O surpreendente primeiro turno do Brasileirão 2015

  • por Lucas Sousa
  • 6 Anos atrás
Montagem: Doentes por Futebol - Renato Augusto, Lucas Pratto e Luan, destaques dos três primeiros colocados

Montagem: Doentes por Futebol – Renato Augusto, Lucas Pratto e Luan, destaques dos três primeiros colocados

Acabou o primeiro turno do Campeonato Brasileiro 2015. Seguindo as previsões do início da temporada, Corinthians e Atlético-MG brigam pela ponta da tabela. As gratas surpresas Grêmio, Sport e Atlético PR, comandados por ótimos treinadores da “safra 2015”, também disputam as primeiras posições, assim como o reformulado Palmeiras e o Fluminense, em seu primeiro ano pós-Unimed. Na metade de baixo da tabela está o atual bicampeão Cruzeiro, que desmanchou o elenco vencedor e paga por isso, o Internacional, melhor brasileiro da última Libertadores, e a dupla Flamengo e Santos, ambos dando indícios de estarem entrando nos trilhos. Goiás, Coritiba, Joinville e Vasco iniciam a segunda metade da competição pensando em fugir do rebaixamento. No decorrer dessas 19 rodadas, diversos fatores que cercam o jogo ganharam muito.

A arbitragem é o que mais se destacou nesta reta final. Primeiro pelo autoritarismo dos homens do apito. Por diversas rodadas, foi quase proibido conversar com o árbitro e qualquer forma de tratamento que fugisse da formalidade era considerada agressiva e passível de cartão amarelo. Mas esse comportamento foi diminuindo e deu lugar a uma polêmica ainda maior. Bola na mão ou mão na bola: a arbitragem brasileira mostrou que ainda não existe um consenso sobre o que é falta. Lances idênticos tiveram marcações diferentes, times de casa foram favorecidos e prejudicados e um mesmo árbitro teve duas interpretações distintas para o mesmo tipo de lance. A conclusão é simples: a arbitragem brasileira está devendo muito. A própria organização do campeonato, que cria enormes burocracias em casos de suspensão e permite que alguém apite o jogo de um time do seu estado, é outro problema sério do Brasileirão.

Foto: Reprodução/Sportv - A "manchete" de Uendel contra o São Paulo

Foto: Reprodução/Sportv – A “manchete” de Uendel contra o São Paulo

A CBF, que organiza (ou deveria organizar) o campeonato, não da a mínima para ele. As rodadas não param nas datas FIFA e diversos jogadores desfalcarão suas equipes ao longo do torneio. O horário dos jogos é ruim: no meio de semana, terminam por volta da meia-noite porque têm que começar depois da novela – em algumas cidades, o transporte público na região do estádio já não funciona. Sair do estádio às 20:30 de domingo também não é lá muito agradável. O grande acerto do jogo às 11 horas tem mudado esse cenário, diminuindo o número de partidas domingo à noite. Ainda é pouco, mas é difícil esperar muito mais de uma confederação cujo ex-presidente está preso na Suíça e o atual tem receio de sair do país e ser extraditado. Os dirigentes de clubes não ficam muito atrás na incompetência de gerir o esporte.

Foto: Rafael Ribeiro/Site oficial - Marco Polo Del Nero não viajou para a Copa América, mas garante que pode sair do país

Foto: Rafael Ribeiro/Site oficial – Marco Polo Del Nero não viajou para a Copa América, mas garante que pode sair do país

Eurico Miranda se acha o dono do Vasco. Lá dentro, ninguém pode discordar do arrogante presidente. O time da colina está afundado na última colocação com apenas 13 pontos (11 a menos em relação a 2013, ano em que foi rebaixado) e está em seu terceiro técnico no campeonato, mas Eurico briga com a torcida, fala mais do que deveria, escala jogadores no time e “proíbe a palavra ‘rebaixamento’ no clube”. No sul, Vitorio Piffero demitiu Diego Aguirre a três dias de um Grenal. A boa campanha na Libertadores não foi suficiente para aguentar uma fase irregular no Brasileiro e o uruguaio deixou o Beira Rio com apenas nove derrotas em 48 jogos oficiais. O resultado foi a histórica goleada por 5×0 para o maior rival. Marcelo Oliveira, mesmo bicampeão com o Cruzeiro, também não resistiu a um início ruim e foi trocado por Vanderlei Luxemburgo, um dos muitos erros da diretoria celeste neste ano. Mudar o comando no decorrer do campeonato se tornou algo normal e em todo o primeiro turno foram 16 trocas de técnico, o que escancara a falta de planejamento dos clubes brasileiros.

Foto: Paulo Fernandes/Site oficial - Eurico Miranda com Jorginho, o treinador que vai tentar salvar o Vasco

Foto: Paulo Fernandes/Site oficial – Eurico Miranda com Jorginho, o treinador que vai tentar salvar o Vasco

Nesse cenário trágico, a maior surpresa: o campeonato está ótimo. O Brasileirão 2015 está mais equilibrado em relação à virada de turno do último ano, quando o Cruzeiro estava 7 pontos à frente do segundo colocado. Neste ano, a vantagem de 4 pontos dos paulistas só foi construída na última rodada. E a boa notícia é que isso acontece porque o campeonato está nivelado por cima, com várias equipes apresentando um bom futebol. Nas últimas rodadas, Cruzeiro x Palmeiras, Corinthians x Sport, Atlético-MG x Grêmio e Palmeiras x Flamengo proporcionaram grandes jogos. Esse avanço dentro de campo tem o dedo dos técnicos. Levir Culpi, Dorival Júnior e Tite tiraram um tempo do futebol brasileiro e voltaram melhores. Os novos treinadores Juan Carlos Osório, Eduardo Baptista, Milton Mendes e Roger Machado deram uma oxigenada na classe e aplicaram conceitos novos aos times do país, atualizando o nosso futebol.

Ao que tudo indica, o Campeonato Brasileiro 2015 será melhor tecnicamente, mais disputado e emocionante. Isso em meio a arbitragens ruins, burocracias desnecessárias e dirigentes que não valorizam o espetáculo. É surpreendente ver boas partidas com tanta desorganização no extracampo. O nível dentro das quatro linhas não corresponde ao dos bastidores e o campeonato acaba por entregar mais do que prometia. Isso nos leva a pensar em como poderia ser ainda melhor se houvesse um pouco mais de seriedade e profissionalismo no futebol brasileiro. E esse parece ser o maior empecilho.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.