Dezenove anos depois, o continente é novamente Millonario

  • por Gustavo Ribeiro
  • 4 Anos atrás
Foto: Prensa River - Jogadores levantando a taça

Foto: Prensa River – Jogadores levantando a taça

Em 1996, o continente viu um grande esquadrão em ação. Comandado por Ramón Díaz, o River Plate encantou a todos com Sorín, Ariel Ortega, Hernán Crespo, Enzo Francscoli, Marcelo Gallardo e Matías Almeyda em campo. Conseguindo aliar experiência, juventude e um futebol ofensivo, a equipe venceu a Libertadores de 1996, a Supercopa Libertadores 1997, o Apertura 96/97 e o Clausura de 97. Mas os anos seguintes não foram tão vitoriosos, principalmente no cenário internacional, no qual o clube ficou cada vez mais distante dos títulos e viu o rival Boca Juniors conquistar todas as taças possíveis.

Mas na última quarta-feira, em um Monumental de Núñez com 66 mil vozes cantando e gritando os noventa minutos, o River Plate voltou a disputar uma final de Copa Libertadores pela quinta vez em sua história e conquistou sua terceira taça, entrando num seleto grupo de tricampeões junto com Santos, São Paulo, Nacional e Olimpia. A vitória sobre os galáticos do Tigres coroou um elenco que vem ganhando tudo que disputa: levantou a taça do Torneo Final e Copa Sul-americana em 2014 e a Recopa no início deste ano. Nada mal para um clube que há pouco mais de três anos disputava o Ascenso para retornar à Primeira Divisão.

Aliás, do elenco que disputou a Segunda Divisão na temporada 2011/2012 e conseguiu subir de volta à elite, apenas seis jogadores permaneceram e ajudaram o time a conquistar a Copa Libertadores: Carlos Sánchez, Funes Mori, Fernando Cavenaghi, Leonardo Ponzio, Germán Pezzela e Jonathan Maidana

O grupo, que já vinha ganhando títulos e conseguindo se manter na parte de cima da tabela, foi reforçado visando maiores conquistas. Após a parada da Copa América, o River Plate encorpou o elenco para a reta final da Libertadores. Marcelo Gallardo apostou na experiência de Javier Saviola (33) e Lucho González (34) e na juventude de Lucas Alario (22) e Tabaré Viudez (25). Mas nem só de reforços viveu a equipe millonaria, que viu Teo Gutiérrez, um dos artilheiros do time na Libertadores com três gols em oito jogos, assinar contrato com o Sporting.

Dos quatro recém-chegados, os dois menos conhecidos foram os de maior importância para a conquista. O jovem Lucas Alario, que até o ano passado disputava a Segunda Divisão do Campeonato Argentino pelo Colón, não sentiu o peso da camisa e foi o nome do time nos dois jogos da semifinal. O atacante, que assumiu a vaga deixada por Gutiérrez, disputou quatro jogos nessa Libertadores, marcou dois gols e deu duas assistências. Com o gol anotado na final em Núñez, Alario se tornou o quarto jogador mais jovem a marcar em uma final internacional pelo clube, ficando atrás apenas de Maxi López (19), Crespo (20) e Tino Onega (21).

Foto: Conmebol - Lucas Alario, a grande figura na reta final da Libertadores

Foto: Conmebol – Lucas Alario, a grande figura na reta final da Libertadores

O outro reforço que já agradou mesmo com pouco tempo de clube é Tabaré Vuidez. Sonho de Gallardo desde o início do ano, o uruguaio chegou no começo da última janela de transferência e treinou durante um mês à espera de uma vaga para estrangeiros no elenco, que só apareceu após a saída do colombiano Teo Gutiérrez. Em seus primeiros 21 minutos com a camisa millonaria, na partida de volta contra o Guaraní, deu a assistência para o golaço de Alari, que garantiu o empate em 1×1 e a vaga na final.

Outro personagem que merece muitos créditos pela conquista é Marcelo Gallardo. Um dos grandes nomes da equipe que levantou o caneco em 1966, quando ainda era um garoto, Gallardo é um dos poucos que entende bem a filosofia do clube e soube trabalhar de acordo com ela. Desde que assumiu o comando técnico, em 2014, deu o devido valor às categorias de base. Por suas mãos, passaram nomes como Lucas Boyé, Sebástian Driussi, Giovani Simeone, Tomás Martínez, Mammana, Augusto Solari, Kranevitter e Germán Pezzela. Ao todo, comandou o time em 69 partidas, contabilizando 38 vitórias, 24 empates e 7 derrotas e tendo visto seu time marcar 109 gols e sofrer 49. O aproveitamento é de 66,6%.

Aliás, Marcelo Gallardo entrou em uma seleta lista de quem já conquistou a Copa Libertadores como jogador e técnico. “El Muñeco” é o sétimo integrante do rol, que também conta com Humberto Maschio, Roberto Ferreiro, Luis Cubilla, Juan Martín Mujica, José Omar Pastoriza e Nery Pumpido. Gallardo é ainda o segundo técnico a vencer a Libertadores e a Copa Sul-americana, feito que apenas Tite tinha conseguido, e o primeiro a conseguir três títulos internacionais com menos de um ano de trabalho no River Plate.

Foto: Conmbol - Marcelo Gallardo, o mentor do time

Foto: Conmbol – Marcelo Gallardo, o mentor do time

É importante lembrar que o início de Libertadores foi aterrorizante. Nos cinco primeiros jogos na fase de Grupos, foram uma derrota e quatro empates, o que levou o time a chegar à última rodada obrigado a vencer o San José e torcer para o Tigres, já classificado, não perder fora de casa para o Juan Aurich. O River Plate não encontrou dificuldades para aplicar 3×0 na equipe boliviana, e viu o Tigres, na bacia das almas, vencer os peruanos por 5×4 em um dos jogos mais malucos da competição.

Depois, no mata-mata, todos conhecemos o caminho. Nas oitavas, vitória sobre o Boca Juniors, até então o melhor time da competição, com grande confusão e partida de volta sendo encerrada com apenas 45 minutos. Nas quartas, desembarcou no Brasil com a obrigação de reverter um 1×0 no Mineirão e aplicou um baile no Cruzeiro. Na semifinal, derrotou o surpreendente Guaraní, passando sufoco até os últimos minutos da partida de volta.

Esse River Plate não é o mesmo de 2014, quando Gallardo assumiu, que controlava mais o jogo, trocava mais passes, marcava pressão no campo adversário, valorizava mais a posse de bola ofensiva e tinha intensidade em todos os momentos, com ou sem a bola. Após um péssimo início de Libertadores, o time soube encontrar um caminho, adaptando-se ao adversário. Contra o Tigres, por exemplo, no jogo de ida, os comandados de Marcelo Gallardo não se importaram em recuar e jogar no contra-ataque, deixando para propor o jogo apenas em Monterrey.

Com o título do River Plate, o futebol argentino dispara ainda mais na liderança como o país com mais taças da Copa Libertadores (24), superando o Brasil (17) e Uruguai (8). Essa diferença vinha diminuindo, já que o futebol brasileiro chegou a emplacar quatro conquistas seguidas com Santos, Internacional, Corinthians e Atlético Mineiro. Mas agora é o futebol argentino, que viu o San Lorenzo vencer a última edição, que volta a ter dois clubes diferentes ficando com a taça após 29 anos, quando o Argentinos Juniors (1985) e o próprio River (86) conquistaram o continente.

A terceira conquista millonaria demorou 19 anos para chegar, muito mais do que o se imaginava. Apenas Santos (48), Estudiantes (39), Boca Juniors (22) e Cruzeiro (21), tiveram que esperar mais que o River Plate para reconquistar a taça mais desejada do continente. Mas o importante é que o tricampeonato chegou e torcida e jogadores têm apenas que comemorar, porque não se sabe quando virá a próxima.

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Projeto de jornalista, mineiro, 20 anos. Viu que não tinha muito futuro dentro das quatro linhas e resolveu trabalhar dando seus pitacos acompanhando tudo relacionado ao futebol, principalmente quando a pelota rola nas canchas dos nossos vizinhos sul-americanos. Admirador do "Toco y me voy" argentino, também escreve no Sudaca FC e tem Riquelme e Alex como maiores ídolos.