As estratégias do Watford para permanecer na Premier League

  • por Lucas Sousa
  • 4 Anos atrás

Chegar à primeira divisão de um campeonato europeu é sempre um grande feito. A visibilidade aumenta, o caixa fica mais gordo, os estádios mais cheios e alguns dos maiores jogadores do mundo serão os novos adversários. Porém, permanecer neste cenário é um processo muito mais difícil. Esta é a nova jornada do Watford.

Foto: Watford FC - "Nossa hora é agora", Watford empolgado no retorno à Premier League

Foto: Watford FC – “Nossa hora é agora”, Watford empolgado no retorno à Premier League

Após oito temporadas na Championship, os Hornets estão de volta à Premier League, que os recebe com um retrospecto pouco favorável: desde o início dos anos 2000, em apenas duas ocasiões, as equipes que conseguiram o acesso não estiveram entre os rebaixados na temporada seguinte. O Watford experimentou esse “bate e volta” duas vezes, em 1998/1999 e 2005/2006 os Hornets subiram à primeira divisão através dos play-offs, mas foram os últimos colocados nas temporadas seguintes. Para a história não se repetir em 2015/2016, o time do sul da Inglaterra aposta em estrangeiros, na experiência dos seus atletas e no seu proprietário, Giampaolo Pozzo, dono de três clubes.

A Premier League já era a liga mais rica e globalizada do mundo. A assinatura de um novo acordo dos direitos de transmissão para os próximos anos acentuou ainda mais essas características. Agora, os times pequenos e médios da Inglaterra têm muito mais dinheiro que os de mesmo porte de outras ligas, o que proporciona aos ingleses a oportunidade de buscar bons jogadores em outros países. E o recém-promovido Watford não foge à regra. Até aqui, foram dez jogadores contratados, cada um de uma nacionalidade diferente: Sebastian Prodl (Áustria), Giedrius Arlauskis (Lituânia), Matej Vydra (República Tcheca), Jose Holebas (Grécia), Etienne Capoue (França), Valon Behrami (Suíça), Allan Nyom (Camarões) Miguel Britos (Itália), José Manuel Jurado (Espanha) e Steven Berghuis (Holanda).

Com as caras novas, os Hornets somam 27 jogadores em seu elenco, sendo apenas quatro ingleses. Na partida de abertura da temporada, contra o Everton, o time foi a campo com 11 nacionalidades diferentes: Gomes (Brasil); Nyom (Camarões), Prodl (Áustria), Cathcart (Irlanda do Norte), Holebas (Grécia); Anya (Escócia), Capoue (França), Behrami (Suíça), Layún (México), Jurado (Espanha); Deeney (Inglaterra). Dentre os que entraram no decorrer do jogo, estavam um inglês (Watson), um nigeriano (Ighalo) e um equatoriano (Paredes). Treze nacionalidades entre os 14 jogadores que vestiram amarelo no retorno à primeira divisão, uma bela amostra da globalizada liga inglesa.

Foto: Watford FC - Com time experiente, Hornets empataram em Goodison Park

Foto: Watford FC – Com time experiente, Hornets empataram em Goodison Park

Mais importante do que o local de nascimento do atleta, é o costume com a liga. Alguns estrangeiros jogam desde jovens na Premier League e já estão acostumados com o ritmo alucinante das partidas. Contudo, entre os dez contratados pelo Watford, apenas Capoue, Behrami e Vydra já atuaram na primeira divisão do país. A adaptação ao futebol inglês costuma ser complicada e é comum ver bons jogadores demorando a se acostumar com tamanha intensidade (e até mesmo não conseguindo). Para não sofrer esse baque, o Watford vai tentar compensar sua legião de novatos com a experiência.

Em um time que acabou de ascender à liga mais disputada do planeta, contar com jogadores experientes é fundamental. Na maioria das partidas o Watford não será o favorito e deve sofrer bastante sempre que jogar fora de casa. Os 38 jogos serão importantes na caminhada pela permanência e o equilíbrio emocional dos atletas será testado a cada rodada. Não dá para imaginar um time repleto de garotos conseguindo bons resultados nesse cenário. Por outro lado, se não estão acostumados com a Premier League, os jogadores do time amarelo ao menos têm uma boa rodagem no futebol.

Na primeira partida, a média de idade dos jogadores que empataram com o Everton em Goodison Park era de 28,3 anos. A média do elenco é um pouco inferior: 27,4. De acordo com o site oficial da Premier League, apenas três atletas têm 23 anos ou menos: o zagueiro Tommy Hoban (21) e os atacantes Matej Vydra (23) e Steven Berghuis (23). Definitivamente, os garotos não têm espaço no atual momento dos Hornets.

Foto: Watford FC - Quique Flores, treinador dos Hornets

Foto: Watford FC – Quique Flores, treinador dos Hornets

Mas essa experiência não diz respeito somente à idade. Alguns desses jogadores tiveram passagens relevantes por seleções ao longo de suas carreiras. O goleiro Gomes (Brasil) esteve nas Copas das Confederações de 2005 e 2009 e na Copa do Mundo de 2010, embora não tenha feito nenhuma partida. Allan Nyom (Camarões), lateral direito, enfrentou o Brasil no último Mundial e Essaid Belkalem (Argélia) também defendeu seu país nos gramados brasileiros. Juan Paredes (Equador), José Holebas (Grécia), Miguel Layún (México) e Valon Behrami (Suíça) jogaram todas as partidas de suas seleções na Copa de 2014, sendo que os três últimos chegaram às oitavas de final. O treinador, Quique Sánchez Flores, de 50 anos, também estreia na competição, mas carrega passagens por Atlético de Madrid, campeão da Liga Europa e Supercopa da UEFA, Valência e Benfica. Mesmo que não estejam no melhor momento de suas carreiras, são nomes interessantes para ajudar o Watford e seu dono a continuarem fazendo história.

Giampaolo Pozzo, proprietário do Watford, se tornou o primeiro homem a ter três times na elite do futebol europeu em três ligas diferentes. Além dos ingleses, o bilionário também comanda a Udinese, da Itália, e o Granada, da Espanha. Para alcançar esse êxito, Pozzo investiu numa invejável rede de contatos e olheiros para conseguir bons jogadores por um preço acessível aos padrões do clube. Dessa forma, encontrou Amoroso, Samir Handanovic, Fábio Quagliarella, Alexis Sánchez, Juan Cuadrado e Yacine Brahimi, todos com passagens por grandes clubes europeus.

No entanto, o mais interessante é o revezamento de jogadores entre os clubes. Para que os elencos de Granada, Udinese e Watford sejam competitivos, alguns atletas saem de um dos três times de Giampaolo para reforçar outro. Na atual temporada, Nyom, que estava na Espanha, e Vydra, antes emprestado pelo clube italiano, assinaram em definitivo com os Hornets. Na temporada passada, Ighalo (Udinese), Layún (Granada) e Paredes (Granada) também entraram no rodízio e chegaram ao clube inglês. Por ser a liga com maior visibilidade e poder de valorização de atletas, Pozzo concentrou alguns de seus principais nomes no Watford e não será surpresa se eles renderem ao bilionário italiano algumas boas libras ao final do campeonato.

Foto: Watford FC - Allan Nyom, do Granada para o Watford

Foto: Watford FC – Allan Nyom, do Granada para o Watford

Com jogadores rodados e experimentados em suas seleções e um dono que faz rodízio de atletas entre seus clubes, o Watford inicia sua caminhada para permanecer na liga mais rentável e competitiva do mundo. O empate fora de casa contra o Everton (levando um gol aos 41 minutos do segundo tempo) foi a mostra de que os Hornets devem incomodar ao longo da competição. Nas próximas seis rodadas, o time terá quatro jogos em casa (West Bromwich, Southampton, Swansea e Crystal Palace) e duas viagens complicadas (Manchester City e Newcastle). Não existe vida fácil na Premier League, e o novato Watford também quer provar isso para os seus adversários.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.