A página 407: Machado e sua meia dezena

Gosto de Machado de Assis, mas o livro que estou lendo é de outro Machado.

É uma história e tanto: o cenário é uma cidade dividida por um rio. Uma metade dela se encontra no lado sul; a outra, no lado norte. Participam inúmeros personagens, percorrendo os séculos, com biografias gritantemente heterogêneas que, de uma maneira ou outra, terminam se encontrando. As trocas entre eles são inflamantes, os diálogos são fronteiriços, sempre baseados na calma e na fúria. Poderia, sem pestanejar, ser um filme do Tarantino, houvesse um banho de sangue em qualquer instante.
É um livro no qual as narrativas beiram o realismo mágico. Porém, o momento mais surreal aconteceu justamente na sua última página: a 407.

Como falei, diversos personagens participam do enredo. Quisera eu falar sobre todos! Limitar-me-ei, no entanto, a tecer relatos sobre meia dezena deles – número escolhido ao acaso, naturalmente. Também não hei de revelar seus nomes – a fim de que o caro leitor não me critique por presentear spoilers – apenas os citarei por números, novamente escolhidos aleatoriamente.

NÚMERO 1

O número 1 é o que há mais tempo peleia na narrativa, buscando o desejado lugar ao sol. Após muitas batalhas, desastres e glórias, conquistou-o. Tal personagem é um homem, cujo filho, na página 407, viverá pela primeira vez o dia dos pais. A criança assiste, mesmo que sem entender, à ilustre eminência do progenitor, desfilando pela maior arena da cidade, incólume. Ele tem consciência que o filho, cujos pensamentos têm cor de água, não se lembrará desse episódio. No entanto, tem certeza que aquele bebê sentirá orgulho até o fim dos seus dias, pois o pai acabara de entrar para a história.

NÚMERO 7

Tratando-se de crianças, temos o personagem número 7, um jovem guerreiro, vivaz e órfão que há 2 anos entrou no enredo, mas alcançou protagonismo de maneira impressionante. Por anos a fio cultivou o sonho de ter uma estrutura familiar para poder mostrar ao mundo o que é capaz. Depois de muitas portas fechadas na cara, ele finalmente encontra alguém que o abraça. No entanto, nem tudo são flores. A relação com a nova família é de altos e baixos, até o presente ano, quando tudo se acalma. O menino ainda leva no rosto o sofrimento de primaveras passadas e as cicatrizes da vida. Na página 407, contudo, é ele quem provoca a outrem – no caso, alguém do lado sul que teve o denodo de rejeitá-lo – uma dor que há séculos não se via e, assim, deixa claro ao mundo todo seu potencial.

NÚMERO 15

Ainda em termos de sofrimento, há o personagem número 15. Experiente jagunço, passou temporadas protegendo uma família que vivia no lado sul da cidade e que com ele alcançou glórias inimagináveis. Todavia, com o passar do tempo, adotaram rumos distintos. Hoje, anos depois, esse guerreiro vive do lado norte, protegendo outro brasão e, ainda que se acreditasse que a ele apenas restasse a ruína ou a morte, ele ressurge das cinzas. Na página 407, o velho cangaceiro conquista, segundo suas próprias palavras, “sua maior glória”.

NÚMERO 8

Sobre a glória, há um personagem que tem muito a dizer. Refiro-me ao número 8, promissor pintor que nasceu no lado sul da cidade. Desde jovem tendo seu trabalho reconhecido, não era complicado constatar a habilidade nos seus traços, a fúria na sua arte. A explosão em cada pincelada. O futuro brilhava e lhe abria portas, por isso, rumou alhures em busca da redenção. Destinou-se ao além-mar, cogitando sucessos maiores. Porém, a chama de seu talento não suportou o frio do novo mundo. Teve de voltar e, ao fazê-lo, cruzou o rio e refugiou-se no lado norte da cidade. Na página 407, desenhou sua mais linda pintura. E nem usara sua mão mais habilidosa. Havia, enfim, encontrado a redenção.

NÚMERO 10

Não faltavam, no entanto, pedras no caminho, as quais sentiu com seus próprios pés o personagem número 10, o primeiro a ter a chance de colocar seu nome na história, na página 407. O escritor, ermitão, tendo a chance ao seu alcance, falhou redondamente. Artista cujas obras sempre retratavam as relações, conectando pessoas, decidiu voltar à civilização. Afinal, seu talento estava no coletivo e não poderia escrever as mais belas tramas sozinho. Não deixou o erro abalá-lo e, ao fim da página 407, pode, junto aos outros personagens, deixar seu nome na história.

Juntos, todos esses protagonistas alcançaram uma glória que há mais de um século não era vista. Metade da cidade subiu ao céu e outra, desceu ao inferno. É custoso fantasiar que algo como isso se repita noutro lugar.

MACHADO

Em relação à obra, é o primeiro livro desse autor que leio, e a história é deveras extraordinária. Escutei por essas bandas que em breve haverá uma continuação e logo saberemos se, aos protagonistas de Machado, estarão reservadas novas e maiores conquistas.

Esperemos o desenrolar dos próximos capítulos.

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Antropólogo, fanático por relações internacionais, direitos humanos, literatura e, óbvio, Doente por Futebol. Além de colunista para o DPF, escrevo para o fã clube Borussia Dortmund Südbrasilien e no projeto latinoamericano Goltura Futebol. Jogo de segundo volante.