Quando a América foi cinco estrelas

  • por Gustavo Ribeiro
  • 4 Anos atrás

DESTACADA LIBERTADORES CRUZEIRO

Os clubes argentinos estavam dominando a Libertadores. Desde a conquista do Santos, em 1963, haviam vencido a competição em dez oportunidades, contra duas dos uruguaios. Mesmo sem os brasileiros darem o devido valor ao campeonato, São Paulo e Palmeiras tentaram quebrar essa hegemonia, mas ambos falharam. No entanto, em 1976, o Cruzeiro entrou disposto a fazer história. Um time que aliava técnica e tática, com uma pitada de irresponsabilidade, conseguiu, depois de treze anos, trazer de volta para o Brasil a principal taça do continente.

A classificação veio com a conquista do vice-campeonato Brasileiro de 75, após perder a final para o Internacional. Com isso, ambos se garantiram como representantes brasileiros na Copa Libertadores do ano seguinte. Sorteados no Grupo 3, caíram juntos com Olimpia e Sportivo Luqueño, representantes do futebol paraguaio. O time mineiro manteve a base para a competição, e sua grande contratação foi Jairzinho, conhecido como “Furacão” da Copa do Mundo de 1970.

A vinda de Jairzinho preenchia uma lacuna deixada por Dirceu Lopes, que havia sido emprestado ao Fluminense, em 75. Contundido, Dirceu voltou ao clube no ano seguinte. Chegou-se a cogitar sua inscrição na Libertadores, mas não se concretizou, já que o meia ainda precisava de mais tempo para recuperar-se. Tudo bem que Dirceu, em qualquer circunstância, teria muito a acrescentar, mas a verdade é que não fez falta. O time deu liga e encantou o Brasil com um belo futebol.

O COMEÇO DA CAMINHADA

A estreia na Libertadores aconteceu no dia 7 de março, em um domingo quente, em Belo Horizonte, diante de um Mineirão com mais de 60 mil pagantes. Era a reedição da final do último Brasileirão, que terminou com o Internacional levantando a taça. De um lado, Jairzinho, Palhinha, Joãozinho e Nelinho eram as grandes armas do time comandado por Zezé Moreira. No lado colorado, taxado como favorito, Manga, Figueroa, Falcão e Lula colocavam medo em qualquer adversário.

Com duas equipes com vocação para atacar, já era esperado um grande jogo, mas o que aconteceu naquela tarde de domingo entraria para a história do futebol mundial. Palhinha (2x), Joãozinho (2x) e Nelinho marcaram para o time celeste, enquanto Lula, Valdomiro, Zé Carlos (contra) e Ramon descontaram para os colorados. Final de jogo: Cruzeiro 5×4 Internacional. A equipe mineira começava a fase de grupos da Libertadores com o pé direito.

Depois da vitória épica, o Cruzeiro viajou para o Paraguai, onde fez dois jogos em menos de cinco dias no Defensores del Chaco. O primeiro foi contra o Sportivo Luqueño, e venceu fácil por 3×1, com gols de Nelinho, Roberto Batata e Jairzinho. Contra o campeão paraguaio Olimpia, de Ever Hugo Almeida, no mesmo estádio, empate em 2×2. Gols de Jairzinho e do zagueiro Darci Menezes. Primeiro lugar mantido, mas era hora de voltar ao Brasil.

Chegava a vez do Cruzeiro fazer o seu papel como anfitrião, e o fez: vitória sobre o Sportivo Luqueño por 4×1, no Mineirão, com shows de Jairzinho e Palhinha, que pareciam cada vez mais entrosados. A partida seguinte era contra o Internacional, que ainda lutava para avançar para a próximo fase. Mas de 80 mil torcedores lotaram o Beira Rio, esperando mais uma grande partida.

O que se viu, no entanto, foi um Cruzeiro letal. Com gols de Jairzinho e Joãozinho, a Raposa venceu por 2×0 e selou a classificação. Para fechar a participação na fase de grupos, o time celeste recebeu o Olimpia no Mineirão e, mais uma vez, não encontrou dificuldades para se impor: venceu por 4×1. Era a terceira vez em seis jogos que o time marcava quatro gols em uma partida.

Naquela época, o regulamento previa que os classificados de cada grupo formariam dois grupos com três equipes cada. Era a semifinal. E o Cruzeiro caiu no Grupo 1, junto com a LDU, de Quito, e Alianza Lima, do Peru. No outro grupo, considerado o “da morte”, figuravam River Plate, Independiente e Peñarol. Havia jogos de ida e volta, e o Cruzeiro se classificou com 100% de aproveitamento para pegar o vencedor do outro grupo.

Um fato que marcou uma campanha até então irretocável

No dia 12 de maio, o Cruzeiro venceu o Alianza Lima por 4×0, com gols de Roberto Batata, Joãozinho (2x) e Jairzinho. Na volta para o Brasil, a delegação cruzeirense desembarcou em Belo Horizonte e cada um dos jogadores seguiriam para suas casas. Roberto Batata, um dos titulares e pilares do time, pegou a estrada rumo a Três Corações, para encontrar com sua mulher e o filho de 11 meses. Um acidente fatal na rodovia Fernão Dias, no quilômetro 182, impediu que chegasse ao seus destino e encerrou sua carreira e vida. Roberto Batata chegou ao Cruzeiro em 1971 e disputou 285 jogos. Marcou 110 gols.

Logo após a tragédia, veio a partida contra o Alianza Lima. A camisa 7 que Batata usava foi estendida na pista ao lado do gramado e a banda da Polícia Militar homenageou o atleta com o Toque do Silêncio, antes do início da partida. Com um Mineirão lotado, o melhor jeito que os jogadores encontraram para homenagear o ex-companheiro foi com uma vitória. Com gols de Jairzinho (4x) e Palhinha (3x), o time celeste goleou por 7×1 e praticamente garantiu a classificação à final.

A última partida da semifinal foi contra a LDU, no Mineirão. Também venceu com tranquilidade, por 4×1, e garantiu a classificação. No outro grupo, o River Plate, com muita dificuldade – vale ressaltar que os adversários eram mais fortes -, também conseguiu chegar à sua segunda final da competição. Na primeira, em 1966, perdeu o título para o Peñarol.

O TIME:

Dito como um técnico inovador na época, Zezé Moreira chegou ao Cruzeiro em 1975, após já ter comandado a seleção brasileira na Copa do Mundo de 1958. Em seu primeiro ano, conseguiu levar um time contestado à final do Brasileirão, mas perdeu o título para o Internacional. Na temporada seguinte, com o reforço de Jairzinho, conseguiu montar um esquadrão ofensivo de respeito, que depois se confirmaria como um dos maiores selecionados da história do clube.

Foto Cruzeiro - Jogadores de pé: Darci Menezes, Piazza, Morais, Nelinho, Vanderlei e Raúl Plasmann. Agachados: Eduardo, Zé Carlos, Palhinha, Jairzinho e Joãozinho

Foto Cruzeiro – Jogadores de pé: Darci Menezes, Piazza, Morais, Nelinho, Vanderlei e Raúl Plasmann. Agachados: Eduardo, Zé Carlos, Palhinha, Jairzinho e Joãozinho

O esquema utilizado era o 4-3-3, padrão à época. Ao longo da competição, o time foi sofrendo mudanças – entre elas, a morte de Roberto Batata, o meia aberto pela direita do time e titular até então. E o escolhido para substituí-lo foi Eduardo, tido como um coringa no elenco. No começo, o próprio jogador afirmou não se sentir à vontade para fazer tal função, por causa da obrigação de recompor pelo lado do campo, mas acabou aceitando. E se saiu muito bem.

Com Eduardo sendo deslocado para o lado direito, Zé Carlos ganhou a obrigação de armar o jogo pelo centro. O time base na competição: Raul; Nelinho, Moraes, Darci Menezes e Vanderlei; Eduardo, Piazza e Zé Carlos; Jairzinho, Palhinha e Joãozinho.

Com essas alterações, o time perdia em velocidade, mas ganhava mais cadência, qualidade no passe e posse de bola. Se o ataque era o ponto forte, com todos do meio para frente sempre deixando sua marca, não se pode dizer o mesmo da defesa. O setor, sempre que atuava contra um time mais qualificado, encontrava dificuldades (vide os jogos contra Inter, na primeira fase, e River, na final).

O equilíbrio é outro ponto que vale ressaltar nesse time. Por exemplo: quando Nelinho avançava pela direita, o que era bastante comum, Piazza cobria o lado direito. O mesmo ocorria com Vanderlei, pela esquerda. Com cinco gols marcados naquela edição, Nelinho foi o quarto artilheiro do time, ficando atrás apenas de Palhinha, com 13 tentos, e Joãozinho e Jairzinho, ambos com 9.

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A FINAL:

O fato de ter chegado à decisão chamou a atenção de todo o Brasil, já que apenas times de São Paulo tinham conseguido tal feito. Na primeira partida, no Mineirão, o Cruzeiro venceu por 4×1, com gols de Nelinho, Palhinha (2x) e Valdo. Na volta, disputada no Monumental de Nuñez, a equipe argentina deu o troco e venceu por 2×1, o que foi a única derrota do Cruzeiro na competição. Para definir o campeão, foi necessário um terceiro jogo, em campo neutro.

O estádio Nacional, no Chile, foi o escolhido. A torcida local decidiu apoiar o Cruzeiro, mas os argentinos também tinham torcida – segundo a imprensa da época, mas de 10 mil torcedores millonarios viajaram até o Chile para alentar sua equipe. Se por um lado Zezé Moreira ganhava a torcida local como reforço, por outro tinha o desfalque de Jairzinho, vice-artilheiro do time até ali, com 9 gols. Para substituí-lo, Ronaldo, titular em 1 de 4 jogos em que atuou, foi acionado. Até a final, só havia balançado as redes uma vez.

O jogo foi equilibrado e só foi decidido no final da segunda etapa, quando o placar apontava um 2×2. O River Plate havia chegado ao empate após tomar um 2×0. Palhinha e Joãozinho eram quem seguravam a bola no ataque, já que, depois de conseguir o empate, os argentinos se lançaram para conseguir a virada. Mas aos 42 minutos do segundo tempo, Palhinha sofreu uma falta na entrada da área. Enquanto Nelinho e Palhinha decidiam qual dos dois iria executar a cobrança, Joãozinho, na malandragem, agiu mais rápido, encobriu os oito argentinos da barreira e colocou no ângulo do goleiro Landaburu. A atitude “irresponsável” do “Bailarino Azul”, segundo o técnico Zezé Moreira, deu o primeiro título do país desde o Santos de 63, com Pelé e Cia, quebrando uma hegemonia argentina de uma década.

“Aquela falta estava mais para o Nelinho, era uma posição onde gostava de bater. Mas eu estava discutindo com ele para que ele rolasse para o Palhinha, que ficaria sozinho na área, já que todos estavam preocupados com o chute. Já havíamos tomado um gol assim. Mas quando estávamos debatendo, o Joãozinho chegou e bateu a falta. Que que a gente vai fazer? Ele fez o gol! Foi uma felicidade e ao mesmo tempo uma irresponsabilidade”, contou Piazza em entrevista ao site da ESPN.

A cobrança de Nelinho tinha grandes chances de entrar. O lateral, que mais parecia atacante, já tinha feito um belo gol da entrada da área e outros quatro na competição. Palhinha também pegava bem na bola e era o artilheiro da competição, e confiança não faltava ao atacante. Mas não seria tão épico como devolver o gol da virada na mesma moeda do empate argentino – que fez o 2×2 em rápida cobrança de falta, pegando o goleiro Raul e todo o sistema defensivo desprevenido.

Hoje, 39 anos depois, o Cruzeiro já aumentou sua coleção de troféus, com três Campeonatos Brasileiros (2003, 2013 e 2014), outra Libertadores (1997) e quatro Copas do Brasil (1993, 1996, 2000 e 2003), além de outras várias conquistas. No entanto, aquela taça, em 1976, além de expandir a marca celeste pelo Brasil e o mundo, serviu também para coroar o histórico esquadrão azul e branco.

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Projeto de jornalista, mineiro, 20 anos. Viu que não tinha muito futuro dentro das quatro linhas e resolveu trabalhar dando seus pitacos acompanhando tudo relacionado ao futebol, principalmente quando a pelota rola nas canchas dos nossos vizinhos sul-americanos. Admirador do "Toco y me voy" argentino, também escreve no Sudaca FC e tem Riquelme e Alex como maiores ídolos.