Tinha que ter sido ele

  • por Victor Mendes Xavier
  • 5 Anos atrás

Em uma das sagas do Homem-Aranha nos quadrinhos, o herói encara Milhar, uma criatura que tinha fixação pelo aracnídeo. Milhar é Carl King, um jovem que engoliu a aranha morta que deu poderes a Peter Parker e se transformou em mil aranhas diferentes. Na tentativa de ganhar mais poderes e tomar o lugar do Homem-Aranha, Milhar assassina diversas pessoas. Uma frase marcou a curta passagem do vilão pelas HQs: “tinha que ter sido eu”. A fala serve para definir a carreira de Alexandre Pato, o “novo Ronaldo”, que hoje em dia nem ao menos passa perto de ser lembrado em uma convocação para a seleção. Isso porque em 2006, quando surgiu no futebol brasileiro, a crítica era quase unânime: a camisa 9 do Brasil seria dele.



A estreia de Pato com o elenco profissional do Internacional foi uma daquelas tardes presentes na recordação de muitos fãs de futebol. Joia das divisões de base do Colorado, o atacante foi a campo no dia 26 de novembro de 2006 para enfrentar o Palmeiras, no Palestra Itália. Pato precisou de apenas um minuto para expor todas as suas qualidades. Ele recebeu na frente e tocou com categoria na saída de Diego Cavalieri. Ao final do jogo, o Inter goleou por 4×1 e Pato teve tempo de balançar as redes mais uma vez e construir o tento de Daniel. No final do ano, conquistou o Mundial de Clubes contra o Barcelona de Ronaldinho Gaúcho jogando de titular.

Era agosto de 2007 quando o Milan o contratou. Até então, existiam três grandes craques à frente dos demais: Kaká, o rei vigente, autor de uma Liga dos Campeões memorável; Cristiano Ronaldo, a ponto de dominar a Europa e desbancar o meia brasileiro; e Lionel Messi, o Maradona do século XXI. Para a imprensa brasileira, o centroavante no futuro lutaria em pé de igualdade contra o trio por uma vaga na premiação dos melhores do mundo. Se a entidade rossonera pagou 20 milhões de dólares por um garoto de 17 anos, não havia sido por casualidade. O Milan depositava todas as suas fichas em Pato para comandar a geração seguinte do Diavolo.

Pato tinha (quase) tudo. O seu diferencial era a agilidade. Ele era aquele atacante flexível, móvel e um físico invejável (pois é…). Com espaços para arrancar, era quase impossível para um marcador, no mano a mano, pará-lo. Imprevisível, tinha um zigue-zague enlouquecedor para qualquer defensor que o enfrentava, pois conseguia mudar de direção com um simples gesto técnico que somente os grandes craques dispõem. De cara para o gol, intimidava o goleiro graças aos seus recursos. Não à toa, marcou gols contra o Real Madrid de Cristiano Ronaldo, o Barcelona de Messi e Guardiola, a Inter de Ibrahimović e Mourinho, a Juventus de Buffon e Del Piero e a Roma de Totti.

Sua versatilidade permitia a Carlo Ancelotti variar o posicionamento de acordo com o sistema tático. Pato era opção para jogar de segundo atacante num 4-3-1-2 (com tendência para o lado esquerdo) ou de único centroavante no 4-3-2-1. Com Massimiliano Allegri, em 2009/2010, descobrimos a versão mais potente do paranaense. Para não tirar Ronaldinho do setor do campo onde mais gostava de atuar, a saída foi deslocar Pato à direita. E o brasileiro se saiu melhor que o esperado, marcando 19 gols na temporada.

Pato tinha talento, físico e gol. O 9 moderno. Dos centroavantes de sua geração, sempre foi tratado pela mídia especializada como o mais especial ao lado de Agüero e Benzema. Mas o corpo não aguentou. As deveras lesões castigaram-no não só fisicamente como mentalmente. Aos poucos foi relaxando, cedendo ao extracampo, tornando a situação incontrolável. O retorno precoce ao futebol brasileiro em 2013 foi a despedida em definitivo da elite daquele que tanto prometeu.

“Sem a bola, ele se movimenta de maneira exemplar. Se o Pato não se tornar o melhor atacante do mundo nos próximos dez anos, a culpa será dele”, dizia Ancelotti. Aos 25 anos, Pato ainda pode se recuperar, embora seja bem difícil. Atualmente, pensar em Pato como titular da seleção brasileira chega a ser piada de mau gosto. Infelizmente. Porque a camisa 9 tinha que ter sido dele.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.