Tático e “eletrizante”, Paysandu mira volta à Série A

Brigar pelo acesso. É essa a missão que o Paysandu de Dado Cavalcanti enfrenta. O técnico conversou com o DPF

Fotos: Fernando Torres/Paysandu

Fotos: Fernando Torres/Paysandu

Terça-feira, 18h00, Belém do Pará. Milhares de trabalhadores largam apressados, a meia hora de um compromisso inadiável. Com toda a correria desse horário ingrato, o Mangueirão recebeu mais de 30 mil torcedores que assistiram a uma convincente vitória do Paysandu sobre o Atlético-GO, por 2 a 0. Temporariamente, o resultado serviu para colocar o time na liderança do campeonato. O tempo no posto foi curto – acabou com a goleada do Botafogo sobre o Sampaio Corrêa, na sexta-feira seguinte. Mas, a perspectiva de um clube paraense na elite nacional em 2016 segue bastante considerável.

O Bicolor vem se mostrando um dos times mais competitivos na atual edição da Segundona. O clube vem orbitando o G-4 desde a 5ª rodada. Já bateu adversários como Ceará e Santa Cruz, e também já se provou, com vitórias sobre ABC e Boa, capaz de apresentar um bom futebol longe de sua presente torcida. Méritos para o ímpeto criativo – e goleador – de Yago Pikachu. Para a segurança do sistema defensivo. Para a presença constante da torcida. E também, é claro, para o trabalho de Dado Cavalcanti, que mais uma vez se prova um técnico capaz de implementar um padrão tático marcante em sua equipe.

Técnico foi apresentado no Paysandu no início do ano e demorou a conseguir resultados (Foto: Fernando Torres/Paysandu)

Técnico foi apresentado no Paysandu no início do ano e demorou a conseguir resultados (Foto: Fernando Torres/Paysandu)

É esse, aliás, o maior destaque da equipe, de acordo com Nilson Cortinhas, setorista do Papão no jornal O Liberal, de Belém. “Não tem nenhum cara diferenciado. É um time bem organizado coletivamente falando, que vem dando certo. Conquistou sete vitórias em onze possíveis. Nesse momento, é uma campanha para acesso”, calcula. O que é exatamente o objetivo do clube no campeonato. Quem conta é o próprio Dado, em entrevista exclusiva ao Doentes por Futebol. “A nossa meta aqui sempre foi o acesso, mas dentro da nossa filosofia de pés no chão. Fazer com que o clube sempre brigasse na primeira página da tabela”, revela o comandante.

Início complicado

No primeiro semestre, trabalho de Dado Cavalcanti não deu resultados (Foto: Fernando Torres/Paysandu)

No primeiro semestre, trabalho de Dado Cavalcanti não deu resultados (Foto: Fernando Torres/Paysandu)

Natural de Arcoverde, Pernambuco, o técnico chegou ao Paysandu após uma rápida passagem pelo Ceará. A adaptação ao clube e a cidade não foi imediata. “Os primeiros meses aqui foram um pouco difíceis”, relembra. Dentro de campo, o time demorou a encaixar. No Estadual, eu tive mais dificuldade do que na Série B. Eu não montei a equipe, cheguei com a equipe pronta. E a introdução da minha metodologia de trabalho, dos meus princípios de treinamento, aconteceu muito mais pela boa vontade e pela disposição dos jogadores”, ressalta.

Essa lentidão na habituação de Dado à vida em Belém se deu principalmente porque os resultados também demoraram a aparecer. Não vieram a tempo no Campeonato Paraense. fMas à direção do clube, não faltou convicção no trabalho do técnico. “Por incrível que pareça, eu saí muito fortalecido. Com bastante autonomia de fazer indicações, buscar contratações, trazer jogadores dentro do perfil que eu gosto de trabalhar”, lembra, espantado.

Arrancada

Com o início da Série B, o futebol do Papão se consolidou e firmou o time no pelotão de cima da tabela (Foto: Fernando Torres/Paysandu)

Com o início da Série B, o futebol do Papão se consolidou e firmou o time no pelotão de cima da tabela (Foto: Fernando Torres/Paysandu)

Por causa desse primeiro semestre ruim, os prognósticos não eram tão otimistas antes do Brasileiro. “Muita gente apontou o Paysandu como um provável rebaixado”, recorda o técnico. Mas o que se viu foi um desempenho radicalmente diferente: após um início claudicante, com duas derrotas nas duas primeiras rodadas, o time engrenou e engatou uma sequência de oito jogos sem derrota, encerrada apenas na 11ª rodada, com a derrota para o Bahia, na Fonte Nova. A essa altura, a percepção do momento do Papão já era outra: uma equipe de defesa sólida – a segunda melhor da Série B – e competente no ataque.

É esse o time que já construiu uma ótima impressão na imprensa local. Uma equipe segura do que quer em campo, e que se esforça para jogar um bom futebol. “Não tem lançamento, chutão. É sempre aproximação e toque de bola, com passes de primeira”, analisa Cortinhas. O desempenho também já conquistou a torcida, que vem chegando junto. “Ela já comprou a ideia. Só de sócio-torcedor, já tem 16 mil. O programa teve até que parar porque já extrapolou a capacidade da Curuzu (casa do Paysandu). Todo jogo dá no mínimo 15 mil pessoas”, relata o jornalista.

Lateral elétrico

Ídolo da torcida e prata da casa, Yago Pikachu é a grande referência desse Paysandu que surpreende (Foto: Fernando Torres)

Ídolo da torcida e prata da casa, Yago Pikachu é a grande referência desse Paysandu que surpreende (Foto: Fernando Torres)

Apesar de ser uma equipe marcada pelo forte padrão tático, o Paysandu tem um talento individual que vem brilhando intensamente ao longo dessa trajetória de sucesso. Nas palavras de Dado Cavalcanti. “É um jogador que sabe o que faz com a bola, não se aperta em jogo nenhum. Mesmo jovem, ele chama a responsabilidade do jogo, isso é importante”. Esse tem sido Yago Pikachu. Na atual Série B, o lateral já marcou cinco dos 55 gols que soma ao longo da carreira. Mostra repertório: vai às redes em cobranças de falta, de pênaltis, em chutes de longe ou em infiltrações no meio da defesa adversária. Assim, já ajudou o seu time a construir alguns dos ótimos resultados alcançados até aqui.

O faro artilheiro do lateral não vem de hoje. Mas segundo Cortinhas, seu grande mérito tem sido obter um maior aproveitamento das oportunidades que surgem. “Ele é um jogador rápido, de toque de bola e velocidade e muito bom finalizador. Tem atacado menos, mas tem sido mais produtivo e decisivo”, analisa. Uma evolução que também tem o dedo do treinador. “Ele tem melhorado muito no aspecto tático, contribuído mais com os companheiros. Eu percebo essa evolução desde o Estadual para agora, e isso tem ajudado mais o Paysandu”, enfatiza Dado.

Parte dessa evolução tática se deu na forma de um maior cuidado na marcação. Mas outra igualmente importante vem aparecendo na hora de escolher os melhores momentos para atacar. Para potencializar esse talento do jovem lateral, o técnico do Papão armou um esquema que favorece suas características. Como ele é um jogador de muita qualidade, você tem que dar liberdade a esse atleta. Fazer com que ele jogue, com que a bola chegue nele. E no nosso padrão de jogo, existe preestabelecida uma situação de cobertura, para liberar um pouco Yago”, explica o treinador.

Casa do Paysandu, a Curuzu é arma quando a intenção é sufocar os rivais (Foto: Serginho Pereira/Flickr Paysandu)

Casa do Paysandu, a Curuzu é arma quando a intenção é sufocar os rivais (Foto: Serginho Pereira/Flickr Paysandu)

Pés fincados

Os gols e a boa forma de Pikachu têm feito a diferença para o Paysandu nessa campanha notável. Que apesar de empolgar os torcedores, ansiosos por retornar à elite nacional, ainda não foi suficiente para tirar os pés de Dado Cavalcanti do chão. “Estamos fazendo uma baita de uma campanha, mas o campeonato está longe de se encerrar. Não tem que comemorar em momento algum porque o feito ainda não aconteceu”, observa.

O discurso é humilde. Mas há uma confiança serena, firme e incontida no sucesso ao final da temporada. Que não existe à toa. É respaldada pelo bom desempenho do time. “Eu vejo um Paysandu muito competente no campeonato”, avalia Dado. “Porém, eu vejo algumas outras equipes mais qualificadas tecnicamente. Eu sou consciente de que nós precisamos melhorar mais. Mas eu vejo o Paysandu forte para brigar. Nós temos o perfil de uma equipe competitiva da Série B, e isso é o mais importante”, conclui o técnico. Ciente das dificuldades pelo caminho. E esperançoso em tornar real, com muita disciplina tática, o sonho de sua imensa torcida.


EXCLUSIVO: Da conversa de Dado com o Doentes por Futebol, nem tudo coube nessa matéria. Por isso, escute a entrevista na íntegra e saiba mais sobre temas como a adaptação dele à cidade, possíveis contratações do Papão, o futuro de Yago Pikachu, o papel das lideranças do elenco na atual campanha, entre vários outros.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.