John Stones, a pedra angular da defesa

Nos últimos anos, um dos setores mais fortes e bem compostos da Seleção Inglesa tem sido, indiscutivelmente, a zaga.

INGLATERRA COPA 2006

Embora não tenha conseguido nenhum êxito relevante, o English Team contou com várias estrelas nos últimos 15 anos e o miolo de zaga foi um dos departamentos com maior número de destaques. No passado recente, os Three Lions contaram com figuras da qualidade de John Terry, Rio Ferdinand, Sol Campbell, Jamie Carragher e Ledley King, de forma que ver os ingleses alinharem Gary Cahill, Phil Jagielka, Chris Smalling e Phil Jones na Copa de 2014 assusta.

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Não obstante, vem do Everton a grande esperança de dias melhores para a defesa inglesa:

John Stones

OLHO NELE - STONES

O precoce início

Tudo começou no dia 28 de maio de 1994, às vésperas de uma Copa do Mundo desinteressante para o público britânico, que pela primeira vez, desde 1938, não contou com nenhum representante no torneio. Na referida data, em Barnsley, nasceu John Stones, à época só mais um dentre tantos cidadãos ingleses com um longo futuro e expectativas absolutamente imprevisíveis pela frente.

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Aos oito anos de idade, o pequeno Stones ingressava nas categorias de base do Barnsley e, sob a orientação dos treinadores Ronnie Branson e Mark Burton, o jovem aprendeu e desenvolveu seu estilo futebolístico: o de defender com habilidade técnica para conduzir e passar a bola e boa noção de quando subir ao ataque e iniciar as jogadas de sua equipe. Sobre o desenvolvimento das habilidades de Jones, Burton afirma:

“Ele não foi apressado, nós o desenvolvemos no tempo certo. Na base, tínhamos um bom estilo de jogo e sempre estimulamos nossos defensores a subirem até o meio de campo“.

A respeito de seus tempos como jovem em formação no Barnsley, Stones lembra com carinho:

“Desde meus 16 anos que nós sempre jogávamos tocando a bola desde a defesa e avançando. Nossos adversários nos puseram este rótulo, este estilo semelhante ao do Barcelona, de muita troca de passes. Toda vez que há uma chance de sair tocando desde a defesa, eu acho que encaixa bem no meu estilo, me favorece, e é a melhor forma de se abrir espaços nos adversários”.

Foto: Barnsley FC

Foto: Barnsley FC

No dia 17 de março de 2012, Stones deu seus primeiros passos em uma cancha como profissional. Pouco antes, em dezembro de 2011, o defensor havia assinado seu primeiro contrato profissional de futebol, que lhe garantiu um lugar no time de sua cidade. Curiosamente, o beque contrariou o famoso ditado que diz que “a primeira impressão é a que fica”. O placar negativo de 4×0, contra o Reading, em sua própria casa, não marcou a carreira no atleta.

Na temporada 2011-2012, além de sua fracassada estreia, Stones só voltou a entrar em campo na última rodada da Championship, no empate sem gols contra o Brighton. Vale o adendo de que, em seu início, mesmo com seu respeitável 1,88m, o jogador era visto como um lateral direito e não como um zagueiro.

Na sequência, veio a temporada 2012-2013 e, com ela, novidades na vida do inglês. Na primeira metade da temporada, disputou 26 partidas pelo Barnsley na Championship, conhecendo no primeiro jogo do torneio sua primeira vitória. Pouco depois, contra o modesto Rochdale AFC, em encontro válido pela League Cup, marcou seu primeiro gol.

Aos 18 anos, Stones se afirmou como titular e peça importante de seu time.

Com isso, no apagar das luzes da janela de transferências do inverno europeu, no famigerado Deadline Day, Stones assinou um vínculo de cinco anos e meio com o Everton, por aproximadamente £3 Milhões.

A mudança para o Everton e a ascensão

Foto: Everton FC

Foto: Everton FC

“Estou muito empolgado por chegar aqui. Agora o trabalho duro começa. Com essas palavras, John Stones começou uma nova e importante etapa em sua carreira. No entanto, nos primeiros meses em Goodison Park, o jogador teve que se acostumar com uma velha realidade, atuando apenas pela equipe Sub-21 do Everton.

Naquele momento, o atleta também já havia representado a Seleção Inglesa Sub-19 e, pouco depois, ganharia oportunidades nos times Sub-20 e Sub-21.

Foto: Everton FC

Foto: Everton FC

Iniciada a temporada 2013-2014, os rumos da carreira de Stones voltaram a mudar e, dessa vez, para melhor. Sob o comando do recém-chegado Roberto Martínez, o jovem recebeu sua primeira oportunidade no time principal do Everton em partida válida pela League Cup, contra o Stevenage FC. Dias depois, fez sua estreia na Premier League, na vitória contra o Chelsea, por 1×0.

Com um elenco enxuto, o Everton foi forçado a lançar Stones no time a partir da segunda metade da Premier League, uma vez que o capitão Phil Jagielka sofreu grave lesão que o afastou dos gramados. Entre a 28ª e a 37ª rodadas, o beque foi titular em sequência. Ao final de 2013-2014, já tendo conquistado importante destaque, o defensor contabilizou 26 partidas na temporada e ganhou um prêmio: a lembrança na lista de 30 jogadores da Seleção Inglesa que viria ao Brasil, além da estreia pela equipe, na vitória contra o Peru, às vésperas da Copa.

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No final, não integrou a lista de 23 nomes, mas deixou clara a certeza de que seu nome voltaria a ser lembrado.

De contrato renovado ainda no início de agosto de 2014, estendendo seu vínculo até 2019, Stones cimentou seu lugar na equipe titular do Everton na temporada 2014-2015. Relegando o experiente Sylvain Distin ao banco de reservas, o jovem disputou 28 partidas e marcou seu primeiro gol pelos Toffees, na vitória de sua equipe contra o Manchester United, na 34ª rodada da Premier League.

Sua performance só não teve mais capítulos em função de uma lesão no tornozelo, sofrida ainda no início da temporada.

Foto: The Fa

Foto: The Fa

Na Premier League 2014-2015 o destaque de John foi tão grande que ficou evidenciado por suas estatísticas. O zagueiro do Everton conseguiu um aproveitamento de 68% de seus desarmes, 81% de recuperações de bola e 63% de ganho das bolas aéreas que disputou, isso tudo tendo recebido apenas um cartão amarelo e cometido apenas seis faltas (isso mesmo!). Além disso, foi o terceiro melhor zagueiro da Premier League, em porcentagem de acerto de passes (atrás de Terry e Skrtel) e foi eleito pelos torcedores do clube o melhor jogador da temporada.

Foto: Everton FC

Foto: Everton FC

Após o fracasso inglês na Copa do Mundo do Brasil, Stones ganhou mais duas oportunidades no English Team, nas vitórias contra a Noruega, em amistoso, e a Suíça, em partida válida pelas eliminatórias da Euro. Seu espaço no time de Roy Hodgson só não foi maior em função da referida lesão e em decorrência de o jovem ter representado a Seleção Sub-21 no período.

Foto: The FA

Foto: The FA

Crescimento profissional e aprendizado

Se o desenvolvimento do zagueiro tem sido espantosamente rápido, e o reconhecimento de seu potencial também, há de se admitir que nem tudo tem sido perfeito para Stones. Jogando numa posição em que um erro cometido pode ser fatal e custar os 3 pontos da partida, seu estilo de posse de bola e subidas ao ataque pode representar um risco, se executado num momento errado.

Em entrevista ao canal Sky Sports, quando perguntado sobre um exemplo de erro cometido pelo jogador que o marcou e que representou um ponto a ser melhorado em seu jogo, Stones destacou sua falha na leitura de jogo contra o Arsenal, que custou um gol de Giroud contra o Everton:

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“Eu tentei prever a jogada, achei que seria um cruzamento para trás e me posicionei, mas acabou sendo um passe direto para Giroud marcar com facilidade. Eu revi o lance algumas vezes e passei a treinar sempre focando em proteger meu gol em primeiro lugar, em vez de tentar antecipar e cortar certas jogadas.”

Em suma, um grande porém relacionado ao jogo de Stones é o de que, em determinadas situações, ele toma a decisão errada em relação ao que fazer num lance. Nada anormal em relação a um jovem talentoso em pleno desenvolvimento de suas capacidades. Por ser habilidoso com a bola nos pés, ágil e autoconfiante, Stones às vezes peca por não fazer o simples e acaba abusando de seu talento. O primeiro passo para a superação de um defeito é reconhecê-lo, e isso Stones o faz sem qualquer pudor. O jovem zagueiro tem em mente que ainda pode, e deve, melhorar muito para fazer jus a seu rótulo de jovem promessa do futebol inglês.

Os horizontes do futuro do beque

Com o sucesso e a juventude, o zagueiro passou a ser alvo de interesse de grandes clubes ingleses. Segundo a imprensa inglesa, Chelsea e Manchester United travam duelo pela contratação de Stones, mas quem de fato tem ido à carga para assegurar os serviços do jovem é o clube londrino. José Mourinho tem se mostrado impressionado com o futebol do beque do Everton e o enxerga como um substituto natural para John Terry, por suas características e por ser inglês.

Foto: Everton FC

Foto: Everton FC

No entanto, três propostas, uma de £20 Milhões, outra de £26 e uma última de £30, já teriam sido recusadas por Roberto Martínez, que chegou a dar declarações públicas, irritado, de que Stones é e permanecerá sendo defensor do Everton.

“É evidente que John (Stones) é um dos jovens talentos que estão evoluindo em nosso plantel e é natural que ele receba interesse de outros clubes. Mas John (Stones) é um jogador de Everton e não há mais nada a comentar sobre isso”, disse Roberto Martínez.

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A despeito disso, pode até ser que uma transferência não ocorra nesta temporada, mas é difícil acreditar que o futuro de Stones não lhe reserve uma mudança para uma equipe de maiores ambições (a imprensa inglesa noticia a existência de uma oferta de £40 milhões do Chelsea por ele). Se continuar evoluindo – o que parece ser uma tendência –, o Everton não conseguirá manter seu destaque.

Foto: Everton FC

Foto: Everton FC

Para todos os efeitos, para o torcedor inglês o aparecimento de Stones é uma nota positiva e traz alívio. A linhagem de bons zagueiros do país parece ter nele um novo representante e Roy Hodgson certamente dará, a cada convocação, mais oportunidades ao jovem. Titular absoluto do Everton, o defensor já conquistou um status de peça vital e seus próximos passos certamente atrairão a atenção do mundo.

“Nas construções antigas, a pedra angular era a pedra fundamental, a primeira a ser assentada na esquina do edifício, formando um ângulo reto entre duas paredes. Servia para definir a colocação das outras pedras e alinhar toda a construção. Portanto, uma pedra angular na construção de um edifício é a base sólida que ele necessita para conseguir chegar à altura programada, sem cair.”

Tomamos o sobrenome do zagueiro e fizemos uma analogia com o termo pedra angular, pois entendemos que a estrutura de um time começa numa defesa sólida que passa segurança e inicia todas as jogadas de sua equipe. Um zagueiro alto, forte, veloz, destemido e técnico com a bola nos pés é o sonho de todo treinador que sonha em construir uma defesa firme e intransponível.

John Stones dá totais indícios de ser desta estirpe de defensores, o inglês tem qualidade para ser a pedra angular da defesa, aquele jogador capaz de sustentar o peso e ser a base sólida necessária para que sua equipe não desmorone em campo.

Olho Nele!

 

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho), 25 anos. Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no O Futebólogo e na Revista Relvado.