A necessária mudança de mentalidade

“O problema do futebol brasileiro é a mentalidade atrasada. É uma questão cultural e até estrutural”.

Quantas vezes você já viu analistas, os de verdade, comentarem algo do tipo?

Pois é… a ideia deste texto é tentar explicar o que isso realmente significa. No futebol brasileiro, vivemos um eterno paradoxo conceitual: time competitivo (“peleador”) e com sangue na veia versus equipe (“talentosa”) coletivamente bem montada.

Não que sejam – na prática – necessariamente dois conceitos antagônicos, mas essa dicotomia (aparente) à brasileira é sintomática: promove um reducionismo que diminui o esporte com tantas variáveis (técnica, tática, física, psicológica etc) a um universo baseado unicamente em emoções, onde sentir quase sempre vale mais do que pensar, planejar.

O slogan na camisa da CBF não deixa mentir: o brasileiro ainda acredita no dom inato de jogar futebol, deixando de lado dimensões importantes como planejamento e intervenção controlada

O slogan na camisa da CBF não deixa mentir: o brasileiro ainda acredita no dom inato de jogar futebol, deixando de lado dimensões importantes como planejamento e intervenção controlada

Isso é natural no país ainda rotulado como o do futebol e que já revelou tantos craques, marcando gerações pelos momentos espetaculares e mágicos dentro de campo.

A espetacularização é saudável para o esporte, principalmente para o imaginário do torcedor, que cheio de pensamentos utópicos acaba priorizando sempre a individualidade e sua capacidade de decidir jogos num lance. Mas futebol de alto nível não pode ser só isso.

Aqui, criou-se o hábito de associar “futebol bonito” com ilusões, dribles e jogadas individuais. E do outro lado: o jogo duro, time de guerreiros, que lutam, se entregam taticamente (quem não lembra do Fluminense de 2009 desta forma?).

A visão do que acontece dentro das quatro linhas parece teledramaturgia. Quase tudo é paixão e dramaemoção (“raça”) ou a falta dela.

Isso com requintes de maniqueísmo que tanto gostamos: o bem e o mau posicionados em lados opostos. Não interessa como, o importante é vencer. E os meios de comunicação alimentam essa ideia, afinal, é o que mantém o torcedor passional ligado até o fim.

Dessa vez é no Brasil
Essa bola tá com a gente, o desafio
É juntar talento lá do coração

No Brasil, isso é normal
Em todo canto tem um craque mundial
Feito de paixão
Buscando a vitória, sempre a vitória
Persegue a taça e vai com raça até o final

Agora somos um só
É nossa escola
De super, superação
Vai que dá Brasil, hexacampeão
Eu sei que vou
Vou do jeito que eu sei
De gol em gol
Com direito a replay
Eu sei que vou
Com o coração batendo a mil
É taça na raça, Brasil!

 

A verdade é que a crônica romântica e seus ingredientes, tão idealizada por cronistas que influenciaram uma geração de jornalistas, persiste até hoje em nossa mentalidade, nossa cultura futebolística: feita de tragédias, milagres, redenções e guerreiros vencedores ou fracassados.

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O futebol é, sim, como uma tropa de 11 guerreiros. Mas distribuídos de forma inteligente – tática – para sobrepujar o oponente.

É movimento, é muita coisa. Nem vale a pena reduzir em uma ou duas palavras algo tão complexo, que vive em constante evolução. Voltando ao nosso atraso, a magia de outrora já não existe mais com a mesma abundância, porque foi sobrepujada por uma cultura de resultados, onde o culpado é sempre o técnico. Ele vai de herói a vilão em instantes.

Contudo, o esporte bretão segue evoluindo muito graças à figuras emblemáticas como Rinus Michels, Johan Cruyff, Arrigo Sacchi, Pep Guardiola,  Carlo Ancelotti, Jorge Sampaoli e seus estudiosos contemporâneos. Sim, futebol também é estudo, é teoria, filosofia, proposta de jogo. Quem ainda não se deu conta disso, vai ficando para trás.

Leia mais: As ideias de Sampaoli, uma lição para o Brasil

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O jogo, que fora do país já era mais coletivo, ficou ainda mais intenso e compacto. Estratégico. Ainda que no fundo o objetivo básico seja o mesmo: criar e ocupar espaços ou defendê-los. No Brasil, isso seria taxado de “maluquice” ou “complexo de professor pardal”. Velhos estereótipos.

O velho slogan do "demitir para criar um fato novo". Deu muito certo para o Internacional. Demitiram Aguirre e tomaram um antológico 5 x 0 do organizado time do Grêmio.

O velho slogan do “demitir para criar um fato novo”. Deu muito certo para o Internacional. Demitiram Aguirre e tomaram um antológico 5 x 0 do organizado time do Grêmio.

Por aqui, segue valendo o resultado. Se vencer, há evolução. Se perder, é início de crise. Tudo por uma boa crônica com os imprescindíveis personagens: o protagonista e o antagonista.

Times como aquele Cruzeiro de Marcelo Oliveira, o atual Corinthians de Tite, o Grêmio de Roger Machado e o Sport de Eduardo Baptista servem de certo alento. Talvez, a tal mudança esteja acontecendo, mesmo que em passos de tartaruga.

Futebol vai muito além de raça e talento inato para jogar. O Brasil ainda precisa assimilar que jogar bonito vai além de driblar e saber bater na bola.

Comentários

Aspirante a jornalista esportivo e fã de futebol internacional, principalmente Premier League. Adepto da seguinte tese: todo jornalista precisa ser um bom contador de histórias. Sonhador, mas pouco otimista. Olhar crítico e com critério. Abomino paradigmas e modinhas.