Por que a culpa sempre é do técnico?

LUXA, MARCELO E CRISTÓVÃO

A figura do treinador é uma das mais inseguras. Muitas vezes, chega para servir de “bombeiro”. Outras, para projetos de médio e longo prazo que não duram nem metade do tempo, caso os resultados não apareçam. E a análise do trabalho deles é extremamente fácil de entender, mas difícil de concordar: quem vence vive boa fase, quem perde está à beira da crise (do que importa o desempenho?).

Estamos falando do futebol brasileiro, claro. Com a contratação de Dorival Júnior pelo Santos, já temos 11 trocas de comandantes em 13 rodadas do Brasileirão 2015 (o recorde em pontos corridos e com 20 times aconteceu, em 2010, quando houve 31 mudanças).

É quase uma demissão por rodada. Onde ficam o tempo e a paciência com o profissional?

Defendo a continuidade do trabalho. Porém, no Brasil, o imediatismo vira rei e causa uma busca incessante por vitórias. Não importa se o time jogou bem. Perdeu, merece ser massacrado. “Necessidade” misturada à histeria do torcedor apaixonado, que é capaz até de demitir o técnico bicampeão brasileiro pelo próprio clube. Foi o que o Cruzeiro fez.

Cada caso é um caso e, às vezes, tem que se elencar diferentes fatores. Peguemos o exemplo de Luxemburgo no Flamengo. Na pré-temporada, até tinha boas ideias. Mas se complicou entre teoria e prática. O velho problema de criatividade impediu o bom desempenho e o fez mudar de estratégia. Desistiu do que tinha em mente. Bons resultados não surgiram e acabou sendo mandado embora.

Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

Cristóvão Borges chegou. E, com ele, veio uma sequência de tropeços antes da primeira vitória, que mostravam que o problema não era o treinador. A filosofia da diretoria é de responsabilidade financeira, algo que não há do que reclamar. É exemplo. Mas parece incoerente cobrar tanto de um elenco limitado. Investiu pesado em Guerrero, ótimo centroavante e que pode decidir jogos. Mas, coletivamente, o meio-campo inexiste. Ainda não resolveram a falta de criatividade. O atacante peruano e Emerson Sheik não decidirão sempre. Precisam de sustentação. Além disso, erros individuais quase sempre ficam na conta do “professor”.

Nem entrei no demérito do atraso tático dos nossos treinadores. Poucos são estudiosos e, mesmo assim, se veem numa encruzilhada para colocar o que aprendem em prática. Já vi Tite, do Corinthians, pedindo desculpas por responder uma pergunta usando termos táticos (natural na Europa, ainda é “tabu” por aqui). Só que nem o fato de estarem ultrapassados justifica tanta intolerância.

O fato é que, para dirigentes e torcedores passionais, é mais fácil demitir do que olhar para a infecção que gera a febre. Demitir e continuar demitindo gerando um ciclo vicioso entre técnicos que muitas vezes estão na “mesmice”, caso o problema fosse apenas a falta de conceitos atualizados. E, como sempre, resolver no “jeitinho” é menos árduo e mais populista. “Professores” viraram reféns do próprio serviço.

Comentários

Aspirante a jornalista esportivo e fã de futebol internacional, principalmente Premier League. Adepto da seguinte tese: todo jornalista precisa ser um bom contador de histórias. Sonhador, mas pouco otimista. Olhar crítico e com critério. Abomino paradigmas e modinhas.