7 mãos (ou mais) e uma polêmica: o novo 7×1 do futebol brasileiro é a arbitragem

Bastaram (muitos) erros de arbitragem para que todos os programas esportivos da TV e redes sociais esquecessem os vários ótimos jogos que aconteciam no futebol brasileiro para discutir mais os juízes e suas interpretações. Mais que isso, iniciou-se uma discussão sobre um possível complô a favor do Corinthians e/ou contra o Atlético Mineiro. Mas, afinal, o que é verdade e o que é balela em todos essas reclamações?

1 x 0 – São Paulo x Corinthians

Tudo começou no Majestoso, no Dia dos Pais, mas em um lance que hoje é subestimado. Em uma jogada normal,  o zagueiro Felipe foi expulso por segundo cartão amarelo, em jogada limpa. O São Paulo, que já era melhor, sufocava ainda mais o Corinthians até que, no último lance da partida, Uendel, embora com a mão colada ao corpo, pareceu ter realmente tido a intenção de cortar a jogada (embora ele não tivesse outra posição para pôr o braço, conforme a imagem). Pênalti não marcado para o São Paulo e começo de toda uma discussão, que só pioraria durante a semana.

Corinthians SP

2 x 0 – Corinthians X Sport

A discussão aumentou quando a CBF sorteou um trio de arbitragem paulista para a partida entre Corinthians e Sport, três dias depois. Em um jogaço, outro pênalti definiu o placar, quando o lateral Guilherme Arana teve seu cruzamento cortado pelo braço de Rithely.

No dia seguinte, as discussões ficaram ainda mais fervorosas: a maioria dos corintianos achou que os juízes acertaram nas duas partidas, enquanto os torcedores dos outros times diziam que havia uma conspiração a favor dos paulistas e que teria que ser marcado pênalti para o São Paulo, no domingo, e lance normal no pênalti de quarta-feira. Brotam na TV e nas redes sociais expressões como “movimento natural do corpo” e “aumento da área de contato” para justificar interpretações a favor e contra o lance.

cor sport

3 x 0 – Atlético Mineiro x Grêmio

Horas mais tarde, a confusão aumentou: em jogo entre adversários diretos pelo título, Atlético Mineiro e Grêmio empatavam em 0x0 quando Leonardo Silva finalizou e a bola bateu na mão de Erazo. O juiz nada marcou e irritou Levir Culpi, que chegou a afirmar, em coletiva pós-jogo, que teria sempre “algo por trás”. Na mesma partida, um empurrão de Thiago Ribeiro em Galhardo dentro da área também não foi marcado.

AM Gre

4 x 0 – Atlético Paranaense x Santos

No sábado, a 19ª rodada começou com mais confusão. Na Arena da Baixada, Geuvânio cruzou e Kadu mostrou que o “movimento natural do corpo” em um carrinho não era aquele de Rithely, da quarta-feira. O árbitro entendeu que a jogada era passível de pênalti, perdido por Ricardo Oliveira.

San Apr

5 x 0 – São Paulo x Goiás e Figueirense x São Paulo

No Morumbi, o São Paulo perdia para o Goiás por 3×0 quando Renan Ribeiro derrubou Bruno Henrique na área. O árbitro Marielson Alves da Silva nada marcou. O mesmo São Paulo já tinha feito um gol de pênalti na quarta-feira. Outra bola na mão, de Marcão, em chute de Breno após confusão na área. Resumo da semana para o tricolor paulista: um pênalti marcado a favor, um pênalti não marcado a favor e um pênalti não marcado contra.

SP

6 x 0 – Palmeiras x Flamengo

Nesse domingo, 16 de agosto, a polêmica já começou pela manhã, com o jogo mais difícil para a arbitragem. Logo aos 3 minutos, Pará sofreu entrada de Girotto dentro da área e o juiz nada marcou. Os flamenguistas reclamaram ainda de um suposto pênalti em Guerrero, que teria que gerar expulsão para Fernando Prass, enquanto os palmeirenses reclamaram de um pênalti de Samir (mão na bola) e de falta de Ederson no gol da virada dos cariocas, no início do segundo tempo.

Fla Pal

7 x 0 – Fluminense x Figueirense

O lance mais fácil dentre os “mão na bola” e “bola na mão” da semana foi o de Marlon, do Fluminense, já que o próprio jogador assumiu o erro em entrevista.

Flu

7×1 – O Complô

No restante do domingo, a discussão sem sentido ficou ainda mais chata porque, mais uma vez, Corinthians e Atlético Mineiro foram envolvidos em confusões.

À tarde, o Corinthians foi pivô de polêmica a seu favor, quando a bandeirinha catarinense Nadine Bastos assinalou impedimento quando Jéci colocou a bola na rede. O lance é dificílimo e, pela imagem abaixo, parece que o jogador do Avaí está um pouco à frente (o pé) do último defensor corintiano. Até agora, o único tira-teima que vi, circulando na internet, claramente mostra uma linha torta, então continuo achando que o lance foi anulado corretamente.

Cor Avai

Para encerrar a noite, o Atlético Mineiro foi prejudicado na derrota para a Chapecoense. Ainda no primeiro tempo, Leonardo Silva fez uma falta digna de cartão amarelo, mas levou o vermelho. Na cobrança da falta, Luan se adiantou e o juiz mandou repetir o lance. Como Luan já tinha amarelo, deveria levar o segundo cartão e também ser expulso. Ou seja, o juiz errou duas vezes no lance que veio a gerar o gol dos catarinenses: expulsou injustamente Leonardo Silva e deixou de expulsar Luan.

No segundo tempo, o Galo foi claramente prejudicado. Apodi levou a bola com a mão antes de marcar o segundo gol e sacramentar a vitória da Chapecoense.

Cha AM

Com tantos pênaltis marcados, principalmente em lances de mão na bola, dirigentes atleticanos afirmaram que o Atlético estava sendo prejudicado e “outro time”, no caso o Corinthians, ajudado. A meu ver, tal fato é equivocado, visto que, assim como todas as equipes, os paulistas também foram prejudicados em partidas cruciais, como contra o Santos.

Claramente, porém, erros a favor de Corinthians e Flamengo repercutem mais que os da outras equipes. O exemplo mais claro foram os penais semelhantes marcados em Corinthians x Sport e Atlético-PR x Santos para as equipes paulistas. Embora tenham sido jogadas parecidas, o jogador do Sport levanta a mão, enquanto o do Atlético dá o carrinho com ela no gramado. Os juízes dos dois jogos marcaram penais, sendo que o pênalti do Corinthians foi e o do Santos não. A repercussão do pênalti marcado para o Santos, entretanto, foi nula, enquanto o pênalti marcado contra o Sport motivou até protesto oficial por parte da equipe pernambucana.

Além disso, os erros existem, de forma demasiada, em jogos não correlatos com o Corinthians, e a ruindade (ou impossibilidade de ver todos os lances como na TV) dos árbitros não é exclusividade dos jogos envolvendo a equipe paulista, vide a pequena amostra apresentada na matéria.

Além disso, não faz sentido dizer que um erro em duelo entre o segundo e o terceiro colocados, no caso Atlético Mineiro x Grêmio, é para favorecer o Corinthians. Ora, se os atleticanos acham que os gremistas foram beneficiados, então os gaúchos, e não os paulistas, podem ser acusados de complô a seu favor (claro que não concordo com a hipótese do Grêmio estar sendo ajudado também). Mais que isso: se querem roubar contra o segundo colocado para beneficiar o primeiro, tal “roubo” deveria ser contra qualquer um, menos contra o terceiro colocado, que está colado nos dois primeiros… Tese surreal, em um campeonato no qual ainda restam 19 rodadas a serem disputadas,

Como mudar o placar???

É claro que é necessária uma reformulação da arbitragem brasileira e que os critérios de mão na bola devem ser justos e aplicados por todos os juízes, em todas as situações, independente da equipe. Porém, os clubes se isentam de toda e qualquer opinião sobre o assunto quando são favorecidos, e ficam nesse “mimimi” quando são prejudicados. Dessa forma, sem uma ação séria e verdadeira, nada vai mudar.

Claro que, como em todo o futebol mundial, equipes como Flamengo, Corinthians e São Paulo são beneficiadas, principalmente em casa e contra equipes menores. Cenas de pênaltis inexistentes no Morumbi são tão frequentes quanto os mesmos lances no Maracanã e Itaquerão, basta olharmos com atenção, mas isso não significa que sejam favorecidas por complôs. Ora, os juízes são humanos e na hora em que 40.000 pessoas pressionam é difícil decidir a favor dos visitantes em caso de dúvida. E isso também acontece em jogo do Atlético no Mineirão ou do Grêmio em Porto Alegre, só para ficar em mais dois exemplos.

De nada adianta, a partir da 17ª rodada do campeonato, a mídia e dirigentes ficarem reclamando, se tiveram toda uma pré-temporada de estaduais para exigir também preparação adequada de árbitros. Não adianta o Sport fazer uma campanha contra a CBF e os juízes se seu jogador levanta a mão para cortar a bola em um momento crucial, e isso é pênalti, nas regras do futebol, qualquer que seja a interpretação do juiz.

Se há erros constantes, e há, todos têm sua parcela de culpa: a) mídia, que não cobra de verdade, apenas reclama; b) clubes e jogadores, que passam 4 meses sendo ajudados nos estaduais e por isso até esquecem do assunto arbitragem; e c) CBF e federações, que pouco ligam para o nosso futebol e fingem que está tudo bem.

Sou um daqueles que acham que o futebol brasileiro não está tão atrás dos outros no quesito favorecimento e ruindade da arbitragem, que o digam equipes claramente prejudicadas em temporadas europeias anteriores, como PSG e Málaga. Porém, é hora de algo acontecer, pois preferia (e acredito que outros também) estar ouvindo os 300 programas esportivos diários da ESPN, Fox Sports, Sportv e Bandsports falando da consistência do Corinthians, da queda do Atlético, da subida do Grêmio, do futuro do Palmeiras ou das loucuras do Osório que dos senhores juízes, afinal, isso é futebol, e não Direito.

Algumas observações:

– Parte da torcida do Corinthians reclama que, na primeira cabeçada após a cobrança do escanteio, Tolói estaria impedido. O único vídeo com ângulo que poderia desvendar o suposto impedimento não mostra a posição do último defensor corintiano, mais próximo do cobrador do escanteio, que aparentemente dava condição ao são-paulino.

– O lance de Jéci é dificílimo de ser analisado. Quando digo que o tira-teima apresentado é errado, refiro-me à seguinte imagem. Comparando-a à figura apresentada no corpo principal da matéria, podemos ver que a linha de impedimento não está paralela às da pequena área e grande área, como deveria ser. A linha amarela apresentada é mais inclinada que a da pequena área, então é, claramente, incorreta.

linha cor

– Embora reclame muito da arbitragem, o Atlético foi prejudicado em apenas um ponto durante a semana, pois no jogo contra o Grêmio houve pênaltis não marcados para os dois lados, enquanto na jogada do gol da Chapecoense deveria haver expulsão (de Luan, não de Leonardo Silva). O resultado mais justo, assim, seria o empate, e não a derrota.

– No jogo entre Palmeiras e Flamengo, foram tantas as jogadas duvidosas, para os dois lados, que acredito que, no fundo, o placar acabou sendo justo.

– Alguns argumentam que o pênalti a favor do Goiás não deveria ser marcado pelo fato da equipe já estar vencendo por 3×0. Esse argumento não tem lógica, até porque, se marcado o gol, a equipe paulista seria prejudicada também no próximo jogo (caso Rogério Ceni não pudesse jogar, pois Renan Ribeiro deveria ser expulso), assim como o Corinthians foi com a expulsão injusta de Felipe, que ficou fora do jogo com o Sport, no qual a equipe sofreu 3 gols.

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Sergio Rocha é torcedor do Madureira e sempre teve o sonho de escrever sobre esportes em geral, embora tenha optado pela carreira de engenheiro civil. No "currículo", cadernos recheados de resultados esportivos e agendas da década de 90, quando antes da internet acessava rádios de diversos locais do país buscando os resultados esportivos do Acre à Costa Rica. Além de fanático por futebol, é fanático por praticamente todos os esportes, e no tempo livre que sobra sempre busca os últimos resultados esportivos do PGA Tour ou dos futures da ATP. Além disso, coleciona quadrinhos da Disney e é louco por astronomia.