Em Itaquera, um barril de pólvora à espera de uma faísca

Arbitragem já é o foco de Corinthians x Sport (Foto: Divulgação)

Arbitragem já é o foco de Corinthians x Sport (Foto: Divulgação)

O jogo entre Corinthians e Sport, nesta quarta-feira, é mais uma das muitas decisões do Campeonato Brasileiro. Dois times do topo da tabela, que fazem em Itaquera um confronto cujo resultado interessa diretamente a outros seis. Esse caráter decisivo cerca de expectativas a partida. Mas um de seus personagens pode terminar como responsável por transformar todas as ânsias das duas torcidas em atos de indignação e contestação. Além, é claro, de fazer crescer ainda mais o nível de descrédito sobre a CBF, que diz se esforçar para transformar o futebol brasileiro, mas insiste em adotar medidas difíceis de explicar.

Luiz Flávio de Oliveira. Nascido em Cruzeiro, interior de São Paulo, é o escalado para apitar o duelo entre paulistas e pernambucanos na Arena Corinthians. Será mais uma partida do Brasileirão em que a CBF vai colocar em prática a ideia de relacionar árbitros do mesmo estado de algum dos clubes envolvidos. Para Sérgio Corrêa, presidente da Comissão Nacional de Arbitragem, a entidade está “quebrando paradigmas” em direção a uma “mudança de cultura”. Mas o que o dirigente enxerga como avanço é algo que está provocando arrepios entre torcedores, jogadores, técnicos e dirigentes de ambos os clubes.

Leão chega a São Paulo após acréscimo de 7 minutos no 2º tempo contra o Furacão (Foto: Atlético/PR)

Leão chega a São Paulo após acréscimo de 7 minutos no 2º tempo contra o Furacão (Foto: Atlético/PR)

Desde o momento em que ficou sabendo qual seria a escala de árbitros, a diretoria do Sport externou sua revolta. Publicou nota oficial no site do clube e protocolou ofícios nas ouvidorias da CBF e da Comissão Nacional de Arbitragem. O técnico Eduardo Baptista, em participação no Cartão Verde, da TV Cultura, também mostrou grande insatisfação quando perguntado sobre o tema. Nas redes sociais, a torcida rubro-negra, que vê o Corinthians como um time que tradicionalmente conta com a boa vontade dos árbitros, está de cabelo em pé com o que pode acontecer no jogo. Para piorar, circula em vários sites a informação de que Luiz Flávio de Oliveira seria torcedor corintiano.

Mas não é pelo fato do soprador de apito ser paulista que os alvinegros ficaram contentes. A começar pelo técnico Tite, que se pronunciou sobre o assunto. Ele definiu a escolha do trio como uma “insensibilidade” por parte da Comissão. “Há uma série de árbitros importantes de outros estados. Tem de cuidar é do resultado. Desnecessária a pressão que ele vai sofrer. Eu não consigo entender”, afirmou em entrevista coletiva na tarde desta terça-feira. De ambos os lados, todos os olhos já estão absolutamente vidrados não no jogo, mas na arbitragem.

Entre tantos questionamentos, o clima do pré-jogo entre Corinthians e Sport é de desconfiança total. Se Luiz Flávio errar a favor dos donos da casa, a diretoria leonina, que já vem esperneando desde o início da semana, certamente se sentirá lesada e se manifestará, como já prometeu. Se errar a favor dos pernambucanos, os corintianos o acusarão de ter sucumbido à pressão. E considerando que a partida tem tudo para ser muito disputada e tensa, é natural que nela ocorram lances duvidosos, capciosos para o juiz e seus auxiliares.

Timão escapou de um pênalti claro no clássico contra o São Paulo (Foto: Daniel Augusto Jr. / Agência Corinthians)

Timão escapou de um pênalti claro no clássico contra o São Paulo (Foto: Daniel Augusto Jr. / Agência Corinthians)

Mas digamos que o árbitro paulista tenha uma atuação irretocável na noite desta quarta-feira. Faça o jogo correr sem maiores polêmicas e passe completamente desapercebido em meio a um jogo cheio de gols e lances plásticos. O que garante que outros trios de arbitragem locais não incorrerão em erros decisivos em partidas futuras? Se episódios negativos vierem a acontecer, não importará se Luiz Flávio apitou com maestria o confronto entre Corinthians e Sport. O que virá à tona é a pergunta: qual é a necessidade de se agregar essa carga de pressão a uma atribuição que já é, por si só, extremamente delicada?

Por isso, o duelo desta quarta-feira na Arena Corinthians é um barril de pólvora, assim como todos os outros jogos cuja arbitragem for local. Cada erro, por menor que seja, pode representar uma faísca que fará explodir dúvidas sobre a índole dos árbitros e, obviamente, sobre a boa fé dos responsáveis por organizar nossos campeonatos. Será, então, o futebol marcado pelo paradigma da incerteza. Dominado pela cultura da desconfiança. Sempre com os bastidores em primeiro plano, em detrimento do futebol jogado dentro de campo.

Comentários

Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.