A maior traição que Rogério Ceni já sofreu em 25 anos de São Paulo

Doeu mais do que levar um soco no meio da cara, sem dúvidas – sim, eu já levei um soco na cara, ali na região do olho, nos tempos de criança, na escola, e sei o quanto isso dói. Mas levar um gol naquelas circunstâncias, naquele momento do jogo, aos 46 minutos do segundo tempo, sem dúvida, foi mais cruel. Aquilo parecia um castigo mesmo! Escutar aquele grito emocionante – e irritante – saindo lá do fundo da garganta dos mais de 85 mil torcedores do Cruzeiro, naquela noite assombrosa de domingo, naquele Mineirão infernal e totalmente contra, foi mais torturante do que levar uma porrada no olho e depois me ver rodeado de gente curiosa, bem no meio do pátio da escola, com todas as criancinhas me olhando com cara de deboche, querendo dizer: olha, aquele menino panaca apanhou.

Mas isso tudo – inclusive a porrada que levei na escola – poderia não ter acontecido. Aquele gol, aquela falta, aquele passe errado no meio de campo, aquela velocidade de tartaruga com cãibra do zagueiro Rogério Pinheiro, aqueles segundos intensos que separaram o pé direito do Geovanni da bola que seria chutada por ele e mais aqueles segundos de arrepiar que a pelota levou até chegar ao seu destino final, naquela inesquecível rede do Mineirão que parecia um caixote, já que ela tinha uns 700 metros de profundidade… Todo esse cenário de terror poderia não ter acontecido. Cara, aquela barreira. Ela não poderia se mexer, ela não poderia abrir, ela não poderia trair Rogério Ceni e todos os são paulinos.

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Geovanni bate a falta, barreira são-paulina faz tudo errado e engana Rogério Ceni; maior traição ao goleiro em 25 anos de história (Foto: Daniel Augusto Jr.)

No dia 7 de setembro de 2015, Rogério Ceni completará 25 anos de São Paulo Futebol Clube. Durante todo esse período como goleiro – e quase presidente nos últimos 10 anos – do clube, Rogério já passou por poucas e boas, ou, para ser mais respeitoso com o vocabulário do futebol, já teve muitos altos e baixos – muito mais altos, vai. O cara já defendeu chute no ângulo do mito Steven Gerrard, o M1TO já cansou de fazer gol no goleiro Fábio, já foi bicampeão da Libertadores, bicampeão mundial, e por aí vai, e vai, e vai, e vai. Mas Rogério Ceni também já sofreu muitas vezes na mão do Corinthians, já sentiu o gosto amargo de visitar a chapelaria do Alex10, já tomou um gol no último lance em uma semifinal de Libertadores contra o Once Caldas – de um jogador dopado! – e, acreditem, Ceni já chegou a ser até proibido de cobrar faltas em 1998 pelo técnico Mário Sérgio, além de ser acusado ao vivo por uma jornalista de ter falsificado assinatura para jogar no Arsenal da Inglaterra.


Mas, mas… Nada, absolutamente nada, acredito eu, nada mesmo, tenha traído tanto a confiança do ídolo Rogério Ceni, durante todos esses 25 anos de São Paulo, como aquela barreira esburacada da final da Copa do Brasil de 2000. Naquele momento, final de campeonato, 46 minutos do segundo tempo, título inédito na mão, se fosse possível, o certo seria empilhar um jogador em cima do outro na frente do gol, colocar o técnico Levir Culpi deitado atrás da barreira – esburacada – para evitar ser surpreendido com uma cobrança por baixo, enfim. Ali, cara, valia tudo – menos dar a… dar a… é, o Gil sabe bem -, menos deixar a bola passar por baixo da barreira, menos ficar com medo de levar bolada e deixar a bola passar por baixo. Levantaram a perna na hora da cobrança, Geovanni bateu forte e a bola passou por baixo daquilo que chamaram de barreira. Teve jogador que virou de costas, meu, inacreditável. Aquela barreira traiu Rogério Ceni, a maior traição que o goleiro já sofreu em 25 anos de clube.

Após o gol, enquanto Geovanni corria com aquela camisa larga e linda do Cruzeiro para abraçar os acalorados torcedores da Raposa, naquele Mineirão inesquecível – mas que me dava medo -, só restou a Ceni se ajoelhar, colocar as mãos no rosto e se questionar: “O que eu fiz de errado para ser traído desse jeito? Eu fiz tudo certinho, papai Telê. Coloquei um ao lado do outro, da mesma forma que o titio Valdir de Moraes me ensinou lá em 1992, quando eu ainda tinha cabelo e somente 19 aninhos de idade. Posicionei cada um dos corajosos que não tinham medo de levar bolada naquela barreira – esburacada, repito – e pedi a eles atenção, atenção, muita atenção. Mas não. Foi tudo em vão. A barreira me traiu, a maior traição que já sofri em 25 anos de São Paulo Futebol Clube”.

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Geovanni olha, analisa, ajeita a bola, e pensa: “vamos lá, barreirinha, eu sei que você pode trair Rogério Ceni” (Foto: Reprodução)

Depois daquela final de 2000, o São Paulo nunca mais chegou à decisão da Copa do Brasil. O clube já ganhou praticamente tudo no Brasil e fora dele, e Rogério Ceni já enfrentou até problemas sérios no ombro de tanto levantar troféus. Até o Torneio Rio-São Paulo, cujo título o São Paulo não tinha, virou realidade em 2001. Mas a Copa do Brasil, o título que já foi parar nas mãos de Grêmio, Cruzeiro, Santos, Corinthians, Palmeiras, Flamengo, Atlético-MG, Santo André, Paulista, entre tantos outros clubes, nunca foi parar nas mãos de Rogério Ceni. Talvez seja o único título de importância que o goleiro nunca conquistou pelo time do Morumbi.

Aquelas mesmas mãos que ordenaram para que aqueles jogadores ficassem com coragem, de forma correta, estáticos, duros, igual brincadeira de estátua, sem realizar nenhum movimento errado e atentos naquela barreira – esburacada – do dia 9 de julho de 2000, ainda não ergueram uma taça da Copa do Brasil. Rogério Ceni irá encerrar a carreira em dezembro desse ano. Ou seja, ainda dá tempo de ser campeão da Copa do Brasil em 2015. Isso, claro, se nenhuma barreira esburacada decidir fazer alongamento com as pernas em plena final de campeonato – e aos 46 minutos do segundo tempo, para ajudar mais – e repetir aquela tragédia de 2000, aquela que é, para mim, a maior traição que Rogério Ceni já sofreu em 25 anos de glórias pelo São Paulo Futebol Clube.

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Jornalista esportivo. Blogueiro na Gazeta Esportiva.com e colunista no Doentes por Futebol e Sportskeeda.com. E-mail: [email protected]