Por que Grafite vai dar certo no Santa Cruz

Atacante já treina no Santa Cruz há quase um mês (Foto: Antônio Melcop/Facebook Santa Cruz)

Atacante já treina no Santa Cruz há quase um mês (Foto: Antônio Melcop/Facebook Santa Cruz)

Grafite sempre teve no Recife um refúgio para as férias. É a cidade onde vive boa parte da família de sua esposa, e a cada vez que ele aparecia na capital pernambucana, atiçava nos torcedores do Santa Cruz o desejo de vê-lo novamente com a camisa coral. Finalmente, esse momento chegou – e em grande estilo. No início de julho, ele foi apresentado com uma festa para mais de sete mil torcedores, que lotaram as sociais do Arruda numa tarde de quarta-feira. Teve banda e até chegada de helicóptero do ídolo, que fez um discurso emocionado para o público.

Foi quase um mês de espera pela concretização da transferência. Faltava chegar a documentação da rescisão com o Al-Sadd, seu último clube, para que ele fosse registrado pela CBF. Mas no dia 23, toda essa burocracia foi resolvida. Começou, então, a preparação física do ídolo para a estreia já marcada: contra o Botafogo, neste sábado, dia 8 de agosto. Mas Grafite volta ao futebol pernambucano cercado de dúvidas. Principalmente pelo fato de ter passado tanto tempo – quatro anos – no chamado “mundo árabe”.

Apresentação de ídolo (Foto: Divulgação Santa Cruz)

Apresentação de ídolo (Foto: Divulgação Santa Cruz)

Não dá para dizer que essas reticências não sejam pertinentes. Os exemplos de jogadores que voltam do Oriente Médio em ritmo defasado em relação ao do futebol nacional são inúmeros. Mas há também aqueles que retornaram ao Brasil como se nunca tivessem deixado o esporte de alto nível. Que conseguiram chegar como solução imediata para seus clubes, e logo se reafirmaram como atletas de ponta. E esses são apenas alguns dos sete argumentos em que o Doentes por Futebol se baseia para dar ao torcedor coral a esperança de que Grafite vai, sim, dar certo em seu retorno ao Santa Cruz.

1- Sucesso recente

No Al-Ahli, Grafite marcou mais de 80 gols em quatro anos (Foto: Al-Ittihad)

No Al-Ahli, Grafite marcou mais de 80 gols em quatro anos (Foto: Al-Ittihad)

Primeiramente, é preciso lembrar que a experiência dele no futebol dos Emirados Árabes não foi marcada por episódios negativos. Com a camisa do Al-Ahli, Grafite se tornou querido no clube e referência no país. Foi escolhido jogador estrangeiro do ano em 12/13 (temporada em que marcou 24 gols em 22 partidas) e classificou sua equipe para a Liga dos Campeões Asiática. Somando com a passagem pelo Al-Sadd, foram praticamente quatro anos com média de 0,71 gol por jogo.

O goleador só veio ter uma queda de rendimento a partir do segundo semestre de 2014, quando uma lesão na panturrilha o tirou da pré-temporada e terminou atrapalhando toda a sua campanha. Porém, recuperado, Grafite pode mostrar na Série B algo que muitos atacantes, de todas as idades, já provaram na Série A: existe vida no futebol após uma passagem pelo Oriente Médio.

2- Thiago Ribeiro

Pelo Cruzeiro, Thiago Ribeiro brilhou na Libertadores de 2010 (Foto: Divulgação/Cruzeiro)

Pelo Cruzeiro, Thiago Ribeiro brilhou na Libertadores de 2010 (Foto: Divulgação/Cruzeiro)

Ele explodiu como uma das revelações mais promissoras do futebol brasileiro, no São Paulo. Mas não conseguiu manter seu melhor nível e terminou perdendo valor de mercado. Foi, então, negociado pelo Tricolor com o Al-Rayyan, do Catar, por intermédio do Rentistas, clube que pertence ao seu empresário. Lá ficou durante pouco mais de um ano e meio, até retornar, com 22 anos, ao futebol nacional, para vestir a camisa do Cruzeiro.

Foi no clube mineiro que Thiago conseguiu ter momentos de brilho como aqueles de seu início de carreira. Começou a mostrar mais consistência e regularidade. Aos poucos, foi encontrando seu espaço no time. Até alcançar seu melhor desempenho na Libertadores de 2010. Depois de sobrar na fase de grupos, a Raposa foi eliminada nas oitavas de final pelo São Paulo. Mas a saída precoce não impediu que o atacante marcasse oito gols e ficasse com a artilharia da competição. Ele ainda ficou no Cruzeiro até 2011, quando recebeu do Cagliari a chance de jogar no futebol europeu.

3- Diego Tardelli

O Galo foi o clube onde Diego Tardelli enfim atingiu seu potencial (Foto: Bruno Cantini/Atlético-MG)

O Galo foi o clube onde Diego Tardelli enfim atingiu seu potencial (Foto: Bruno Cantini/Atlético-MG)

No São Paulo, Diego Tardelli ficou conhecido como um jogador irregular. Mas foi no Atlético Mineiro que ele deixou essa imagem para trás e construiu uma outra: de um atacante participativo, móvel e decisivo. Entre 2009 e 2011, ele conquistou a idolatria dos atleticanos. Entretanto, deixou o clube por uma proposta irrecusável do (ex-)milionário Anzhi e saiu do futebol brasileiro por duas temporadas: a primeira, na Rússia; a segunda, no Al-Gharafa, que pagou 7 mi de euros para levá-lo ao Catar.

Depois dessa passagem pelo futebol árabe, Tardelli anunciou sua volta ao clube que o tinha acolhido como ídolo. E teve impacto imediato: foi fundamental para a conquista mais importante da história do Atlético, a Libertadores de 2013. Em grande fase, o time fez do atacante uma referência na posição no país, enquanto os gols do camisa 9 deram ao clube outras duas taças épicas: a Recopa Sul-Americana e a Copa do Brasil, em 2014. As grandes atuações garantiram a Tardelli sua volta à Seleção, onde ele ganhou o respeito de Dunga.

4- Emerson Sheik

Sheik voltou do Catar para vencer um Brasileiro com o Fluminense (Foto: Ralff Santos/ASCOM/FFC)

Sheik voltou do Catar para vencer um Brasileiro com o Fluminense (Foto: Ralff Santos/ASCOM/FFC)

Quando chegou ao futebol brasileiro, no início de 2009, Emerson era um atacante quase desconhecido. Aos 30 anos, ele havia construído toda a sua carreira no futebol asiático e era apresentado no Flamengo como uma aposta. Mas logo tornou-se um jogador importante daquele time que viria a conquistar o título brasileiro. Por isso mesmo, recebeu uma proposta milionária para retornar ao Catar. Não deu para recusar. Ele deixou o Fla e passou quase um ano no Oriente Médio, antes de voltar ao Rio para jogar no Fluminense.

No Tricolor carioca, o atacante mostrou que sua forma era a mesma do jogador que havia brilhado no Flamengo. Mais do que isso: mostrou que sua presença era quase um amuleto. Naquele ano, o Flu levou o Brasileirão. No ano seguinte, ele partiu para o Corinthians, onde conquistaria as duas taças mais importantes da história do clube: a Libertadores e o Mundial de 2012, sempre com o irreverente jogador em posição de protagonismo.

5- Dodô

Após passagem apagada pelo Goiás, Dodô parecia na reta final da carreira, mas voltou ao auge no Botafogo (Foto: Divulgação/Botafogo FR)

Após passagem apagada pelo Goiás, Dodô parecia na reta final da carreira, mas voltou ao auge no Botafogo (Foto: Divulgação/Botafogo FR)

Conhecido como “artilheiro dos gols bonitos”, Dodô vestiu várias camisas do futebol brasileiro durante a década de 90. Ele já parecia no ocaso de sua carreira quando, em 2006, teve uma passagem pelo Botafogo que mudou seu destino no esporte. O desempenho avassalador fez dele um jogador valorizado, que logo encontrou mercado no Oriente Médio. E graças a uma cláusula no seu contrato, ele foi negociado sem custos com o Al-Ain, do Catar.

Mas a estada no país árabe durou pouco mais de um ano. Em 2007, Dodô retornava ao Alvinegro carioca. E conseguiu repetir aquele futebol vistoso. Foi o grande destaque de um time que contava também com Lúcio Flávio – mais um retornado do Oriente Médio -, Diguinho, entre outros. Faltou o Bota levantar alguma taça durante aquele ano, mas pelo menos o artilheiro teve algo a comemorar: faturou a Chuteira de Ouro, com 34 gols marcados na temporada.

6- Ricardo Oliveira

Ricardo Oliveira voltou ao Brasil como "ex-jogador", mas vem brigando por todas as artilharias que disputa (Foto: Ivan Storti/Santos FC)

Ricardo Oliveira voltou ao Brasil como “ex-jogador”, mas vem brigando por todas as artilharias que disputa (Foto: Ivan Storti/Santos FC)

Depois de praticamente implorar por uma oportunidade de voltar a atuar em seu país-natal, Ricardo Oliveira terminou recebendo do Santos a chance que ele tanto queria. Com ressalvas, no entanto: um contrato de apenas quatro meses com salário irrisório. Afinal, com 34 anos de idade, ele vinha de quase cinco temporadas jogando pelo Al-Jazira, dos Emirados Árabes, e voltava a vestir a camisa do clube que havia sido sua ponte para o futebol europeu em 2003.

O atacante demorou um pouco para engatar no Alvinegro praiano: marcou apenas um gol nas primeiras sete partidas. Mas desde então, nos 25 jogos seguintes, marcou outros 18, e vem sendo um dos poucos pontos positivos do clube paulista em 2015. Até por isso, já recebeu uma merecida valorização salarial – foi a única maneira de fazê-lo resistir ao assédio que ele sofreu após o desfecho da exitosa campanha santista no Paulistão. No Brasileiro, ele segue sendo referência e fazendo gols importantes.

7- Carência, do Tricolor e da Série B

Comandado por João Paulo, meio-campo tricolor tem sentido falta de uma referência na frente (Foto: Antônio Melcop/Santa Cruz FC)

Comandado por João Paulo, meio-campo tricolor tem sentido falta de uma referência na frente (Foto: Antônio Melcop/Santa Cruz FC)

O caso de Grafite tem uma chance ainda maior de dar certo porque o atacante volta ao Brasil para jogar em um campeonato de nível técnico fraco, em que a força geralmente prevalece sobre a qualidade individual dos atletas e os esquemas montados pelos técnicos. Por isso, ele tende a ser um enorme desafogo para o Santa Cruz – um time que desde o início do ano vem fazendo sua torcida sofrer com a ausência de um centroavante.

Sua grande compleição física – ele tem 1,89m – deve ajudar a prender a bola no ataque e dar tempo para a aproximação de companheiros como João Paulo, Anderson Aquino e Lelê. A volta do ídolo representa, portanto, muito mais do que uma contratação midiática: será também a solução de problemas que a equipe vem tendo no plano tático e estratégico.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.