonista dos seus embates; aposta em volantes firmes, como Walace, mas que dominem a arte de jogar ofensivamente; e inverteu os polos da identidade de “peleador”, trocando a intensidade da marcação no campo próprio pela pressão alta no campo oposto.

Apesar de eventuais contratempos, o trabalho de Roger merece elogios até o momento, não apenas pelos resultados, mas pela implementação de um estilo de jogo.

No entanto, para além da instauração de um estilo, deve-se convencer os jogadores de que o mesmo pode ser frutífero. Como comenta Marcelo Bielsa:

“O estilo está conectado com a particularidade, com a forma de ser daquele que o transmite. Aquele que o transmite crê no estilo que está transmitindo, porque se não é imediatamente descoberto pelo futebolista. O atleta, para aceitar um treinador, tem que crer que está sendo direcionado a um estilo de jogo no qual o treinador acredita.”


O embate contra o Criciúma mostrou que, apesar do percalço
, os atletas acreditam na ideia do técnico. A equipe gaúcha trocou 558 passes, uma marca do trabalho de Roger, baseado na movimentação intensa, contra 221 do Criciúma, manteve a posse de bola (55%) e provocou cinco cartões amarelos dos catarinenses. Fora o gol anulado, essa superioridade no toque de bola não resultou em nada, argumentariam alguns. É verdade, o gol do empate não saiu. Porém, não por falta de criação de jogadas.

Mesmo com uma noite pífia de Douglas, foram 17 finalizações gremistas, contra 9 do Criciúma. Antes de que sejam tecidas críticas negativas à performance gremista, deve-se perguntar: o tricolor gaúcho não conseguiu o triunfo porque não conseguiu impor seu jogo ou porque não teve eficácia nas chances criadas? Como comentou Roger:

“O adversário vir como veio, e a gente não conseguir criar é uma coisa. A gente conseguiu criar bastante, triangular, chegar dentro da área, finalizar.”



A partida mostrou um Grêmio interessado em atacar através de um jogo intenso de troca de passes, o que não mudou mesmo com a entrada de jogadores mais “duros”, como Yuri Mamute e Braian Rodriguez. Com posse de bola, movimentação e chances de gol, como explicar a derrota gremista? Ora, ela passa diretamente pela estratégia do Criciúma, porém também com pontos fracos que o esquema ofensivo de Roger apresenta.

A proposta do Tigre, bem armado por um treinador que absorveu experiências do futebol brasileiro e da ótima escola de treinadores sérvia, Petkovic, foi clara e bem-sucedida. Diminuiu os espaços para a troca de passes gremista e forçou a marcação sobre peças-chave do adversário, tendo velocidade no contra-ataque. Ao especular sobre os erros dos gaúchos, armou o gol em um equivocado passe de Geromel e na subsequente marcação desorganizada.



Aqui certamente está o maior desafio de Roger e de qualquer equipe que adote um modelo ofensivo de jogo: para gerar a movimentação ofensiva, é necessário que os futebolistas se desmarquem constantemente, dando opção de passe e fazendo infiltrações. O perigo decorrente dessa ação é a péssima postura defensiva que é criada caso a bola seja interceptada no decorrer do processo.

O grande desafio é desmarcar ofensivamente sem perder tanta estrutura defensiva. O gol catarinense resultou justamente de um momento no qual o Grêmio preparava seu ataque. Porém, ao forçar uma bola, Geromel entregou a posse ao adversário, que com espaço aproveitou a marcação mal colocada em toda a armação da jogada, culminando no tento funambulesco de Pedro Rocha. No apagar das luzes, Paulo Sérgio teve a chance de complicar ainda mais a vida do Tricolor gaúcho, mas jogou-a fora. O que não pode acontecer com o otimismo em relação ao trabalho de Roger até o momento.

Os méritos foram, claro, da equipe catarinense, que soube dificultar o jogo gremista. No entanto, o Grêmio de Roger, até o momento, mostra não só uma equipe ofensiva e de toque de bola, mas um grupo convencido da potencialidade do seu próprio estilo de jogo. Decidido a ser protagonista das partidas, e não apenas especulador, pode ser que o Imortal Tricolor passe a protagonizar também a disputa por taças, algo que os gremistas fortemente anseiam.


No podcast MARCAÇÃO DOBRADA, o DPF discutiu essa ascensão do Grêmio. Participaram do debate: Pedro Galindo, Eduardo Jenisch, do blog Respirando o Grêmio, do ESPNFC, e Eduardo Madeira. Escute!

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Antropólogo, fanático por relações internacionais, direitos humanos, literatura e, óbvio, Doente por Futebol. Além de colunista para o DPF, escrevo para o fã clube Borussia Dortmund Südbrasilien e no projeto latinoamericano Goltura Futebol. Jogo de segundo volante.