O novo Monaco… novo mesmo

Foto: AS Monaco

Foto: AS Monaco

Quem gosta de acompanhar cada detalhe das janelas de transferências europeias se acostumou a ver o Monaco investindo caminhões de dinheiro em jogadores tarimbados no cenário internacional. Falcao García, João Moutinho, James Rodríguez, Ricardo Carvalho e Jérémy Toulalan foram apenas alguns dos contratados nos últimos anos. Desde que o bilionário russo Dmitry Rybolovlev desembarcou na ilha monegasca, é assim que a banda vinha tocando. Vinha. Para a temporada 2015/2016 do Campeonato Francês, o conjunto encontrou um novo arranjo e o clube vem ganhando novo modelo.

Se na temporada 2013/2014 o Monaco investiu a “singela” bagatela de 177,7 milhões de euros em contratações – 105 milhões apenas nos colombianos Falcao e James –, para a temporada que está prestes a começar, o clube gastou, até agora, somente 57,3 milhões, a maioria em jogadores jovens. A uma semana do início da nova temporada, é difícil imaginar que possa investir muito mais.

Foto: Stéphane Senaux - AS Monaco

Foto: Stéphane Senaux – AS Monaco

O atleta mais caro até o momento foi o português Ivan Cavaleiro, que veio do Benfica por 15 milhões de euros. Com apenas 21 anos, o winger pouco jogou pela equipe lusitana, mas atuou em boa parte da última temporada vestindo a camisa do Deportivo La Coruña, na Espanha. O bom desempenho fez com que fosse convocado para a seleção portuguesa – ressaltando que ele jogou por todas as seleções de base desde o sub-17. Ivan Cavaleiro é tido como substituto do belga Yannick Ferreira-Carrasco, vendido ao Atlético de Madrid por 20 milhões de euros.

O jogador mais badalado, entretanto, veio por míseros dois milhões de euros: o italiano Stephan El Shaarawy, emprestado pelo Milan. Tido como uma das grandes promessas do calcio, o Faraó luta contra as lesões e atuou apenas 28 vezes nas últimas duas temporadas.

Foto: Twitter Oficial - AS Monaco

Foto: Twitter Oficial – AS Monaco

A contratação de El Shaarawy foi uma grande sacada de mercado do Monaco. Conforme demonstra o gráfico do site Transfermarkt, o Milan assistiu à queda do valor de mercado do garoto. O atacante, que chegou a valer de 27 milhões, estava avaliado em 14 milhões – valor que o Monaco precisará pagar caso ele atue em 15 jogos. No fim das contas, o clube monegasco gastou menos de 15% do valor normal para comprar um jogador jovem que, inteiro, pode lhe dar valioso retorno.

Foto: Transfermarkt

Foto: Transfermarkt

Os demais jogadores contratados são todos jovens e baratos: Adama Traoré, 20 anos (14 milhões de euros); Guido Carrillo, 24 anos (8,8 milhões); Corentin Jean, 19 anos (4 milhões); Thomas Lemar, 19 anos (4 milhões); Farès Bahlouli, 20 anos (3,5 milhões); Gil Dias, 18 anos (de graça); Mario Pasalic, 20 anos; e Hélder Costa, 21 anos (empréstimos de Chelsea e Benfica, respectivamente).

Somado a isso, o Monaco fez caixa com algumas vendas, especialmente a de Geoffrey Kondogbia, vendido à Internazionale por 30 milhões de euros. Outros jogadores de renome, como o goleiro Maarten Stekelenburg e o atacante Dimitar Berbatov, tiveram seus vínculos encerrados e não ficaram no clube. Com essas entradas e saídas, o time passou a ter um elenco com média de idade apenas 23,3 anos, a mais baixa entre todos do Campeonato Francês. No atual plantel, composto por 33 atletas, apenas nove têm 25 anos ou mais.

Nova mentalidade

Como parte deste projeto, o clube passou a se desfazer de alguns dos medalhões contratados, casos de Falcao García, que foi emprestado ao Manchester United na última temporada e jogará pelo Chelsea nesta, e de James Rodríguez, vendido ao Real Madrid por 80 milhões de euros. Mais recentemente, o Monaco se desfez também do argentino Lucas Ocampos, primeiro grande investimento da era milionária – foi contratado junto ao River Plate, em 2012, por 13 milhões e vendido ao Marseille, nesta temporada, por 7,5 milhões.

Em recente entrevista, o vice-presidente do clube, Vadim Vasilyev, explicou que essas vendas e contratações mais discretas foram parte de adequação ao Fair Play Financeiro. Mas ele também contou um pouco de como funciona o novo Monaco.

Existem duas maneiras de se fazer futebol: você investe um monte e faz tudo rapidamente ou você constrói um projeto inteligente, baseando-se na academia e em princípios sólidos, com bom scouting –  Vadim Vasilyev

Foi dessa nova política que surgiram nomes como o atacante Anthony Martial, de 19 anos, e do meia português Bernardo Silva, 20 anos, ambos artilheiros do time na última temporada com nove gols cada – o luso já foi destaque de nossa coluna Olho Nele.

Foto: EuroSport

Foto: EuroSport

Vale pontuar que um episódio particular do presidente Rybolovlev causou relativo impacto nessa mudança. Dmitry se divorciou da esposa Elena Rybolovlev e a justiça acabou determinando que o russo pagasse 4,8 bilhões de dólares para a mulher, mais de 50% de seu patrimônio. Essa novela ainda não teve fim e vai demorar a acabar, mas contribuiu para a mudança de rumos do Monaco. Apesar disso, Dmitry reafirmou o compromisso com o clube e disse que não sai tão cedo de lá.

Fator Jardim

Foto: AS Monaco

Foto: AS Monaco

No meio dessa brincadeira, apareceu Leonardo Jardim. Insatisfeito com o burocrático trabalho do italiano Cláudio Ranieri, o Monaco apostou no técnico luso-venezuelano, que vinha de bons trabalhos no Olympiakos e no Sporting Club. A aposta se mostrou certeira e o time abocanhou uma das vagas na Liga dos Campeões, mesmo sem ter Falcao e James.

Mas, mais do que os resultados, a garimpagem de atletas é o que chamou a atenção. Conhecedor do mercado, Jardim soube exatamente onde catar jogadores em Portugal, como ficou comprovado no caso de Bernardo Silva e pode ser reafirmado com Ivan Cavaleiro. Ambos estavam no Benfica B e raramente (nunca?) eram lembrados pelo então técnico benfiquista Jorge Jesus.

Além disso, Jardim sabe bem onde investir. Se abriu mão de Falcao, não abriu de Fabinho. O brasileiro é peça-chave na equipe, sendo utilizado não só na lateral-direita, como também de volante. O defensor hoje é homem de confiança do treinador. O mesmo vale para os meio-campistas Jérémy Toulalan e João Moutinho, que estiveram em campo na maioria das partidas da última temporada e formam o pilar do time que menos sofreu gols (26) na última edição do Campeonato Francês.

Foto: Football User - Possível Monaco

Foto: Football User – Possível Monaco

Com essa nova mentalidade, o Monaco busca desbancar a hegemonia de três temporadas do Paris Saint-Germain e ganhar o título nacional, que não vem há 15 anos. Querendo ou não, é uma reviravolta no clube que queria gastar tudo de qualquer maneira para ser o novo papa-títulos da Europa.

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Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.