Conhecendo o futebol de Nolito

  • por Victor Mendes Xavier
  • 5 Anos atrás

Começar um texto analítico manifestando uma opinião talvez seja um erro. Condiciona logo de entrada o leitor e revela os sentimentos do autor. Mas irei arriscar: durante a temporada 2014-2015, poucos jogadores me fascinaram tanto quanto Nolito, o enérgico extremo-esquerdo do Celta de Vigo. A cria de La Masia, que chegou a jogar, inclusive, como titular no histórico Barcelona de Guardiola, não para de evoluir e completou uma Liga Espanhola de elite no último semestre. Se havia dúvidas quanto à sua real capacidade, hoje, 21 de agosto de 2015, não há mais: Nolito é um excelente jogador e tem que ser convocado para a seleção espanhola.

Vamos começar a análise de um atacante falando de sua faceta defensiva. Desde o início do projeto, o Celta de Berrizo teve picos bielsistas que impunham ao adversário uma marcação-pressão selvagem. No último duelo contra o Barcelona, os celestes adiantaram as linhas de maneira sufocante, de forma que, quando não conseguiam recuperar a bola no campo de defesa barcelonista, davam espaços a Messi conduzir no meio. As pernas frescas de Nolito impactaram e foram um dos fatores do sucesso dessa pressão viguense. Isso porque, principalmente pelos lados, o ponto-chave do pressing do time do Balaídos era criar uma “jaula” para o rival, onde se juntavam lateral, ponta e volante. Na transição defensiva, diferentemente de outros jogadores exteriores como Gareth Bale, o espanhol sabe fechar sua posição de maneira paciente para complicar a vida de quem conduz a bola.

nolito 1
Não é difícil definir o estilo de jogo de Nolito. Pelo contrário: ele é um ponta e está obrigado a ser escalado bem aberto, gerando profundidade (foto acima). Berrizo foi muito feliz ao criar um sistema que privilegiasse o drible e a finalização do espanhol. Nolito recebe muitas bolas na linha lateral, mas, principalmente quando o Celta contra-ataca, está sempre próximo à área para concluir ou encarar o zagueiro adversário no um contra um (foto abaixo). O time do chileno constrói ataques sempre muito verticais e permite ao andaluz estar sempre no mano a mano. Quando ele vem trazendo a bola de trás entrando na área, gera pânico em qualquer sistema defensivo.

nolito 2
A temporada 2014/2015 trouxe Nolito em sua versão mais criativa. Seu leque de variações de jogadas foi diversificado e o tornou mais letal. Prova disso estão nos números: foram 13 gols e 13 assistências ao longo da Liga Espanhola. Coisa de gente grande. Com Orellana e Krohn-Delhi ao lado, Nolito foi o representante máximo do Celta que driblava, mas também criava com naturalidade. Dessa forma, ele pôde muitas vezes sair de sua amada ponta rumo ao meio para finalizar jogadas de linha de fundo (foto abaixo).

nolito 4
No Celta do último terço do campeonato, descobrimos um Nolito mais maduro. Já postado no 4-2-3-1, a linha de três galega tinha Orellana criando entre linhas e Santi Miña correndo em diagonal pela direita. O cenário era o seguinte: o Celta atacava saindo jogando desde a defesa e Nolito permanecia aberto. Quando Krohn-Delhi ou Augusto Fernández cruzavam a divisória, o 10 iniciava sua partida ao centro. Tomar decisão em estático não é sua principal característica. Por norma geral, seu futebol interior nasce chegando desde fora. Não obstante, ao receber liberdade de movimentos de Berizzo, Nolito por vezes mostrou deslocamento de centroavante (foto abaixo). Nada que não se possa compreender. Sua capacidade de marcar gols e se desmarcar foram muito bem aproveitadas pelo comandante sul-americano. Caindo às costas do zagueiro, aumentou sua produtividade e ajudou o time.

nolito 3
Sua agressividade rumo ao gol é de magnitude estelar. Bom lançador de bolas paradas, tem um drible eficiente, é veloz, joga de cabeça erguida e possui uma finalização top entre os jogadores dos times coadjuvantes na Liga. Diante do goleiro, resolve com confiança absoluta. Seu jogo é assim. Vê-lo atuar em um nível tão alto como foi no último campeonato nos causa uma indagação: o que seria do Barcelona se Nolito tivesse recebido mais chances ao invés de Tello e Cuenca nos meses de escuridão com Guardiola, Vilanova e Martino?

Comentários

Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.