Paul-Georges Ntep: talento bruto em lapidação

Foto: Stade Rennais F.C. / Ouest Médias

Foto: Stade Rennais F.C. / Ouest Médias

No dia 22 de maio de 2015, Didier Deschamps convocou a seleção francesa para a disputa de dois amistosos preparatórios para a Eurocopa de 2016 – contra Bélgica e Armênia. Entre os 24 atletas chamados, um nome em especial despertou a atenção: o atacante Paul-Georges Ntep, do Stade Rennais. Em meio a jogadores tarimbados, como Hugo Lloris, Karim Benzema e Patrice Evra, e outros expoentes, como Alexandre Lacazette e Antoine Griezmann, ele era um ilustre desconhecido.

Afinal de contas, o que fez DD convocar um jogador do modesto time bretão, 9º colocado da última temporada do Campeonato Francês? Na mesma época, Ntep fez nove gols e deu cinco assistências, números nada extraordinários, mas que o deixaram no topo do ranking do time nos dois quesitos. Mas muito mais do que os números, Ntep representa um dos últimos resquícios de atrevimento do futebol africano.

O atleta, de nacionalidade francesa, nasceu em Douala, maior cidade de Camarões, em 29 de julho de 1992. Com oito anos, emigrou para a França, com a irmã, para viver com a tia no subúrbio de Paris. Naquela época, já tinha vivo o sonho de ser jogador de futebol.

Até chegar ao Auxerre, em 2009 – quando já tinha 17 anos –, Ntep rodou por alguns clubes amadores e até foi rejeitado por Paris Saint-Germain e Lille. Entre os amadores, onde mais chamou a atenção foi no CS Brétigny Football, equipe que formou o lateral-esquerdo Patrice Evra, atualmente na Juventus. Por lá, impressionou seus treinadores, que lhe ofereceram um teste de três dias no Auxerre, clube que possuía uma parceria com o Brétigny. Neste período de treinamentos, o garoto franco-camaronês se destacou e assinou contrato de estágio com o clube.

Destaque nacional

Foto: BeIN Sport

Foto: BeIN Sport

A ascensão dentro do Auxerre foi meteórica. Do time sub-18, zarpou para a equipe reserva, que disputava a quarta divisão francesa, onde jogou regularmente. Na temporada 2010/2011, entre 18 e 19 anos, já treinava com os profissionais. Na mesma temporada, debutou no time de cima. Ele jogou pouco mais de dez minutos na derrota por 2×1 para o Ajax, na fase de grupos da Liga dos Campeões. Na goleada por 4×0 sobre o Bastia, nas oitavas de final da Copa da Liga, ele estreou em solo francês. Ntep entrou em campo aos 31 minutos da etapa inicial, quando Dennis Oliech se contundiu.

Logo na estreia nacional, o garoto de 18 anos mostrou a que veio e apresentou um pouco do seu cartel de dribles. Dessas jogadas, cavou duas expulsões no time adversário.

O bom rendimento, porém, não foi o suficiente para convencer o técnico Jean Fernandez a utilizá-lo em outras partidas na temporada e Ntep só voltou a aparecer no time titular do Auxerre dois anos depois, quando a equipe disputaria a segunda divisão.

A espera não foi em vão. Em 34 jogos na temporada 2012/2013, o atacante balançaria as redes nove vezes e daria quatro assistências. O desempenho lhe deu visibilidade. Com 20 anos e em um time que não conseguiu subir de divisão, já era cobiçado por clubes da elite e até mesmo por estrangeiros, como o Anderlecht, da Bélgica, e o El Jaish, do Qatar – que lhe ofereceu um pomposo salário anual. Porém, Ntep optou por ficar no Auxerre e ainda assinou um contrato até junho de 2015.

Mas quem disse que o AJA seguraria o garoto? Na primeira metade da temporada 2013/2014, Ntep simplesmente destruiu. Em 17 jogos, foram sete gols e duas assistências. Na pausa do inverno francês, ficou quase certo que ele não permaneceria no clube. O atacante quase partiu para a Inglaterra, onde vestiria a camisa do Queens Park Rangers, mas foi o Rennes quem levou vantagem e o contratou por 5 milhões de euros. Em entrevista ao FourFourTwo, ele explicou que pretendia atingir um nível superior na França antes de buscar o futebol exterior.

Foto: Stade Rennais FC

Foto: Stade Rennais FC

O time bretão não se arrependeu e viu o garoto voando, mesmo em um curto período da temporada. Foram apenas dez jogos, mas com cinco gols e uma assistência. O primeiro gol, inclusive, foi marcado no derby local contra o Nantes, na casa do time canário, no triunfo por 3×0.

Mas o jogo em que Ntep viria mesmo chamar a atenção aconteceria apenas na 36ª rodada. Na ocasião, o Rennes foi até a capital francesa enfrentar o Paris Saint-Germain, que poderia ser campeão já naquele dia. Mas ele quis estragar a festa e, com um gol e uma assistência, deu a vitória aos bretões por 2×1. O resultado não impediu o título parisiense, mas foi o suficiente para mostrar um pouco do que o franco-camaronês era capaz.

Gol polêmico


Dez dias depois, Ntep voltou a ser capa dos jornais franceses. Na vitória por 3×1 sobre o Stade de Reims, na última partida da temporada, ele fez o terceiro gol do Rennes, mas causou enorme polêmica. O atacante aproveitou o vacilo do goleiro e da zaga e caminhou para o gol. Quando a bola estava em cima da linha, ele se abaixou e rolou de cabeça para o fundo das redes. Muitos entenderam esse lance como um caso de humilhação ou desrespeito.

Ntep, evidentemente, teve de se pronunciar.

Primeiro: quero dizer que esta não foi uma tentativa de desrespeitar o Stade de Reims e sua torcida. Eu tenho 21 anos e jogo futebol com paixão. Faz apenas dois anos que sou profissional. Antes, eu era uma criança como qualquer outra que sonha em jogar futebol. E esse gol foi uma das coisas que sempre sonhei fazer. Eu fiz isso quando tinha 14 anos e prometi que faria de novo quando profissional. Eu realizei esse sonho e, sim, estou orgulhoso disso. Eu me diverti sem tentar machucar ninguém. O futebol é um prazer para mim e o dia em que não encontrar mais divertimento, vai ser o dia em que vou parar. Nunca se esqueça: o futebol foi feito para ser divertido – Paul Georges Ntep

Quem não entendeu assim foi o seu técnico, Philippe Montanier, que sacou o atacante em seguida e afirmou, após o citado jogo, que Ntep desrespeitou o adversário.

Seleção

Foto: Guillaume Bigot - FFF

Foto: Guillaume Bigot – FFF

Apesar de nascido em Camarões, Ntep sempre defendeu a França, país onde mora desde os oito anos. Ele jogou pelas seleções sub-18 e sub-19 por um e dois jogos, respectivamente. Pela equipe sub-20, começou a chamar mais a atenção. Em cinco partidas, dois gols. Já pela equipe sub-21, foram 14 atuações, entre amistosos e eliminatórias da Eurocopa. Ntep foi às redes sete vezes.

Não tardou para ser chamado por Deschamps para a seleção principal, como contamos no começo do artigo. No dia da convocação, DD justificou:

É, obviamente, um jogador jovem, com um perfil de jogo diferente, com muita velocidade. Muitos de nossos jogadores de frente estão jogando mais pelo centro, mas Ntep tem um estilo diferente, alterando bastante os lados. Ele faz muitas coisas boas no Rennes e tem boa margem de progressão. Será uma oportunidade chance para ele se juntar ao grupo e para que eu observa-lo durante os treinos e jogos – Didier Deschamps

E não faltou estrela ao garoto. Na estreia, diante da Bélgica, no Stade de France, Ntep deu uma assistência para o gol de Nabil Fekir – que também era estreante e já foi destaque aqui do “Olho Nele”.

Características

Insolente, arrogante, imprevisível, ultra-talentoso e único – Julien Laurens, jornalista do Le Parisien, RTL, BT Sport e ESPN

Ntep é um winger destro, utilizado, normalmente, pela esquerda. Na temporada 2014/2015, ele também jogou pelo lado oposto e como centroavante, mas obteve os melhores números atuando pela esquerda – 26 jogos, com seis gols e cinco assistências. Junto com o volante Abdoulaye Doucouré, de 22 anos, forma uma das duplas mais interessantes e consistentes do futebol francês. Os dois se completam, já que o cabeça de área mostra muita força nas roubadas de bola e tem Ntep como alvo principal. Um dos motivos para a afirmação no clube foi a parceria com Doucouré.

A característica mais forte de seu jogo é, sem dúvida alguma, o drible. Ele liderou o quesito no Rennes e ficou no top-10 em todo Campeonato Francês. Ntep carrega nas pernas a efervescência e o coração de quem aprendeu a jogar bola nas ruas de Douala, trazendo toda ginga e habilidade que marcou o futebol africano nos anos 90.

Por ser destro e atuar pela esquerda, o franco-camaronês também tem por hábito cortar por dentro para ter ângulo para finalizar com o pé direito – apesar de chutar com os dois pés.

Evidentemente, Ntep ainda tem pontos a melhorar. Por ser muito habilidoso, ele tem por hábito prender demais a bola e ter pouca noção do posicionamento dos companheiros. O atacante também é cobrado pela recomposição defensiva. Não à toa, o técnico Montanier diversas vezes organiza a equipe de uma maneira em que Ntep não precise marcar e possa se tornar uma arma de contragolpe, já que sua participação na defesa é praticamente nula.

Ntep também tem seus probleminhas extracampo. Em 2014, por exemplo, chegou a ser condenado a três meses de prisão por abuso a sua ex-namorada. O site France Bleu relatou, na época, que o jogador teria batido no rosto e no peito dela, arrastando-a pelos cabelos por alguns metros e ainda rasgado sua roupa. A punição foi suspensa porque a vítima retirou a denúncia.

Mas, voltando ao campo, muitos entendem que o futuro de Ntep está na Premier League e times como Liverpool e Aston Villa já monitoram o atleta, mas o nome do Bayern de Munique também surgiu semanas atrás. O franco-camaronês seria o substituto do compatriota Franck Ribéry em terras bávaras. Havendo verdade nisso ou não, uma coisa é certa: o Rennes vai ter um trabalho e tanto para segurar o valioso Paul-Georges Ntep.

Ficha Técnica

Nome: Paul-Georges Ntep de Madiba
Nascimento: 29 de julho de 1992 (23 anos), em Douala, Camarões
Nacionalidade: franco-camaronês
Altura: 1,80m
Clube: Rennes
Valor de mercado: 10 milhões de euros*

*De acordo com o site Transfermarkt

Comentários

Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.